Sobre este seríssimo assunto de estarmos aqui a morrer aos poucos no Interior, penso sinceramente que havemos de sair mais fortalecidos no final das contas, se não desvanecermos de todo antes. Há caminhos que vão sendo feitos, há gente boa a trabalhar, há sinais de uma nova confiança e ambição. Não é ingenuidade, não se trata de optimismo vazio, é apenas a minha percepção de que existe um certo despertar de almas. Não sei é se vem a tempo. Porque o risco de o Interior morrer de facto, ou ficar moribundo durante décadas, é real, se as coisas não mudarem definitivamente de rumo. Pode ser que a tomada de consciência destes riscos seja o derradeiro estímulo para o início de uma transformação. Pode ser.
O desequilíbrio entre Interior e Litoral é coisa de séculos. A localização da maior parte dos grandes centros na zona Litoral era já um convite à saída para o mar (se pensarmos na razão de ser dessa localização recuaremos milénios e não séculos). E então fizemo-nos ao mar. O Litoral ganhou definitivamente grande importância em tudo, enquanto boa parte do nosso Interior começava a ser esquecido. Talvez fosse inevitável. Em todo o caso, o Interior continuava a encontrar ainda nas actividades mais tradicionais uma vitalidade própria. Só muito mais tarde a situação se degradou a sério, com o despontar de actividades como a indústria e os serviços, muito mais dependentes da tecnologia e do conhecimento. Por efeitos da inércia e de falta de visão política, essas actividades concentraram-se predominantemente no Litoral (para não falar do que se passava noutras paragens, noutros países).
O esvaziamento de muitas regiões do país foi avassalador, no último meio século. De há algum tempo a esta parte tem sido tema de discussão a nível nacional. Muito se tem discutido, de resto. Talvez demais. Nós próprios, ‘interioranos’, nos perdemos às vezes em análises de todo o género, no estudo das opções estratégicas e afins. Não digo que isso não tenha importância nenhuma, mas o que não podemos é esquecemo-nos de caminhar, de fazer coisas, de experimentar. Já todos temos consciência dos problemas que defrontamos. Já se fizeram mais que muitos diagnósticos. Pessoalmente dou apenas uma importância relativa a discussões em volta de temas como a distinção entre o que cabe fazer às autarquias e o que é que cabe ao governo; ou saber se essas autarquias devem ou não conciliar estratégias entre si; ou se é melhor apoiar as empresas que queiram investir na região ou tentar atrair pessoas através de benefícios vários; ou ainda perceber se a melhor aposta está no turismo ou se por outro lado não podemos passar sem alguma indústria. Experimente-se: o que resultar é bom.
Eu não sou exemplo, uma vez que me limito a ‘palpitar’ umas ideias, em vez de fazer. Em todo o caso, palpito também que se não fizerem bem, as ideias, também não hão-de fazer mal, não é por aqui que se perde o fio à meada. Aliás, aqueles que parecem querer olhar de novo para o Interior como lugar de oportunidade e esperança depois de derramadas todas as lágrimas pelo quase tudo que se perdeu – dos quais falei no início (e de que tentarei dar exemplos noutras oportunidades) – não actuam primordialmente em função das muitas leituras que se vão fazendo.
Depois de uma catástrofe séria numa área natural, as formas de vida mais simples encarregam-se aos poucos de ocupar o espaço vazio. E atrás desses primeiros rebentos vêm outros, de raízes mais fundas. Nem todos vingam, mas a Natureza não desiste. Mais cedo ou mais tarde, tudo estará recomposto.
Gostava que esta metáfora viesse a aplicar-se ao Interior. A parte da catástrofe já está.
Tuesday, September 29, 2009
Interior nosso
Thursday, September 24, 2009
Monday, September 21, 2009
Tenho de encontrar alguma coisa
Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa.
Thursday, September 17, 2009
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
Assim também eu criava colhões!
(Homem gritando do lugar do passageiro de uma viatura que abrandou a sua marcha e se abeirou de outro, aparentemente conhecido do primeiro, e que, imóvel, ensimesmado e de boné na cabeça, se encontrava sentado num banco de jardim, a apanhar o sol da tarde de braços e pernas afastados; hoje, praça central de Eiras de Sabaio)
Monday, September 14, 2009
O mal-da -terra
...A emigrazon y ó Rey, arrebatanlles de continuo,
o amante, o hirman, o seu home, sosten dá familia
de cote numerosa, e asi, abandonadas, chorando o
seu desamparo, pasan a amarga vida ant'ras incer-
tidumbres d'a esperanza, á negrura d'a soidade y
as angustias d'un-ha perene miseria. Y o mais des-
consolador par' élas, e, que os seus homes vans' in-
do todos, uns por que ll'os levan y outros porque o
exempro, as necesidades, âs veces un-ha cobiza,
anque disculpabre, cêga, fannos fuxir d'o lar queri-
do, d'aquela á quen amaron, d'a esposa xá nay e
dos numerosos fillos...
(Rosalia Castro de Murguía)
Thursday, September 10, 2009
Baunilha e chocolate - que humanidade é esta?
Há agora umas sobremesas muito boas de baunilha e chocolate no Minipreço de Romaride. Onde vou às vezes. E há agora crianças neste país que são uns príncipes birrentos e chorões. Eu também lá vou por causa das refeições congeladas, não como só baunilha e chocolate. As crianças é que não, querem tudo o que lhes apetece aos berros. A mim apeteceu-me há dias dar uma bolachona a uma, mas sou responsável e não estive para a estragar com mimos, se fosse à mãe comprava-lhe hortaliça para ficar forte em vez de chupas, como sou eu comprei pão caseiro para mim.
Mas gosto suficientemente de crianças para olhar às vezes para mulheres como quem admite arriscar-se a engravidá-las um pouco, bem aí umas quatro ou cinco delas faço-lhes isso entre ir e não vir do supermercado, de semana. Se for ao Modelo na sede de concelho talvez cheguem às trinta. Acho isto normal. Sete ou oito vezes por mês em média, durante dez anos, e pode acabar por me aparecer uma de tal maneira que me convença a ir às compras com uma criança, só que das nossas (a não ser que seja só para dar beijinhos), em todo o caso depois senta-se à mesa e não toca em sobremesa nenhuma enquanto não comer a sopa de feijão verde.
Agora apenas indo eu ainda a caminho do Minipreço tive foi e de que maneira uma vontade cega de matar um velho que entrou de repente de mota a seguir à curva da Cardosa.
Ao todo, de casa a Romaride e de Romaride a casa, acho que me cruzei com umas dezasseis pessoas, e catorze nem olharam para mim (saberiam de alguma coisa?, foi, foi, que eu deixo transparecer tudo).
Por fim voltei para casa e acaba já a seguir: as sobremesas estavam fora do prazo, a rapariga da caixa fora uma das que olhara para mim mas havia sido gorda e mal-encarada, e eu não sei fazer sopa de feijão verde. Ora bem, estando a gente em Eiras de Sabaio, não haverá por perto, eirenses, um pequeno comércio tradicional onde as crianças vão sozinhas buscar o pimentão que falta às mães e a gente encontra alguém que tem a saúde de espírito necessária para saber fazer uma sobremesa a sério (as do Minipreço também as há de caramelo e não são piores)?
Monday, September 7, 2009
Thursday, September 3, 2009
Entrevistas a pessoas da nossa terra
A Maria João não é natural do Vale Interior, nasceu em Lisboa e aí viveu até se ter mudado para cá, há cerca de cinco anos. Deixou a profissão, Educadora de Infância, e abriu um pequeno negócio em Eiras de Sabaio. Onde tem aproveitado a oportunidade de desenvolver as suas capacidades pessoais em diversas áreas. Com ela, podemos aprender a ter perspectivas diferentes sobre o Vale.Filipa – Depois de ter passado estes últimos cinco anos no Vale Interior de certeza que já o conhece bem. O que é que a região lhe diz de especial? Já se sente plenamente integrada?
Mª João – Sim, se não somos já carne e unha anda lá perto. Mas isto é uma iniciação, o conhecimento nunca tem fim. Nestes quase cinco anos já fiz, se quiseres, o 1º ciclo. Sei o básico. Passava no exame – com boa nota, quem sabe! Pelo menos tenho-me esforçado. Penso que me senti integrado logo desde o início. Cada vez mais, claro.
Filipa – Como era a sua vida em Lisboa?
Mª João – Agitada, corre-se muito e não se sai do lugar. Sempre a mesma coisa durante… muito tempo. Sempre soube que me faltava algo. Mas posso dizer-te do que é que eu gostava, também: de ir ver bailado, moderno e clássico, sou uma louca; dos santos populares; dos elevadores; de contemplar o rio. Há muitas coisas fantásticas. Lisboa é um sítio interessante para visitar, para questionares os teus equilíbrios, porque ao mesmo tempo tens a energia e a melancolia. É super confusa, acidentada, e depois as pessoas foram construindo tudo em camadas. Ao longo da história, foi-se construindo. Não tem uma força estável, uma ordem, não é? A própria terra me dá razão, de vez em quando, dá uns abanõezitos. Por isso, é bom para libertares as tensões internas. Eu vou lá quando sinto que preciso de baralhar e dar de novo. Mas depois afasto-me. É bom para visitar, mas para viver para mim não.
Filipa – Foi por isso que veio para o Vale Interior? Veio à procura de paz?
Mª João – Pode dizer-se que sim. Os lugares é a gente que os faz, acredito nisso. Mas para isso eles têm realmente de nos dizer alguma coisa também, como dizias muito bem.
Filipa – E o que é que o Vale lhe diz? Acha que as pessoas que são de cá também podem ouvir?
Mª João – É quase impossível explicar por palavras. Toda a Terra te pode acolher, não é? Ou melhor, toda a Terra pode acolher pessoas, toda a Terra pode acolher gente! Só que nem todos os lugares são iguais para toda a gente. Depende também da sensibilidade e do momento, do desenvolvimento pessoal. Muitas pessoas não sabem traduzir isto. Muitas vezes as pessoas dizem ‘não gosto deste sítio’, mas não sabem dizer, ou não percebem porquê. Pode ser por causa da paisagem, do ambiente, e elas podem dizer isso. Mas muitas vezes não percebem que o lugar lhes está a comunicar através de sinais ao seu… interior, vamos lá, ao seu ser mais profundo, que é próprio de cada pessoa. São sinais, são… coisas que as pessoas não sabem traduzir, não aprenderam a descodificar. E então dizem que não se sentem bem, ou que não gostam deste lugar, ou daquele lugar, isso ouve-se muito.
Filipa – E quais são esses sinais aqui no Vale Interior?
Mª João – Pronto, para mim há alguns pontos de referência específicos e há também uma atmosfera, como uma personalidade deste lugar. Em Lisboa também há, por exemplo falei-te na energia e melancolia, aqui há uma energia… – ah, mas em Lisboa é uma energia mais caótica, mais tensa – aqui é uma energia mais de ligação. O vale acolhe, tem uma alma forte, mas não prende. Tem espaço, os cumes estão afastados e têm uma inclinação suave. E isso nota-se em tudo, nas plantas, nas árvores, até nas pessoas. É concêntrico mas tem por onde libertar a carga que acumula. Tem por exemplo o rio, um canal que atravessa este prato todo e comunica para além dele. Eu às vezes imagino que é uma espécie de disco, como os pratos de uma antena parabólica. É um emissor que liga a energia proveniente, não sei, do espaço, de tudo o que flutua na atmosfera, e a recolhe para a terra. Ao memo tempo acumula e o prato faz de reflector para um determinado ponto no espaço. Faz uma ligação nos dois sentidos. E é isso que eu sinto de especial. Tem mais a ver com o nosso mapa interno, com o nosso íntimo. Agora, cada um faz a sua leitura. Não tem nada de extraordinário, toda a gente sente estas coisas, só que nem todos param para pensar e sentir. Eu às vezes sinto esta ligação de uma maneira… muito forte mesmo. Não tem explicação, mesmo que te quisesse dizer… às vezes sinto a energia a correr através de mim nos dois sentidos, e é como se fosse mãe e filha deste chão que estou a pisar. Já te aconteceu alguma vez?
Filipa – Ainda não.
Mª João – Também ainda és muito nova, mas hás-de experimentar andar descalça. Sentir o chão.
Filipa – O que é que se pode aprender nas suas visitas guiadas?
Mª João – Isso é um bom exemplo. Eu acho que uma experiência se deve desenvolver em vários planos, ser a mais rica possível, e depois cada um retira aquilo que está de acordo com os seus interesses e sensibilidade. Por isso eu não me foco em nada de muito específico, mas num todo. O importante é que faça sentido. Há pessoas que vêm e se identificam mais com a paisagem, outras com a gastronomia, enfim, pode ser um passeio turístico como qualquer outro. O contacto com a natureza, andar a cavalo, essas coisas. Depois fazemos na quinta actividades, relacionadas com as artes – aprendem artesanato também, quem quiser. Fazemos diversas técnicas espirituais ou de relaxamento e meditação, aprendemos sobre alimentação, tudo isso. O que é giro é depois incluir tudo numa visita guiada, e isso já depende da época do ano, da disponibilidade de algumas pessoas da região, porque levamos mesmo os visitantes aos locais, mostramos o artesão, ouvimos falar das lendas e das histórias locais. Eu falo normalmente um bocado da minha interpretação espiritual do Vale Interior, baseada na minha experiência e na pesquisa a diversos autores – falo do Rio Sabaio, da Pedra da Salga, da configuração do Vale, os seus montes, as suas grutas, mas também das plantas, das ervas medicinais, que as pessoas recolhem também muitas vezes. Depois fazemos um almoço que inclui produtos da região, podemos aplicar à tarde, por exemplo, algumas técnicas, ou vamos para as artes, num local bonito, ou com determinadas características especiais. Enfim, não há duas visitas iguais.
Sunday, August 30, 2009
Não uma estátua, mas um grande beijo
Enquanto o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde e os da Economia e das Finanças (e os outros) andam a brincar aos ministérios, e enquanto grande número de instituições e entidades andam a brincar às instituições e às entidades, o país conta com uma quinta coluna que miraculosamente o vai aguentando. Chamam-se as avós.
E chamam-se os avôs, e as tias, e os vizinhos e todos nós. A Nação agradece o esforço de todos (lá bem no fundo, pois então), e cada um que explique as coisas como entender, mas a verdade é que boa parte das famílias estaria bem mal arranjada, não fosse a ajuda das que já foram mães e agora são também avós. Isto diz muito das avós que temos, mas diz mais ainda do país que temos. Guiadas pela educação ou pelo instinto, o que é certo é que elas já contam com a ajuda que hão-de dar. E nós com ela. É normal. Ou seria, se não tivéssemos passado por uma série de mudanças sociais – desde logo a entrada das mulheres no mercado de trabalho – que, apesar de importantíssimas, trouxeram problemas novos. O país (ou seja, nós) não soube encontrar formas de dar resposta a estas mudanças. Mais fica para a avó: é o preparar, o levar e o trazer as crianças da escola; depois há o cuidar, nas horas livres e na doença – e não só de miúdos; são as refeições para os grandes ajuntamentos familiares e as feitas à pressa para quem aparece sem aviso.
Sabemos que facilmente se encheria uma página com exemplos. Quando tudo o resto falha, só mesmo quem se habituou desde cedo a atender mais a solicitações alheias do que às suas parece ter ainda a disponibilidade e o saber necessários para acudir aos tais problemas novos. Que talvez nem o sejam, se ao fim e ao cabo as solicitações não são muito diferentes das de sempre.
Posso cometer uma injustiça (aliás, a generalização já é uma forma de injustiça), mas para mim a avó é a reserva e ao mesmo tempo o melhor símbolo do nosso património cívico. A morfologia da intuição, aliás, devia poder levar a melhor sobre a semântica dos dicionários, consagrando-se a palavra matrimónio em casos como este. Património ficaria para os monumentos e para os registos de propriedade.
A propósito, não é uma estátua que as avós merecem. É mesmo um grande beijo.
Wednesday, August 26, 2009
Die «heisseste» Hochzeit des Jahres!!!
Heute, am 14. Juli 1990, geben sich die attraktive Manuela und der Kontaktfreudige Ürsel das Ja-Wort.
Manuela (29) und Urs (30) lernten sich vor 3 Jahren(?) kennen. Ein heisser Blick, es funkt, und zwei Herzen brannten lichterloh (118). Von da an war jedem klar, das gibt ein Traumpaar. So ist es geblieben, am 1. Dezember 1989 wurde der Vertrag unterschrieben.
Hoje, 14 de Julho 1990, dào a actractiva Manuela e o bastante sociàvel Urs a palavra-Sim.
Manuela (29) e Urs (30) conheceram se à 3 anos. Um olhar fogoso, e pronto, dois corações ardem em chamas (115). A partir daí era a todos claro, seria um paridem. Assim permaneceu, e em dezembru 1989, foi o contrato assinado.
(de uma edição em formato de jornal, no topo do qual se encontram os dizeres PETRI-HEIL-ZEITUNG , salvo melhor opinião, que no mesmo topo se imprimiu também o desenho de um peixe, a cauda dele vindo a cobrir parte das letras que formam os ditos)
Sunday, August 23, 2009
Wednesday, August 19, 2009
Como
Quais são as boas comidas que há que sejam rápidas de fazer sem trabalho e bem boas, não importa? Imagina, quando tu chegas numa noite e tens aquela necessidade de um petisco especial improvisado para devorar e esquecer. Piiim.
Num prato fundo ou tigela partes uma banana em bocados com uns dois a três centímetros. Juntas pedaços também de queijo. Do frigorífico tiras o leite que havias previamente posto a arrefecer e basta deitar sem mexer nem bater, até sensivelmente cobrir dois terços da altura dos pedaços de banana. Não me lembro agora da quantidade de mel, mas duas colheres de sobremesa não devem ser de mais. Esperas um pouco que o leite adoce e podes juntar canela.
Como é que se equilibra a alimentação? Por exemplo alternar pratos de carne com pratos de peixe, fazes: ao almoço atum (com batatas) e ao jantar salsichas (com esparguete e uma salada). Depois trocas.
Atenção que o mel faz dor de barriga.
Sunday, August 16, 2009
De hoje a oito dias na história
No dia 23 de Agosto de 1939 a Alemanha e a União Soviética assinam o pacto de não agressão, ou pacto Molotov-Ribbentrop, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Cada uma das partes esperava na realidade que a outra não interferisse nas suas próprias agressões a terceiros países europeus, no âmbito de uma secreta divisão do território a ocupar por estas duas nações.
A Alemanha acabou por quebrar o acordo ao invadir a União Soviética em 1941.
Molotov e Ribbentrop eram os responsáveis pelas relações externas dos dois países quando o tratado foi assinado.
Molotov, que foi uma das mais relevantes figuras da política soviética durante décadas, não inventou o Coquetail de Molotov, mas o seu nome está de facto ligado a este tipo de arma incendiária, por razões que se podem apurar na Wikipédia.
Ribbentrop foi condenado à morte após a Segunda Guerra Mundial, no Julgamento de Nuremberga.
Thursday, August 13, 2009
Tuesday, August 11, 2009
Figuras ligadas ao vale interior
Nasceu em Lisboa, no dia 31 de Outubro de 1839.
Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra e tendo frequentado a Academia Florestal de Tharandt (Alemanha) veio para o Vale Interior em 1866, para fazer a planta cadastral das Matas da Degorra. Em 1879 passou a dirigir a Mata.
Aqui se destacou como insigne Silvicultor e realizou obra incomparável.
Iniciou os Ordenamentos (trabalho que se elabora de 10 em 10 anos e tem por fim todo o desenvolvimento da floresta, dando a conhecer também a sua situação geral), levantou a primeira planta rigorosa, criou a escrituração técnica do Pinhal do Vale da Degorra, procedeu a vários estudos sobre sementeiras e resinagem, mandou construir os primeiros pontos de Vigia contra incêndios, instalou na mata os primeiros postos de meteorologia.
Justino Ferreira Custódio que, no dizer do eng.º Estrela Godinho, foi o primeiro apóstolo da exploração técnica da floresta, era um homem inteiramente dedicado ao trabalho, tenaz e afável.
Quando Ferreira Custódio enviuvou, em 1879, fez-se membro da Congregação de S. Vicente de Paulo (Lazaristas). Ordenou-se presbítero em 1888, no convento de Arroios, em Lisboa. Foi aí, no dia 4 de Outubro de 1910, que uma bala transviada o atingiu mortalmente. “Um santo e um sábio” – foram as palavras da imprensa da capital ao referir-se à sua morte.
O Vale Interior não esqueceu o Mestre (como os seus colegas silvicultores o tratavam). Assim, no dia do primeiro centenário do seu nascimento (31 de Outubro de 1839) foi inaugurado na Ladeira Alta um modesto mas significativo monumento em sua homenagem. Plantou-se também, no local, um pinheiro manso.
Friday, August 7, 2009
Eu
A alma benfiquista ainda não foi dissecada. É a maior do mundo. Outra coisa: o que é que há no mundo para além do Benfica? Uma certa esperança de que tudo corra bem. Só. Qualquer palerma sabe fazer isso, ó mundo! Respira profundamente e põe teus olhos em nós, se queres.
És um desorientado, quando dás por ti. Logo os teus comportamentos serão questionados nos planos ético, legal e mental. Isto já tu conheces e tens cumprido, Grande Cabeça-à-roda. Mas quando o clamor de toda a galáxia te impedir de manter os olhos fixos na bola não deixes que te esmaguem como a uma lagartixa. Adensa o nevoeiro e embriaga-te com hélio se for preciso. Depois, provoca tempestades, ameaça com tremores de terra e com a lava a jorrar dos vulcões. Aqui nos tens.
É TÃO fácil!
Que se fosse mais difícil se fazia menos mal. Quando no Estádio da Luz deixar de se ouvir uma voz grunhosa gritar sai, RAAAA – AAA-AA-MIREZZZZ; entra DIII-IIII-III-III MÁRIAÁÁÁ!, e dando-nos para acreditar pela gente mesma que até podemos ganhar, ai (Ai!), calam-se as galáxias.
Tuesday, August 4, 2009
Vou-lhes cantar quadras, quadras que não são minhas, que os mais velhos deixaram prá gente cantar
Não me ocorre agora outra coisa senão esta cantiga popular muito bem interpretada pelo Quim Barreiros.
Quando eu era rapazote
Davam-me muitas vinetas, (BIS)
Andava sempre amarelo,
De fazer muitas caretas. (BIS)
São João rapioqueiro
Casai-me que bem podeis, (BIS)
Já tenho teias de aranhas,
Naquilo que bem sabeis. (BIS)
Ó meu Gonçalo de Amarante,
Rachador de pau de pinho, (BIS)
Dá-me força no vergalho,
Como o porco tem no focinho. (BIS)
Estas moças que aqui estão,
São bonitas trajam bem, (BIS)
Por cima são tudo rendas
Por baixo nem calças têm. (BIS)
As moças da minha terra,
Têm todas cordão d’ouro, (BIS)
Também têm bigodinho,
Á volta do mijadoiro. (BIS)
Fui à praia com o meu pai,
Fui à praia de calções, (BIS)
Andamos a tomar banho,
Com água até aos joelhos. (BIS)
Wednesday, July 29, 2009
Uma tribo pós-histórica
Escrever é envelhecer o mundo. No documentário Uma tribo em Paris, ou algo assim, que vi no Odisseia, lá estavam os papuas (ou seriam polinésios?) de uma tribo remota, nas ruas da capital da França, a falar sobre o homem branco. Muitos espantados de tudo. Riam-se. Eram bem simpáticos, aliás, e perceberam logo muitas coisas pelas quais passamos de todo alheados. Barbudos, com penachos na cabeça, um deles (eram dois), o chefe, tinha uma espécie de pauzinho chinês a atravessar a base do nariz. Um pircing em forma de lápis.
Seja de que maneira, não sabem ler nem escrever. Vêem da pré-história e não temos nenhuma informação sobre os chefes que sucederam a chefes, guerras, pazes e afins. História política, história militar, história da economia, história das ideias, história da vida privada, história das mulheres e história dos homens. De nada há registo nem memória - excepto nas tradições orais, que se vão repetindo e renovando através dos tempos, de forma análoga à renovação da natureza.
Escuta o canto dos pássaros.
Eles são os pequenos mensageiros da manhã.
A escrita é diferente: onde assenta, deixa marcas visíveis. Que leitura farão os papuas da passagem do tempo? A face da Terra tem outras cicatrizes, sinais que talvez saibam interpretar. Mas também não é impossível, caso se ponham realmente a pensar nisso, considerarem por exemplo que o mundo sempre existiu, ao mesmo tempo que tudo é sempre novo. Não lhes assentaria mal uma especulação destas. Dado que não têm História, apenas isso.
Ao visitarem a tribo do homem branco, debruçando-se na varanda do hotel sobre Paris, dar-se-iam os polinésios (ou eram papuas?) conta da importância da progressão do tempo na construção da realidade humana, que convenientemente gostamos de qualificar como ‘progresso’, ou, pelo contrário, assentariam fundamentalmente as suas especulações numa concepção não dinâmica da realidade? Pareceu-me terem optado por não dar grandes indicações num ou noutro sentido, sensatamente. Talvez pressentissem o que outros recusariam concluir: estar a dar-se neles próprios e na sua circunstância uma transição da pré-história para a pós-história.
Porquê? Porque a cidade de Paris, aquela criação humana, só se percebe através de uma forma de narrativa específica (a História) que transforma qualquer fenómeno em objecto de conhecimento. E mais, toda a vivência é já tão marcada pela demanda da objectividade (dos chamados ‘factos’), que os papuas devem ter sentido de repente que já não havia lugar à subjectividade, todos os limites da sua imaginação lhes pareceriam subitamente esgotados. Nem precisariam de os levar a bibliotecas, museus ou universidades. Levaram-nos ao Moulin Rouge, e foi o melhor que fizeram (eles riam-se, riam-se).
A ausência de registo de fenómenos é a pré-história. A materialização automática e sistemática de todos os fenómenos em detrimento da subjectividade é a pós-história.
A nossa tribo há muito que tem consciência histórica. O conhecimento da História (no sentido de narrativa (de sucessão de acontecimentos)) influencia a própria História (no sentido se sucessão de acontecimentos). Agora, com a tendência para a digitalização de todos os aspectos da vida, pergunto-me às vezes duas coisas: a (aparente) emergência do ‘sujeito digital’ (fóruns, blogs, páginas pessoais, redes sociais, etc.) não a estará afinal a tornar a verdadeira subjectividade individual irrelevante face ao crescimento galopante de uma forma nova e muito mais poderosa de materialização, de transformação de tudo em objectos do conhecimento? e não sentiremos nós por vezes, tal como os papuas, que os limites do imaginável estão cada vez mais a ser postos à prova, afectando a própria História (no sentido se sucessão de acontecimentos)? Já não digo nada.
Eu às vezes parece-me que vivo numa espécie de pós-história, confesso. Não sei o que seja isto. Se entretanto conseguir saber mais do que tenho, venho cá dizer (posso ter uma inspiração repentina).
Tuesday, July 14, 2009
Voluntariado jovem para as florestas
Ó juventude! (aqui está o meu grito de guerra, já conhecido aliás).
Na nossa freguesia sempre as gentes andaram de mãos arregaçadas lutando contra as adversidades, foi ou não foi?
Foi. Sempre nos unimos quando houve necessidade. E agora é a defesa das nossas florestas que está em causa. Eu sempre aderi a diversas iniciativas em jovem, e nem por isso me dei mal, antes pelo contrário. Sempre gostei de me colocar ao serviço da comunidade. Numa nota pessoal, a respeito disto e do assunto deste texto, recordo com saudade que já em muito novo sonhava fazer vigilância florestal. Sabem como, de preferência? Confesso que era a cavalo! Já imaginaram o que seria percorrer estas matas, no dorso de uma montada, em missão de reconhecimento? Infelizmente nunca cheguei a realizar o sonho, mas na altura alguns guardas florestais usavam realmente este meio de transporte! E infelizmente, também, continuamos actualmente a não poder ir para tão altas cavalarias, mas haverá BTTs para todos e rádios, para comunicar as ocorrências. No futuro, quem sabe? Talvez a ideia dos cavalos possa vir a ter pernas para andar. Como dizia Agostinho da Silva, “nós somo feitos para o impossível”.
Este ano, para além das acções de Vigilância e Prevenção, sensibilização e realização de Inquéritos à população, os Jovens participarão em outras formas de Prevenção como a limpeza de alguns cursos e espelhos de água.
As inscrições já estão abertas na sede da Junta.
Ó juventude! Vem pedalar connosco!
Monday, July 6, 2009
Thursday, June 25, 2009
Havia uma banda em Boston, Massachussetts
Depois fomos para uma zona de esplanada, nas traseiras. Pixies, ao ar fresco! Em vez de música de discoteca! O jovem agricultor que se tem esforçado alegrou-se logo na verdade insolente daquela música. (Ah. É isso.) Estavam lá o vereador e a mulher, (ouviamo-nos), uma sinestesia poderosa na espinha desde o ouvido interno à ponta dos dedos levava-me, em ombros, já os via companheiros meus, do bairro, da escola, e tudo começava outra vez. Sim. (Pixies, Pixies!). O edil quis saber como é que ia ‘esse projecto, diga lá’, e foi assim. Eu quase só bebia cerveja, dêem-me largueza agora, quero lembrar-me de tanta coisa. Mesmo. Nada de especial, valeu que o Henrique é um conversador nato e chato (desculpa lá isto e aquilo de há bocado, Henrique; eu avisei-te!) e percebe das coisas do campo e como é que funciona, explicou-se bem.
Aos poucos fui dando dei por mim a concordar com o vereador e uns casais amigos que se vieram juntar a nós quanto às vantagens da esplanada, que era outra música. Um deles participava com pensamentos pacíficos, está-se bem aqui, amenamente (teve graça, em parte), outro tinha um jipe, o vereador deve ser o político mais jovem que eu conheço e estava à vontade. O mais novo dos presentes era mesmo o Henrique, apesar de não se encaixar em nenhuma das categorias: jovem autarca, jovem agricultor ou jovem (membro de) casal. Não me espantaria se todos tivéssemos mais ou menos as mesmas ‘referências’, apesar de provirmos de diferentes ‘meios’ (mas não sei se gostavam de Pixies, que duraram pouco tempo; bem procurei, no entanto, por algum sobressalto quando a banda de Boston foi sem apelo nem agravo substituídos pelos Simply Red (!), mas não senhor). Só o Henrique, por vezes, parecia não ter referência nenhuma ali. Passaria por ser o mais atinado, o mais velho, quando na verdade desejava sobretudo voltar para a sala dos miúdos. Estava meio deslocado.
Deitei-me ainda relativamente cedo, interrogando-me sobre a sorte dos meus amigos de outros tempos (quantos teriam jipes? algum deles seria agora vereador numa câmara ou isso?), mas o demente do caniche da vizinha ladrou toda a noite.
Monday, June 15, 2009
Wednesday, June 10, 2009
Notícias do Vale Interior
Squash
Realizou-se nos dias 30 e 31 de Maio a 4ª e última prova do circuito Grupo Hoteleiro Pontevedra, nas instalações do hotel em Valinhos e nas piscinas públicas da freguesia, do Torneio Logitel Informática – Maio 09.
O Torneio Logitel Informática –Maio 09 foi organizado pelo Hit&Run, núcleo de Squash da Casa do Povo de Valinhos, e contou com a presença de 6 atletas. Esta foi a última oportunidade que os atletas tiveram para se apurar para o Masters 09.
O vencedor do torneio foi o atleta Marco Feliciano, enquanto Carlos Gomes, 39 anos, ganhou o Prémio Consagração AEVI (Associação Empresarial do Vale Interior).
(do Voz de Valinhos)
Autarquias de mãos dadas
Teve lugar, num salão de eventos de Romaride, um jantar-convívio promovido por uma comissão ad hoc representativa das diferentes autarquias e associações da região, cujos objectivos passaram pela criação de uma comissão permanente de interligação das mesmas - a qual se encarregará também da organizará de futuras iniciativas similares, no âmbito e objectivos, à que lhe deu origem – e pela oportunidade de proporcionar o contacto a nível pessoal entre representantes das diferentes entidades envolvidas.
Quanto à interligação entre as autarquias da região, é consensual a necessidade de encontrar estratégias comuns de desenvolvimento num grande leque de áreas, procurando o interesse da região como um todo, independentemente dos interesses específicos - e até das disputas administrativas – de cada entidade.
(do Jornal do Vale Interior)
Espaço Internet
A Casa de Cultura e Recreio de Eiras de Sabaio (CCRES) volta a inovar e passou a disponibilizar desde o dia 12 de Abril acesso à Internet. Este serviço está ao dispor de toda a população e é completamente gratuito.
O acesso à Internet pode ser feito através de um dos dois computadores desktop que foram recentemente instalados na sala de convívio da CCR Eiras de Sabaio.
Mais uma importante medida que demonstra o enorme esforço que esta associação tem feito para dar à sua população e associados serviços diversificados, úteis e de interesse público.
Numa zona tão “info-excluida” e com rendimentos tão baixos como é a Zona do Vale Interior, este é sem dúvida um serviço que se prevê de sucesso e que tenha uma grande afluência de público, e que vem complementar o presente serviço de Internet existente, a título gratuito para todos os cidadãos, na seda da Junta de Freguesia.
REGULAMENTO ESPAÇO INTERNET
1- A CCR Eiras de Sabaio disponibiliza a toda a comunidade acesso à Internet de forma gratuita, através dos dois computadores que estão disponíveis na sala de convívio;
2- Os utilizadores devem ler antecipadamente este regulamento e só se estiverem de acordo com todas as regras estipuladas poderão utilizar os computadores de acesso à Internet;
3- O utilizador poderá ficar o tempo que desejar no computador de acesso à Internet, excepto se:
a. O responsável da sala de convívio lhe der indicação em contrário, sem ser necessária qualquer justificação;
b. Os dois computadores disponíveis na sala estejam a ser utilizados e hajam mais pessoas em fila de espera. Se o utilizador estiver à mais de 60 minutos a utilizar o computador (180 minutos caso seja um sócio activo da CCR Eiras de Sabaio), será obrigado a ceder o seu lugar à pessoa que está à mais tempo em fila de espera. O utilizador que foi obrigado a ceder o seu lugar terá de aguardar 60 minutos até que possa voltar a entrar em fila de espera;
c. Nenhum destes pontos (3-a e 3-b) se aplica aos responsáveis da sala de convívio nem aos órgãos directivos desta associação;
4- Qualquer dano que se averigúe ser causado pelo mau uso do computador por parte do utilizador deverá ser-lhe induzido, tendo de compensar esta associação por todos os danos materiais causados;
5- O utilizador está expressamente proibido de instalar qualquer aplicação no computador;
6- O utilizador está expressamente proibido de fazer downloads de músicas ou filmes de forma ilícita, bem como de consultar páginas de cariz pedófilo ou com conteúdos considerados ilícitos pelas leis da República Portuguesa. O utilizador que o faça será denunciado às autoridades competentes;
7- É proibida a consulta de páginas de cariz pornográfico;
8- O utilizador deve encerrar o computador e desligar o monitor sempre que terminar a sua sessão;
9- O utilizador está expressamente proibido de fumar quando está a utilizar o computador ou de colocar qualquer recipiente com bebidas (copos, garrafas ou latas), lixo ou cinzeiros em cima da mesa do computador;
10- Caso se verifique uma extrema falta de conduta e de não cumprimento do presente regulamento por parte do utilizador, o mesmo poderá ficar indefinidamente proibido de voltar a utilizar os computadores de acesso à Internet
Atentamente:
Diogo Carriço
(Vice-presidente Casa de Cultura e Recreio de Eiras de Sabaio)
(Do Sabaiense)
Sunday, May 31, 2009
Monday, May 25, 2009
Bem fixo
Em muitas escolas públicas portuguesas, no entanto, por cima do quadro negro, ainda se pode ver o crucifixo. Há tempos houve falatório nos media a este respeito, mas eu pensei que se tratasse de casos mais ou menos isolados, em vias de normalização (sim, ora!). Acontece que, neste ano lectivo, tenho tido oportunidade de visitar muitas escolas do meu agrupamento e tenho verificado que não é assim. Vários colegas, aliás, têm-me confirmado isso mesmo.
Bem sei que este não é o problema mais grave que o mundo tem pela frente, que no domínio da educação nacional há assuntos mais preocupantes (“que mal é que isso tem?”, é o que me dizem alguns), mas é precisamente esse tipo de mentalidade que tem permitido que as coisas se arrastem.
Imagino que grande parte dos colegas que trabalham nestas salas, sob a vigilância do crucificado, não se sinta propriamente confortável com a situação, mas algumas dúvidas quanto à responsabilidade pela tomada de medidas e o receio de eventuais reacções negativas (uma complacência lusitana típica) vão-se sobrepondo ao bom senso. E à lei.
Dizer que a religião e educação não são incompatíveis, ou que a religiosidade é um aspecto essencial do ser humano, etc. e tal, soa muito bem e é muito bonito, mas dar a entender que esses princípios genéricos têm alguma coisa a ver com o patrocínio, por parte do estado, de um símbolo religioso (e de uma religião em particular) é inaceitável. Idem aspas para a perspectiva contrária, se quisermos ir por aí: a religião (a católica, neste caso) no papel de ‘patrocinadora’da escola pública. Presentemente talvez se trate de um ‘ligação involuntária’, um legado do passado, mas que se pode falar numa ligação imprópria entre duas partes (caso se considere exagerado falar em ‘patrocínio’), pode.
Dizer que se trata de uma ‘questão cultural’ é igualmente incompreensível. Li algures uma opinião de um bispo que ia nesse sentido. Mas cultural como? Da mesma maneira que o Domingo se institucionalizou como dia de descanso independentemente do seu significado religioso? Mas como se pode dizer que o crucifixo, ou a cruz, o mais importante símbolo do cristianismo, não tem sobretudo um significado religioso? Se numa escola pública houver uma alusão a um motivo religioso num painel, numa pintura, num azulejo, por exemplo, ou mesmo numa história ou canção, aí sim, admite-se que se possa tratar de uma ‘questão cultural’. E convém ter isso presente antes de corrermos a queimar os textos e a partir os santinhos à martelada. Já o tradicional crucifixo, estrategicamente colocado num poiso altaneiro da sala de aula, dificilmente se pode deixar de ver sobretudo como um símbolo religioso, mesmo que seja também outras coisas.
Há casos e casos, mas se se transformasse uma escola actual numa ‘escola museu’ ela podia ser assim: o edifício é uma construção do Estado Novo - apenas está mais degradado- mas as mentalidades de quem neles trabalha mudaram (e no entanto…); as ardósias foram substituídas por ‘Magalhães’ (ainda que o computador da sala não funcione); as réguas, pequenas e de plástico, agora estão na mão dos alunos; as carteiras podem apresentar diversas disposições: em grupos de quatro, em sofisticada forma de ‘U’, etc.; o território que se pode ver representado no mapa de Portugal encolheu muito; o crucifixo continua bem fixo.
Friday, May 1, 2009
Tuesday, April 28, 2009
Batida beirã
Concentrados os caçadores, começa a algazarra. Há umas instruções, há o sorteio das portas, mas ninguém se concentra verdadeiramente em nada senão em conversa, entremeada com pão e malgas de vinho para quem quer. Só às dez e meia vamos para as portas.
O Princês acha que a nossa porta não é das melhores, mas só mo disse a mim, pelo caminho. Não quis estar a queixar-se durante o sorteio, como alguns, que culparam logo o azar por, na volta, poderem vir de mãos a abanar. Com uma porta enguiçada vive a gente bem! Quem conhece o Toino Princês sabe que é quase impossível ouvi-lo resmungar seja pelo que for, para mais em dia de caça. Se alguma coisa estava menos a seu jeito era não poder ficar a tratar do almoço, ainda se os javalis viessem ao encontro dos tachos, com a espingarda numa mão e a colher de pau na outra, era homem!
Bom. Ou isso ou já não é pouca a sorte se algum animal lhe vier desafiar a pontaria no sossego do posto de caça. Nem precisa de se apressar, que o lugar convida e estamos já postos em sossego também, assentando o que resta das ideias que fomos chamando à conversa no caminho para cá. Devo ser mais dado à morte da bezerra do que à de javalis, porque não me fixei verdadeiramente em nada da paisagem que nos envolvia senão quando a bicharada resolveu acrescentar-lhe o devido som de fundo, anunciando desta maneira que nos perdera o respeito e seguiria com a sua vida. E eu recostei-me como deve ser numa árvore e olhei.
Tanto que passado algum tempo deixei de esperar por qulaquer outra notícia. Só os cães, que já batiam os vales, conseguiam por vezes fazer-se ouvir acima da cegarrega geral instalada. Se não surgisse javardo até ao soar da corneta acabaria por amaldiçoar a hora em que metera pés ao caminho, tão aborrecidos podem ser os arbustos e o pouco mais que havia, depois de devidamente apreciados os cheiros, ervas e flores.
O Princês fazia-me gestos, apontava para ali e para acolá, como se me perguntasse “viste?” ou “ouviste?”, e eu acenava “aaah! sim, sim!” sem perceber se ele se referia a algum som, vislumbre ou cheiro de porco ou se me estava a tentar mostrar outra coisa. Por exemplo, algum dos pássaros de que me falara durante a tirada, como o melro, de que diz apanhar quantos quer. Até me ensinou meia dúzias de técnicas.
Mas a verdade é que eu não distingo o melro da cotovia. O que distinguia, entre os gestos apurados do velho Toino Princês, eram dois olhos em silencioso deslumbramento, como de quem não sabe muito bem se realmente pode estar ali, a viver o momento, e vai sorrindo com malícia e vergonha. Os mesmos que desde há mais de cinquenta anos estas terras vêem chegar-se à culatra, um aberto e outro fechado, alinhando a outra ponta com quase tudo o que nelas corra ou voe. “Cada vez gosto mais!”, diz-me. Nem a porta azarada consegue beliscar-lhe o gosto.
Com o passar das horas fomos ouvindo alguns disparos dispersos, mas a arma do Princês nunca foi chamada a prestar contas. A meio da tarde a caçada estava terminada e nós regressámos à base, onde nos concentrámos em novo e mais nutrido convívio com os demais. Desta parte da festa já eu sabia que tudo quanto viesse era ganho.
Wednesday, April 15, 2009
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
« Duma vez fui ao mato mais a comadre Marciala com uma podoa muito boa que o meu pai que Deus tem trouxe do Brasil, igual a uma que trouxe para ela também - duas valentes podoas! - e nisto ópois esqueceu-me a podoa no pinhal!
Tinha muita estimação nas podoas...
Lembrou-me o responso!
Rezei, rezei, rezei o responso! Ópois havia aqui um caminho, este não havia ainda nada, tinha ali uns alhos à beira do caminho. Uma ocasião vou a passar, lá estava a podoa!
A pessoa que acha ou rouba, bem a gente rezando o responso, já não tem parança! Lá se lembrou que havia de vir aqui regar os alhos e que eu a via, deixou-a e abalou.
Fui dizer à comadre Marciala e ela até dava beijos à podoa!
Eu, foi como Deus que me tivesse aparecido!»
(Irene Bisgata, 87 anos; hoje, Eiras de Sabaio)
Tuesday, March 24, 2009
Basso profondo (lanterna mágica, especial 'Fosso de orquestra')
Confesso que tenho este estranho hábito de associar pessoas a instrumentos musicais (neste caso à voz de 'basso profondo'). Pensei, assim, singelamente, em catalogar algumas figuras conhecidas - em especial as da política - de acordo com o instrumento que cada uma invoca na minha imaginação. Pode ser uma espécie de uma caricatura sonora, que, tal como acontece como as pictóricas, realça algumas características da personagem, ainda que de forma distorcida.
As audições têm decorrido diariamente, e sabemos que as qualidades musicais dos executantes nem sempre são as melhores. Ouvimos muitas vezes as suas desafinações e estridências. Por vezes uma ou outra doce melodia, em contraponto com as tiradas mais dissonantes. É música e também é ruído. Mas a excelência musical não é requisito importante neste Fosso de Orquestra. Eis o primeiro elemento:
Basso profondo - Manuel Alegre
Friday, March 13, 2009
A crise na Islândia
Em 2001 a palavra crise era pouco mais do que um eco longínquo na minha memória, Portugal ia de vento em popa e isso era para sempre. Mas a partir desse ano tivemos que voltar a pô-la ao uso, e agora a crise está nas bocas do mundo. Não é no futebol, mas em todas as coisas, que se verifica serem as verdades de ontem as mentiras de amanhã. Talvez não seja assim mas ao contrário.
Na minha cronologia da crise há um antes e um depois de 2001. Não sei explicar causas nem consequências, nem relacionar acontecimentos de forma coerente, mas lembro-me de pressentir que qualquer coisa estava a ficar fora de controlo quando se começou a falar do «problema do deficit» daquela maneira. Depois veio a crise política, governos a entrar e a sair sem mais nem menos, o Santana, coitado, chegou a ir para lá, a Justiça abanava por todos os lados, desvarios de todos os géneros, atrasos, desordens e desmandos, um belo cenário para as doses corridas de escândalos e casos que vinham com cada telejornal. Muitos dos problemas económicos que agora afligem o mundo têm origem, ou foram agravados, diz-se, por certas práticas que remontam a 2001, mais coisa menos coisa. A economia da Argentina colapsou, aprendi que um país podia «falir». No dia 11 de Setembro, atentados terroristas nas cidades americanas de Nova Iorque e Washington afectaram de forma profunda todo o panorama geopolítico. O mundo não acabou em 2000 mais do que em outros anos, mas parecia estar a ficar louco.
E no entanto sinto que muito do que está em causa é a percepção das coisas, a ideia de crise, e não tanto a realidade objectiva, nem as eventuais ligações, complexas, e eu não percebo nada disso, entre fenómenos isolados. Destes, alguns são mais alhos, outros bugalhos, mas para muita gente que alimentava ilusões é a alhada geral.
Depois disto, mais cínicos, mais sábios até, podemos encarar de outra maneira a inquietante situação da Islândia. Aquela gente, tenho visto reportagens, está a passar um mau bocado. O país faliu. Tem havido alguma instabilidade política também. A boa notícia é que a mudança é a coisa mais constante que há, como vimos. Porque hão-de os islandeses estar condenados ao fracasso? Como povo não são menos capazes do que os outros, e nem sequer se podem queixar da falta de quadros qualificados. Há todas as razões para acreditar que a classe política, mais tarde ou mais cedo, acabará por colocar os recursos da nação ao serviço do povo, na senda do desenvolvimento. Há ainda muito trabalho a fazer, mas é enorme o potencial daquele que é um dos mais desconhecidos mas também um dos mais belos recantos do continente europeu. Trata-se de uma terra mágica, abençoada pela natureza. Tem uma identidade própria que, diz quem já experimentou, marca para sempre as pessoas. São as cores, as diferentes cambiantes de branco, é o cheiro forte e inconfundível daquela terra, a enxofre. E é sobretudo o sorriso doce daquelas crianças, a alegria e a vontade de viver que transparece nos seus pequenos rostos enquanto, curiosas, fitam as câmaras que logo à noite as apresentarão nos telejornais dos quatro cantos do mundo (os irlandeses, da Irlanda, também estão à rasca, mas têm um jeito para a música, amigo! E as danças? É já mesmo deles, aquilo).
Saturday, February 28, 2009
Sunday, February 22, 2009
O Rato Mickey
O Rato Mickey
Tive ocasião de ler num jornal regional um interessantíssimo texto sobre a mais célebre criação de Walt Disney, que fez 90 anos em Novembro último. Chamou-me a atenção a reflexão sobre a mensagem que personagens de animação aparentemente tão inofensivos podem passar aos mais novos, e não só, que o pequeno roedor de luvas brancas e calções vermelhos encontra muitos admiradores entre gente graúda também. E isto apesar de se encontrarem, no rico alfobre da nossa cultura e tradições, incontáveis exemplos de distracções muito mais saudáveis e educativas.
Mas analisemos o que está em causa. Aprofundando um pouco, o conteúdo dos filmes do famoso Rato são imorais e não se escandalizem, ou não o façam sem antes me ler o texto.
Os ratos são animais sem nobreza nenhuma, sujos e repelentes até, que transmitem doenças e que não gostamos nada de ver em nossas casas. Era por isso que antigamente toda a casa que se quisesse a salvo de tal companhia procurava ter um gato, seu inimigo figadal. Ora, o que acontece nos filmes onde entra o Rato Mickey? A verdade é que este, que por ser rato devia ser o mau da fita, leva sempre a melhor sobre o gato com quem trabalha. Nas aventuras que vivem em conjunto, o gato sai sempre vencido e humilhado pela astúcia do rato, que se fica a rir. Esta mensagem, a do mal que vence o bem e ainda é louvado e aplaudido, não pode deixar de penetrar nas mentes dos jovens espectadores, incapazes de avaliar a situação por si próprios e de se distanciarem da mais subtil das perversidades. Ainda assim, e dando o devido desconto, os filmes distraem e são inofensivos, comparados com os filmes actuais, sorvidos em doses assustadoras pelas crianças de agora.
Nestes, impera a violência, as figuras monstruosas, as histórias infernais e a música atordoante. E, para cúmulo, muitos dos filmes de animação actuais são pornográficos e vão amolecendo o critério das crianças, que passam a achar tudo “aquilo” natural.
Mais uma obra sobre a região do Vale Interior
Acaba de sair um livro precioso sobre grande parte do nosso melhor património, desde as Igrejas de Eiras de Sabaio e Valinhos, até ao convento de Santa Ana, entre muitos outros exemplos.
Trata-se de um estudo rigoroso, sem se tornar demasiado “pesado” ou académico, servido por excelentes textos e fotos, os primeiros da lavra do dr. Maciel Carvalho e as segundas a cargo de Ana de Vasconcelos, intitulado “ Vale Interior pedra a pedra”
A apresentação decorreu no Casa Municipal da Cultura, registando-se o assessor da Cultura da edilidade.