O homem do mimimercado vendia peças de fruta morta, cortado já o fiambre morto, antes de hesitar novamente nas mesmas contas certas, como pesos mortos, para este senhor é uma embalagem de vinho morto, pão morto já não há minha senhora, ainda vai agora buscar troco escorrido, algures por uma porta para as traseiras que ligam ao pátio ajardinado, enquanto as conversas mortas com os clientes ficam mais sós ainda.
Depois de eternos minutos mortos regressa com passos de grão-de-bico entornado, nos olhos aguados de vitrina uns óculos fundo de garrafa de bagaço e gestos de biscoito seco numa magreza de papel vegetal.
Repassam moedas, ora aqui tem, a filha despachada, e se é uma fortuna, os sacos, já de lá vem assim, manuais gastos, os olhos da cara é que é, olá, para mim não me fica nada, uma boa tarde. Da rua cantam pássaros, e abaixo os últimos passos surdos e carregados. O homem do minimercado camisa de toldo sujo e engelhado passa ao pátio ajardinado nas traseiras, vazio, até cansado recolher os grãos para ouvir os pássaros que cantam na rua.
Chegam as entregas nas carrinhas, em pacotes familiares para arrumar. Os sacos de batata amarela são a mulher, as margarinas e os azeites nacionais são os sogros, as bebidas são o cunhado, o que não havia esta semana é a filha, ele é o queijo amanteigado.
Fechada a porta da rua, tudo está arrumado, sai pelo pátio ajardinado e sobe ao primeiro andar. Meio morto no noticiário das oito, enchouriçado de má-vinho, o cunhado, enquanto a mulher coze as batatas, para os sogros, tens mais do mesmo ou vai-se lá a baixo, já não me levanto do sofá, e as minhas batatas, precisam de azeite, a miúda, janta fora, pois para mim pão com queijo.
E logo depois mais pássaros e mercearias mortas, amanhã.
Monday, September 20, 2010
Mercearias mortas
Friday, September 3, 2010
Fosso de orquestra
(caricaruras sonoras)
Passos Coelho - cravo
                                                        
Thursday, August 12, 2010
União Europeia, alegações à roda
A ideia de que se há-de construir a Europa, mesmo no que tenha de mito forçado, serve para divertir os desejos de poder por via imperial, alegadamente substituídos pelos encantos de um amor fraternal idealizado. Se esta ideia, usada assim para descrever uma impressão, fizer algum sentido e se for isto verdade, não há aqui nada de extraordinário nem de original, enquanto ideia geral para tudo. Logo, à natureza: depois de sempre, busca-se outra vez e outra vez a ilusão da inocência primitiva da criação, alheia à dor e luta entre as bestas bravas e as mansas. A fraternidade entre as nações também está sempre prevista nesse plano elevado, que um pedestre como eu também sonhava e sonho vagamente. Talvez a Europa seja a mais ousada, ou a mais ingénua, na sua construção de legos.
Mas é aborrecido construir sonhos, é melhor sonhá-los. As pessoas, dando-lhes bem a volta, entregar-se-ão com mais entusiasmo à guerra, outra vez: está sempre tão perto a tentação e o impulso para a destruição - dos sonhos dos outros – como em nós a tentação para a dissolução nos nossos. Por receio daquela tentação destrutiva mas nos ditos outros, e por pudor de cada não-outro em admitir a sua, os mesmos e os outros, em conjunto, que são todos, podem ver mais benefício a dado momento histórico em substituí-la por uma trégua ritualista (ritualizada). Daí a União Europeia, e daí ela ser assim, uma obrigação aborrecida.
Uma chatice. Claro que os dirigentes políticos europeus têm a missão concreta de tentar construir a grande ilusão e nisso se sentem autores do real: é a autoridade da realidade europeia o seu poder, mesmo que ela seja uma ilusão; e de resto, se tem de haver alguma, sempre há outras bem piores. Em todo o caso, quem tem poder não se aborrece tanto. Mas os liderados são outra história, porque não têm poder nem amor, que também serve para desaborrecer (amor pela realidade europeia constantemente em construção).
Ou, se têm amor, é um amor aborrecido, que nunca é amor.
Friday, July 23, 2010
Thursday, July 8, 2010
Info-excluído
Info-excluído não é apenas expressão de capricho insensato na escolha de nome para dar à expressão desta gente - nem a condição em que a gente tranquilamente se reconhece. É também o nome de um dos autores do blog. Que nunca chegou a escrever nele nada. E que mesmo assim se atreve a vir agora com o seu próprio e exclusivo sítio. Até daqui se exclui.
Sempre o mesmo.
Tuesday, June 22, 2010
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
Hoje creio que dá. Esteve aquela mulher a falar até esta hora, huumm, quando é isso parece que costuma a dar. Deve estar pra começar breve. Eu só gosto de ver por causa das pessoas que levam coisas para lá pra ele, e depois aquele Miguel que está lá em cima… farta-se de rir. Olha, ele ri-se tanto, tanto, tanto que é uma coisa por demais, até isto parece que estremece, estremece… TUDO! Quando é a bola não me interessa para nada. A gente não percebe nada do que eles dizem! Eles haviam era de dizer quando é que dava e não dava! E também gosto de ver aquelas que ao princípio vão para lá todas contentes, eeeehhh, com os braços no ar, depois estão, não são chamadas e ele vai lá e pergunta-lhes então quanto é que dava, e elas, ah… ficam assim, uhm [risos] e vai, vai, vão-se embora sem lá ir[risos].
(Irene Bisgata, 88 anos, Eiras de Sabaio, ontem, 19:10)
Wednesday, May 26, 2010
De quanto vimos
O melhor blog de uma australiana em Portugal que conheço. É este. Divertido, original (toda a aventura da antípoda o é, aliás), e ainda capaz de nos fazer pensar. Sobre a gente.
Entre o divertido e o assim-assim, em doses diárias (nem que seja por isso, é digno de nota!). Por vezes original. Ora então.
Para dar alguma seriedade. E tem interesse.
Monday, May 10, 2010
Eu nunca mais.
Nunca mais quero saber de futebol, com este sistema aleatório. O Benfica devia ser considerado campeão a meio da época por uma assembleia de pessoas que percebam de futebol. Oficialmente. (O Braga podia ter ganho o campeonato ontem!) Ou então que se faça tudo por meio de lobbying junto dos árbitros. O chamado sistema da corrupção dos árbitros não cai bem na mentalidade portuguesa e é uma pena. Já se tentou, mas dá muita polémica.
Nunca mais quero sofrer assim, nunca mais. O pessoal no café festejou na mesma, e eu não, fiquei a um canto, cansado e perplexo. Perplexo com a falta de emoções que me veio, quase mais triste do que alegre, e sem emoções, e a sofrer. É só o que posso dizer.
Mesmo no final, quebrou-se a imagem heróica da equipa que vimos durante o resto da época, e de qualquer maneira gosto mais da emoção espontânea de uma boa jogada do que do calculismo pequeno-burguês com os pontos e a tabela classificativa, sobretudo se obriga a um clímax constantemente adiado, um campeão devia ser um fazedor de boas jogadas sucessivas. O Benfica só não o foi no fim! Entristece mas é assim.
Também acontece que quando uma coisa de sonho é muito esmiuçada somos obrigados a pensar nela como em coisas do dia-a-dia, uma torneira, um tremoço, etc., e isso leva-nos depois a que nos interroguemos sobre o que é que estamos ali a fazer a olhar para aqueles palermas a jogar.
Por isso este sistema, em que uma equipa claramente de sonho vai até ao fim oprimida pelas contingências da realidade - mesmo que absurda! -, não me parece o melhor.
Entretanto isto também me há-de passar, vou perceber que somos campeões e vou ficar eufórico. Já andava nisso, e tinha começado a escrever um texto eufórico, na semana passada, antes de termos perdido com o Porto, agora fica para quando me apetecer. Então até lá e saudações desportivas.
Sunday, April 25, 2010
Lanterna mágica
                                                        
Thursday, April 15, 2010
Decidi receber cá o compasso na Páscoa
Que ela é bonita como a Primavera que está nesta altura muito contente, já fala com a gente. É esta alegria, a Páscoa, as sombras bem desenhadas pelo sol da manhã e um padre com um vestido às flores de casa em casa e tudo o mais, as pessoas cantando por dentro para o meio-dia.
Sou uma teologia de cima a baixo, já, não é nada de mais, é a ciência que toda a gente pratica quando a cabeça esquece as tarefas do escritório da Suiça e se perde desdenhando das leis da gravidade, tal como as conhecemos, à velocidade da luz. Vou então a questões técnicas, eu avisei quando começámos que depois não sei o que é que hei-de escrever num blog, bom, (num blog! é muito deprimente!), porque é que o padre anda de casa em casa? Para receber dinheiro e conviver um pouco, e eu pensva que era só para conviver um pouco. Diria que na Páscoa tudo é móvel, desde o padre, passando pelos afilhados que por cá têm o hábito de percorrer as casas de padrinhos, etc. e tal, por Jesus Cristo, que neste dia saiu do túmulo e é por isso que se celebra a Páscoa, não é nada por causa da rapariga do café nem da Primavera (se for agora vai dar ao mesmo), também há metade dos espanhóis que nos visitam de automóvel, e acabando na própria Páscoa, que no calendário é móvel (e havia móveis para limpar a óleo de cedro, na sala do sr. prior, em casa da minha avó). Porque é que o vestido dos padres é às flores? Trata-se de óbvia camuflagem para um cenário todo florido nesta época do ano. Camuflagem, isto é… dir-se-ia que assim se vê como a Igreja é una com a obra do Criador. E já agora troca-se um pouco as vistas a Satã.
Mas falava em dinheiro. O caso foi este: lá me entraram em casa, estando eu devidamente prevenido de acepipes e quatro espécies de vinho bom. Na minha inocência de menino da cidade que quer participar nas coisas giras do povo não estava no entanto a contar que esperavam que desse um folar ao padre, que podem ser uns cinquenta euros, talvez, depende do que se queira dar. É mais uma forma de pagar os serviços que ele presta ao longo do ano. Entretanto, foram ali uns momentos de bom convívio, que era o que eu pensava que era para ser. Acho até que esteve aquela santa comitiva a fazer um pouco de tempo, a ver se eu afinal me resolvia a chegar à frente com os tremoços. Logo na altura pressenti de passagem que podia faltar qualquer coisa, mas a conversa estava boa e como às tantas era só eu que bebia, pois diziam eles que ainda lhes faltava muitas casas, nada me preocupava grande coisa. Então saíram e um dos acompanhantes, um camarada mais das minhas relações, é que se deixou discretamente ficar um pouco para trás, e, com visível condescendência, me esteve a pôr a par dos ajustes destas usanças. Parece-me bem, e parece-me óbvio, agora. Eu é que sou tão ignorante que só sei pedir cafés à rapariga e comer o chocolate.
(Quero dizer às pessoas de Eiras de Sabaio que de facto não recebi a visita do sr. padre Ventura, mas que este texto me surgiu de uma real espécie de simulação mental que fiz acerca do que seriam os resultados prováveis ou possíveis se na verdade ela tivesse acontecido, e depois de de facto também ter chegado a falar com algumas pessoas, meio intrigado e meio interessado em participar de alguma maneira nesta tradição que acho bonita, e em prestar a minha homenagem, e é isso que faço, à minha maneira que só assim é que sei, já sei que muitos não vão gostar, como eu também não gosto de outras coisas que, quando não me matam, curam-me mais um bocadinho).
Wednesday, April 7, 2010
A seda entre nós -II
              Em texto aqui publicado a 12 de Outubro do ano passado, já tive oportunidade de poder dar alguma conta neste espaço da nossa relação histórica com toda a indústria da seda. É uma história incrustada na nossa alma quer para o bem, quer também para o mal, como já sabemos e veremos, que nem só de páginas gloriosas se fez.
              Distintíssimo material, já no século XVI vestir ou não sedas era um dos atributos que distinguiam socialmente as pessoas, à semelhança por exemplo do porte de espada. Chegaram a ser criadas leis próprias sobre o seu uso, como a «ley sobre os vestidos de seda & feitios delles e das pessoas que os podem trazer», de 1570, e surgiram costumes, como o privilégio de que gozavam os cidadãos do Porto, livres de poder vestir sedas, independentemente da sua pertença social.
              Sabe-se que nem tudo o que luz é ouro, e que a alma é mais do que a comida e o corpo mais do que o vestido, mas o mais dos homens sempre buscou o conforto para sua alma e o seu corpo na boa comida e no bom vestido, e se às vezes a elevação destas coisas está em acordo com o carácter, o merecimento e a dignidade de cada um, também vemos quantas vezes quanto mais sombras na alma e degradação no corpo, maior é o brilho em guarnições e atavios a que se deita a mão. Que tal brilho possa, quando naturalmente apresentado, ser admirado na sua conta, não no-lo neguemos, porém cuidando que não fiquem os nossos olhos ofuscados, e como que cegos, às intenções daqueles que o usam apenas e só como penhor daquela nobreza que precisamente lhes falta. Isto era verdade noutros tempos, e mais que nunca é nos que vão correndo.
              À conta do fascínio que vem de nós, os seres humanos, pelos artigos de valia superior, muito engenho humano também durante séculos se foi solicitando, muitas histórias correram, dignas de romance, muitas lutas houveram, batalhas se travaram. A propósito da seda, que é pela comparação com a sua pureza que vou tentando acusar o que em nós está em sentido contrário, é conhecido que a tecnologia para respectiva produção era segredo de estado na antiga China, e que foram uns monges cristãos que trouxeram as primeiros ovos do bicho-da-seda para o Ocidente na parte oca das suas bengalas de bambu. Antes de estes conhecimentos se espalharem pela Europa, mercadores e aventureiros percorriam as remotas rotas da seda por essa Ásia dentro, ou então desafiavam os oceanos, rumo ao oriente para se abastecerem do produto fabricado. Como nós, portugueses, que nisso fomos os primeiros, mesmo estando registado que as primeiras sementes do bicho-da-seda chegaram à Península por volta do século VIII, introduzidas pelos árabes. Há também foral de D. Sancho II de Portugal respeitante às amoreiras de que se alimenta o bicho-da-seda, e à necessidade de impedir o seu plantio sem controle.
              É caso para ponderação o tanto que se labutou para que tivéssemos em mãos portuguesas o conhecimento das técnicas necessárias à sua produção no nosso território português, e o tão grande desgoverno que depois houve à volta de toda a actividade serícola, por incapacidade, por falta de visão, a que se juntam algumas moléstias naturais que persistentemente traziam grandes prejuízos aos produtores. É certo que n’ A Terra Portugueza, de Rocha Peixoto, se pode ler que por volta de 1679 se publicou entre nós «um pequeno tratado sobre a creação do lepidóptero; e do paiz que, com a Hespanha, produzia e manufacturava sedas quando no resto da Europa mal se sabia ainda a arte, começaram a conhecer-se os seus magnificos velludos, setins e gorgorões e a serem procuradas as nossas télas, organsis e tafetás, os quaes, não rivalisando com os dos Kalifados de Granada e Córdova, eram todavia executados com primôr». Mas a cobiça e a vaidade tomam-se dos homens sem que disso sequer se dêem por tidos nem por achados, como temos visto, e impedem-nos de dar passos firmes adiante, especialmente quando o mando não ajuda. Na sua maior parte, para os indivíduos sempre foi demasiado sedutor o «negócio da China», e assim pouco ou nada se vem a querer com a boa diligência, com o emprego da mente e do corpo ao trabalho persistente, e com a dedicação ao bom governo das coisas. Não são apenas males de hoje, o desperdício de energias na busca de um qualquer expediente mal esmoído que promete fortuna ao primeiro bater de palmas. Mas a indústria serica, que assim chegou a chamar-se, não consente em tal desmazelo. Citarei ainda Rosa Peixoto a este propósito, que, falando de facto da seda bem poderia vir falar no mesmo modo de muitas outras coisas actuais, coloca bem a questão nestes termos: «E entre nós, ou desprevenidos ou ignorantes, ora ineptos ora desconfiados, nem os decretos e fábricas-modelos, nem o furor desvairado dos lucros valeram à indústria que se antolhou moribunda, falta de preceitos, falta de exemplo, falta de discreta previdência».
Monday, March 15, 2010
Lanterna mágica
                                                        
Friday, March 5, 2010
Buscar para encontrar
Tenho a melhor profissão do mundo, acho que a minha filha acha. Se é assim, estou de acordo. Ou estaria, não sei. Eu gosto de animais, ela também. É natural, tem seis anos. E sou veterinário, cuido e curo de animais. Logo sou um herói, logo tenho a melhor profissão do mundo. Não é assim tão fácil para mim, tenho de admitir. Embora me sinta bem de volta da bicharada de estimação da cidade, não consigo deixar de pensar que no fundo tudo mais não é que uma brincadeira de gente grande, um capricho. Estimável, saudável. O meu – estimável, saudável – é imaginar-me nas botas de um João Semana da medicina veterinária, naturalmente exercendo na província, no interior. Mas, já que é para caprichar, saído de um romance do Aquilino Ribeiro, se puder ser. Não sou por enquanto este herói. Um salvador para o paciente e para o agricultor, aflito com o prejuízo que terá na morte do cavalo ou do boi. Aqui os cães e os gatos são outra história, deixam saudades quando morrem mas podem ser substituídos a custo zero, as ruas estão cheias deles.
Enquanto não mudo de vida, vamo-nos entretendo na clínica e no youtube. Desde os quatro anos que a minha filha escolhe sozinha os vídeos que quer ver. Ensinei-a eu, que me comecei a entender com o youtube por essa altura também, há cerca de dois anos. E que herói fui para ela, mostrando-lhe o que eu próprio ia descobrindo! Achei que era a minha obrigação, para o caso de este mal da info-exclusão ser contagioso. Na verdade acabei por dar ouvidos à história dos perigos que corre quem é alérgico à maquinaria digital em geral, num mundo cada vez mais coberto por todas estas cintilantes camadas de poeira tecnológica. Entretanto consegui também que acreditasse que percebo muito de computadores, o que certamente só vai durar até ao dia em que se interessar por coisas mais sofisticadas que o youtube. Não há problema, já estou preparado para passar de herói a vilão de um momento para o outro.
A info-exclusão pode ter mais de doença do que parece. Por exemplo a primeira vez que usei um motor de busca senti-me nervoso, incapaz de escolher qualquer coisa de A a Z para buscar pelo nome. É uma ideia terrível para quem acreditava que o mundo estava todo fora dos computadores. Apesar disso, ou talvez por causa disso, acabei por me convencer que estava à beira de algo importante, o primeiro passo rumo à info-inclusão, ou coisa assim. Quase um momento solene, e eu sem saber com que incomodar o tão tecnologicamente avançado e perspicaz google. Com o youtube aconteceu-me mais ou menos o mesmo, se bem que tratei logo de encarregar a minha filha da escolha dos temas de busca. E foi assim que chegámos aos vídeos de animais – e aos de desenhos animados, e aos de desenhos animados com animais!
Pode ser que, no momento em que o youtube deixe de ser suficiente, estejamos ambos prontos para prescindirmos um pouco dos computadores e eu consiga de uma vez por todas ser, não só o seu, como o meu herói.
Monday, February 8, 2010
De hoje a oito dias na História
Sócrates é condenado à morte no dia 15 de Fevereiro de 339 a.c. No mesmo dia de 1758 a mostarda começa a ser fabricada na América.
Friday, January 22, 2010
Manhã. Janeiro bom.
                                                        
Tuesday, January 12, 2010
Eu hesito entre duas raparigas
Eu hesito entre duas raparigas-Lyrics Paroles
Letra
Eu hesito entre duas raparigas
Quais gémeas são iguais
Mas tenho a certeza
Que de uma gosto mais
Mas tenho a certeza
Que de uma gosto mais
Eu hesito entre duas raparigas
Quais gémeas são iguais
As duas são morenas
Entre nós Amor d’ar cómico
Tão trigueiras que nem apenas
O sol sorri plató.ni.co
Mas para subir em meu tractor
É tal! mas qual não sei
Porque me perco no amor
Ela por ela ambas ame.e.ei
Eu hesito entre duas raparigas
Quais gémeas são iguais
Mas tenho a certeza
Que de uma gosto mais
Mas tenho a certeza
Que de uma gosto mais
Eu hesito entre duas raparigas
Quais gémeas são iguais
Meu coração continua
Sem saber o que fazer
É melhor amar as duas
Sem nenhum de nós saber
Que este encanto não se acabe
E eu já pensei tanta vez
Pois enquanto ninguém sabe
Somos felizes os três
Lalala-rala-ralala
Lalala-rala-rala
Lalala-rala-ralala
Lalala-rala-rala
Lalala-rala-ralala…
Saturday, January 2, 2010
Lanterna mágica
A propósito de metafísica
                                                        
Monday, December 28, 2009
Yoani merecia outra coisa
Faz hoje uma semana foi dia de entrega das avaliações na minha escola. De véspera preenchi de cor vinte e dois cabeçalhos com nomes completos e depois, por baixo, as minhas bem intencionadas observações sobre aproveitamento e comportamento. Já sei que no próximo período devo contar com vinte e uma fichas apenas: os pais da Yoani (não é obviamente o seu verdadeiro nome) «têm que ir trabalhar para a Suiça». Fazem as malas nos primeiros dias de Janeiro.
Por várias razões esta notícia tem ocupado parte dos meus pensamentos. Uma delas é andar a antecipar já a ausência de Yoani e a estranheza que sentirei ao não a ver sentada no seu lugar. Decorreram alguns dias até me aperceber que esta minha pequena angústia não tem comparação com todas as que ela poderá sentir: quase tudo será de diferente na sua vida daqui para a frente: escola nova, colegas novos, professores novos, língua e países novos, por exemplo. Claro que também existirão coisas positivas, novas experiências a que de, outro modo, Yoani não teria acesso. Acontece que os seus pais não tomaram a opção de ir viver noutro país para lhe proporcionar o contacto com novas realidades, nem por apreciarem particularmente algum aspecto da cultura desse país. Nem sequer se trata de deixar uma carreira em Portugal para aproveitar uma oportunidade melhor. O que me preocupa verdadeiramente é saber que este é apenas mais um caso de uma família cujo país - o nosso - não consegue sustentar.
Não devíamos nós por esta altura ter deixado de enviar uma tão grande fatia de cada nova geração «para a Alemanha», «para a Espanha», ou «para a França», enfim, «lá para fora»?
Muitos dos colegas de Yoani passam meses sem ver o pai (ou pai e mãe, por vezes), separados da família para não a obrigar a ela a separar-se de tudo o resto. Podemos continuar a viver assim - ou antes, a sobreviver assim - mas isso será não só um sintoma como também uma causa do nosso atraso. Avançámos aparentemente muito em pouco tempo (o que é que isso significa é outra história; digamos que é o opsto de 'atrasar'!) mas há um atraso que permanece, que não soubemos ultrapassar e se manifesta às primeiras dificuldades. E que, infelizmente, deixaremos como legado a Yoani e a todos os colegas que já para a semana se voltam a sentar nos respectivos lugares.
Sunday, December 13, 2009
Vida animal
Thursday, December 3, 2009
Lanterna mágica
                                                        
Wednesday, December 2, 2009
Lanterna mágica
                                                        
Thursday, November 26, 2009
Stressado!
Eu pensava que a condição de jovem agricultor tinha uma mística sensacional mas não é tanto assim. Do que é que gosto mais, bom, gosto de andar de tractor, gosto de fazer uma coisa ancestral, gosto de ser um produtor salsa e de outras ervas e de azeitona. No fundo antecipava muitas vezes ver-me fazer coisas especiais, era o antecipar. E aqueles dias em que o meu time ganhou, o meu carro não quebrou e ando por cá sem vir o êxtase de saber que vai tudo em geral correr em bem, já nada é romântico, e eu achava que isso não tinha importância e tem?
O romântico sou eu! Oh! E pensar que me ria das pieguices que via, e afinal era tudo eu! Antes assim ou o raio porque agora posso expressar isso num blog. Foi bom vir aqui expressar. Expressar os meus problemas com a agricultura e o Stressado porque já me estou a sentir melhor.
A agricultura na quinta: se calhar está normal. Eu é que não sabia que ela era como uma chatice como outra qualquer.
O Stressado: o também contabilista chegou-se ao telemóvel ao pé de nós quando estávamos a meio de uma conversa na esplanada. Eu e o Stressado tínhamos combinado encontrarmo-nos lá. Para falar, Stressado! Espera lá que vou agora ligar para ti e já te digo que vou escrever uma postagem sobre esta situação desagradável toda. E então lá ficámos à espera que ele acabasse a conversa. Deixei-os entretanto e vim para casa, mas ele não atende. Ainda deve estar a falar. Já estou a escrever na mesma.
O Stressado é meio contabilista meio baterista, e era para ver a contabilidade da quinta e para combinar o ressurgimento de uma banda que tivemos em miúdos – que o Stressado é que leva a sério, eu é mais ou menos tanto faz. Mas parece que era para não dizer a ninguém.
Agora vou estragar a surpresa, e se são muitos os nossos leitores em Eiras de Sabaio! É bem feito. De qualquer maneira não há grandes movimentos na contabilidade. Deve ser fácil. E com este tempo não se pode andar de tractor.
Entretanto ligo ao Stressado.
Wednesday, November 18, 2009
Casebre amarelado
Wednesday, November 11, 2009
A casa amarela
Era o anoitecer e os nossos jovens corações agitavam-se. Olhávamo-nos em silêncio, à espera do primeiro movimento. Cinco ou seis. Sentados, a vinte ou trinta metros da casa amarela. Naquele tempo não havia electricidade nas terras. Trevas sobre o abismo para lá dos muros da casa amarela. Veio depois de alguns de nós terem filhos da nossa idade. A luz eram os nossos olhos excitados e os nossos ouvidos. O meu irmão, valentão, valentão! Então? E eu olhava para a casa amarela. Esperando ver surgir um velho que ainda não tivesse morrido mandar-nos para casa a tremer, só de olharmos para ele e ele para nós. Quem seria o valentão?
Assim que me levantei a casa serenou um pouco, não é nada, só uma casa. Anda. Mas eu sabia que nunca tinha ouvido silêncio assim. Fiz o percurso sem nunca me virar para trás, mas eu sabia que os outros nunca me haviam dirigido olhar assim. Assim. A casa sabia. Era um amarelo antigo, branca junto às janelas e à porta vermelha. Havia uma espécie de relvado natural em frente, de erva fininha e rara, não muito curta, verde claro. Mais rara ainda à volta da figueira para onde me dirigi, junto ao muro do lado Sul. O chão muito liso, pisa e deixa rasto. O cheiro da figueira vinha com cada inspiração, tronco, ramos e folhas. Espantei-me com o monte de lenha nova debaixo da árvore. E porque diabo, rapaz?
Agia como um condenado à morte debaixo daquela figueira. Subi para o monte de lenha e lancei-me às ramadas sem olhar para trás nem parar para pensar. Até ficar de pé em cima do muro Sul. Do pátio antigo da casa amarela. Parei para respirar. Para escutar o coração. Para pensar. Ainda sem olhar para trás. Quem está aí?
Decidi fugir mas não o fiz. Desci para o interior do pátio sem saber como. Depois de habituados à escuridão, os meus olhas começaram a ver onde o velho tinha o poço, zzzzpaafff, e o caminho que levava para a adega, e onde guardava os animais. Tudo sossegado e arrumado, como deve ser. Como pode ser? Sem sair do lugar tinha visto quase tudo, só havia aquela porta vazia para a casa amarela, como se nunca tivesse tido porta, como se velhos estivessem sempre a sair, que crescia quando a ignorava, que chamava o meu olhar, como agora. Assim.
Como agora.
Wednesday, November 4, 2009
Lanterna mágica
Não tragais borzeguins pretos
                                                        
Saturday, October 31, 2009
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
Lance-se a vista por esse Portugal todo, e suas colónias, olhe-se bem, para os immensos recursos que de todas as partes a Providencia nos prodigalisou: veja-se o despreso que de tudo isto fazemos — e diga-se, se era tal terra para tal gente, ou tal gente para tal terra: não fazemos caso de nenhuma d'estas fontes de salvação, de vida, de riqueza e de opulencia: — de dia para dia e de hora para hora nos deixamos indolentemente ir rolando pela escarpa do precipicio, tendo tantos ramos onde nos apegar; tendo caminhos patentes e faceis para tornar a subir; tendo até asas para voar ás maiores e mais deliciosas alturas: a epigraphe, que prepuzemos, é uma carapuça que se enterra até ás orelhas nas nossas parvas e ruins cabeças.
Friday, October 23, 2009
Nova pigmentação de dentro para fora em vermelho vermelho I
Monday, October 19, 2009
Crónica da Madeira
Devem ter reparado que durante o período de campanha não publiquei nada neste blog, que não se destina a fazer política. Poderia dar azo a duplas interpretações. Mas os eirenses sabem distinguir as reflexões de um cidadão como outro qualquer da instrumentalização política e, por isso, não entrando directamente no campo político-partidário, mas preferindo apenas partilhar algumas ideias e sentimentos referentes à minha actividade, mais no campo das curiosidades até, sinto-me agora com outra liberdade para falar.
A minha mulher foi mais uma vez às compras e como eu já tenho a minha conta em vinhos e licores e não estou para andar atrás de rendas e aos bordados resolvi vir para o espaço Internet do hotel, precisamente para dar conta de algumas notas pessoais que venho remoendo. É muito saudável sair do nosso reduto para reflectir e partilhar à distância com os conterrâneos, deixando assentar a poeira, arejar as ideias. Desde já, como não o fiz ainda, aproveito para saudar desde esta belíssima ilha os amigos de Eiras e de todo o Vale, ou de qualquer ponto de onde nos leiam. Por aqui, as férias estão magníficas.
Então e que assuntos me trazem junto aos computadores para me retirar da convivência com os «souvenirs» locais feitos na China (nem todos, nem todos)? São apenas espuma, mas como mos lançaram no período eleitoral em jeito de amigável provocação, aproveito a ocasião para me explicar, como quem dá seguimento à paródia. O primeiro até vem em linha com a famosa questão dos dinossauros, que serviu de introdução à crónica. Mas desta vez em formato amigável, para variar, porque essa parte não interessa e já está arrumada, visto que, como sabeis, só agora mais recentemente, e pouco amigavelmente, é que quiseram colar-me essa e alcunhar-me de fóssil.
A verdade é que já de há muito a minha «alcunha» é Presidente da Junta, só. Podem dizer o que quiserem, mas toda a gente me trata assim. Dentro e fora da freguesia, sem eu pedir nada. Aposto que se na região perguntarem pelo meu nome, Francisco Aires Marchante, muitos não saberão informar quem é. Para ter resposta unânime e sem dúvidas só têm duas hipóteses: ou o «Aires da Junta» ou pelo «Presidente da Junta». Deste modo, acho que estou baptizado. Para os que, mesmo adversários, nomeadamente de maior elevação e companheirismo, vinham ao meu encontro brincando com o que aconteceria caso perdesse as eleições, eu digo do mesmo modo, mas alto e bom som: além de não perder as eleições (mas isso é o que menos conta, entre democratas) já estou baptizado, e consagrado! Ouçam esta: o Zé Padeiro não deixou de ser o Zé Padeiro depois da reforma! E já não vende pão nem broa (sincero abraço para ele).
O outro assunto que não me preocupa, apenas me interessa como cidadão, mas que não saiu da boca de muita gente foi a grande afluência de gente nestas eleições e a perda de votos da nossa lista. Fala-se em vontade de mudança, e eu concordo. Sou o primeiro a achar que devem aparecer boas propostas alternativas, gente nova que queira trabalhar. E temos todos a agradecer quando se concretizar. Nessa altura é que tiro umas boas férias. Em vez de ir embora já amanhã até ficava mais uma semana ou duas! Nas eleições da passada semana, se posso adiantar alguma coisa, acho que muita gente estava indecisa, devido a uma campanha de desinformação que ficou patente, e depois agravou-se com um percalço que houve. Eu fui votar por volta das 15h. De facto estava muita gente, por causa das eleições e devido à festa de Santo André. Quer a sede da Junta quer a Igreja estão colocadas no centro da futura Vila, por razões históricas. E é aí que temos menos estacionamento. Não é fácil mexer de um dia para o outro nesta situação. Só há um sítio onde se pode criar mais estacionamentos junto à Junta, mas a Câmara não tem atendido aos nossos muitos ofícios enviados, e há também problemas com as autorizações e os donos do terreno. Vi muita gente aborrecida a circular longos minutos sem conseguir estacionar o carro para exercer o direito de voto. Estas coisas são mesmo assim e chegou-se a gerar alguma confusão. Foi o percalço, digamos assim. Na altura não quis estar a esclarecer as pessoas porque tinha falado do problema na campanha, e achei que não era ali o momento. Agora posso fazer também um pouco de analista e revelar que estou convencido que isto, entre outras coisas, fez com que muitos eleitores se decidissem a alterar o seu voto à boca da urna, o que é compreensível.
Mesmo assim ganhámos. Independentemente disso, se perdessemos para mim tudo seguiria na mesma, de acordo com a estima, a elevação e o respeito que a freguesia e o seu povo merecem, aceitando democraticamente e com gratidão o resultado da votação. Se alguma coisa me preocupa não são os resultados. De certeza.
Eram estas palavras de compreensão e de amizade, para aqueles que as merecem e que dela são capazes, que eu gostava de deixar à boa gente de Eiras de Sabaio e sobretudo aos muitos amigos e demais leitores deste blog, alguns dos quais me acompanharam na campanha e não tiveram ainda conhecimento disto.
Thursday, October 15, 2009
Fosso de orquestra
Santana Lopes - órgão
                                                        
                                                        
Monday, October 12, 2009
A seda entre nós - I
              São muitos os saberes envolvidos na sua produção, desde os cuidados com as amoreiras, de cujas folhas a larva se alimenta, passando pela selecção, criação e manejo do bicho-da-seda até à manufactura propriamente dita.
              De tudo isto há ainda memórias no Vale, tudo isto foi uma realidade da nossa região. Algumas amoreiras ainda se podem por cá encontrar. Era importante que se cuidasse deste património, quer na forma de registos, livros, estudos (existem alguns, antigos, que convinha que as entidades competentes salvaguardassem), passando depois para um eventual núcleo museológico e idealmente por um centro activo que não só preservasse o património como também lhe desse nova vida. Isto possibilitaria uma presença reduzida mas contínua das actividades serícolas, algum ganho a pequenos produtores e artesãos, que contribuiriam com o seu trabalho de diversas formas: integrados no próprio centro, vendendo produtos, participando em feiras e certames, etc. Há já municípios a apostar nestas iniciativas. As novas gerações têm o direito de entrar em contacto com a sua identidade. Além disso, a própria União Europeia pretende elevar a produção e depender menos de exportações de países como a China, segundo creio. Em geral não sou favorável à política de subsídios de Bruxelas, que tem sido daninha para a nossa agricultura, mas não me oponho a apoios que visem lançar, ou relançar, uma produção que merece ser estimulada, como é o caso. Receber para não produzir é que não.
              Oportunamente voltarei a este tema.
Wednesday, October 7, 2009
Saturday, October 3, 2009
Omelete de queijo
Eu e as artes culinárias somos uma história! Depois de uma introdução que queria leve e colorida, a ver se sai, uma receita que já fiz. E saiu e bem. É uma omelete muito boa e pouco calórica. Cozinhar é daquelas actividades que nos fazem aguçar devidamente os sentidos. Das poucas, porque vivemos em ambientes artificiais. A plena realização sensorial dos indivíduos é um direito (e uma responsabilidade). Há estudos que indicam que nos países desenvolvidos as pessoas estão a perder a capacidade de identificar correctamente as cores porque não correm risco de vida se por exemplo escolherem um fruto errado no supermercado, o que contraria uma necessidade evolutiva (de distinguir entre frutos perigosos e comestíveis, verdes e maduros, etc.). Ou então, Eva é uma história diferente, comeu a maçã porque quis. Fez muito bem, estava madurinha, era uma questão de plena realização sensorial. Um direito. Uma responsabilidade não, não faz sentido, não se aplica, porque a serpente é que era venenosa e não a maçã, e o Paraíso era como os supermercados.
Os índios ouviam as correrias dos búfalos encostando a orelha ao chão. Os bosquímanos do Kalahari distinguem o rasto de um animal ferido entre as centenas de pegadas de uma manada em movimento e fazem omeletes gigantescas com ovos de avestruz.
Ora, se fizermos uma omelete de queijo quase sem as gemas aguçamos os sentidos e ela fica menos calórica. Pode levar por exemplo
três claras,
uma gema ou menos,
um queijo de cabra ou menos,
salsa e alho.
Num prato, vai ao micro-ondas, porque é para cromos e fica menos calórica.
As claras dos ovos são bastante pouco calóricas.
Ainda não sei o que se faz às gemas.
O cão é que me resolveu o problema.
Quem quiser pode aprender a fazer bolos para dar a um pobre ou a uma pessoa amiga que já seja gorda.
É espantoso como uma comidita tão despretensiosa pode ser assim de apaladada. Eu sei que isto parece tudo feito meio à bacalhau… mas se é bom! Vá-se experimentando nos ingredientes, que eu também não os sei bem ao certo, mas um queijo (individual) para três claras não deve estar mal. Mais vale excedermo-nos na salsa do que no alho, para o meu gosto ao menos, mas é como digo, é tudo uma questão de bom senso.
Outras dicas:
Doces vegetarianos – são bons e engordam na mesma;
Raparigas vegetarianas muito bonitas – há;
Yoga – dá menos fome do que fazer exercício;
Tuesday, September 29, 2009
Interior nosso
Sobre este seríssimo assunto de estarmos aqui a morrer aos poucos no Interior, penso sinceramente que havemos de sair mais fortalecidos no final das contas, se não desvanecermos de todo antes. Há caminhos que vão sendo feitos, há gente boa a trabalhar, há sinais de uma nova confiança e ambição. Não é ingenuidade, não se trata de optimismo vazio, é apenas a minha percepção de que existe um certo despertar de almas. Não sei é se vem a tempo. Porque o risco de o Interior morrer de facto, ou ficar moribundo durante décadas, é real, se as coisas não mudarem definitivamente de rumo. Pode ser que a tomada de consciência destes riscos seja o derradeiro estímulo para o início de uma transformação. Pode ser.
O desequilíbrio entre Interior e Litoral é coisa de séculos. A localização da maior parte dos grandes centros na zona Litoral era já um convite à saída para o mar (se pensarmos na razão de ser dessa localização recuaremos milénios e não séculos). E então fizemo-nos ao mar. O Litoral ganhou definitivamente grande importância em tudo, enquanto boa parte do nosso Interior começava a ser esquecido. Talvez fosse inevitável. Em todo o caso, o Interior continuava a encontrar ainda nas actividades mais tradicionais uma vitalidade própria. Só muito mais tarde a situação se degradou a sério, com o despontar de actividades como a indústria e os serviços, muito mais dependentes da tecnologia e do conhecimento. Por efeitos da inércia e de falta de visão política, essas actividades concentraram-se predominantemente no Litoral (para não falar do que se passava noutras paragens, noutros países).
O esvaziamento de muitas regiões do país foi avassalador, no último meio século. De há algum tempo a esta parte tem sido tema de discussão a nível nacional. Muito se tem discutido, de resto. Talvez demais. Nós próprios, ‘interioranos’, nos perdemos às vezes em análises de todo o género, no estudo das opções estratégicas e afins. Não digo que isso não tenha importância nenhuma, mas o que não podemos é esquecemo-nos de caminhar, de fazer coisas, de experimentar. Já todos temos consciência dos problemas que defrontamos. Já se fizeram mais que muitos diagnósticos. Pessoalmente dou apenas uma importância relativa a discussões em volta de temas como a distinção entre o que cabe fazer às autarquias e o que é que cabe ao governo; ou saber se essas autarquias devem ou não conciliar estratégias entre si; ou se é melhor apoiar as empresas que queiram investir na região ou tentar atrair pessoas através de benefícios vários; ou ainda perceber se a melhor aposta está no turismo ou se por outro lado não podemos passar sem alguma indústria. Experimente-se: o que resultar é bom.
Eu não sou exemplo, uma vez que me limito a ‘palpitar’ umas ideias, em vez de fazer. Em todo o caso, palpito também que se não fizerem bem, as ideias, também não hão-de fazer mal, não é por aqui que se perde o fio à meada. Aliás, aqueles que parecem querer olhar de novo para o Interior como lugar de oportunidade e esperança depois de derramadas todas as lágrimas pelo quase tudo que se perdeu – dos quais falei no início (e de que tentarei dar exemplos noutras oportunidades) – não actuam primordialmente em função das muitas leituras que se vão fazendo.
Depois de uma catástrofe séria numa área natural, as formas de vida mais simples encarregam-se aos poucos de ocupar o espaço vazio. E atrás desses primeiros rebentos vêm outros, de raízes mais fundas. Nem todos vingam, mas a Natureza não desiste. Mais cedo ou mais tarde, tudo estará recomposto.
Gostava que esta metáfora viesse a aplicar-se ao Interior. A parte da catástrofe já está.
