Thursday, November 6, 2008

O meu cão já tem sobrenome



Desde Setembro que tenho um cão pretito. Após a mútua alegria inicial, as primeiras preocupações que tive foram: onde é que ele vai ficar e que nome lhe hei-de dar. Por acaso tinha um espaço minimamente confortável, mas para a lenha, que era o que já se guardava lá. Começou logo a ganir mesmo muito alto (muito forte, que é como nós dizemos na música), mas o cão, que a lenha sempre se portou bem.

Eu estava convencido que mais tarde ou mais cedo aquele animal se iria calar. E assim foi. Mas quando de repente se fez silêncio até fiquei preocupado e fui lá ver. Percebi de imediato que tinha fugido através de um buraco que já estava meio aberto e eu não tinha reparado, mas logo o reparei. Procurei-o. Em vão, ele é que regressou tranquilamente, mais tarde. Não me resignei e deixei-o no mesmo sítio, sujeito a alguma reparação, e ele ainda escapou mais duas ou três vezes, aquele macaco. A mais espectacular foi uma em que ele se deu ao trabalho de roer a madeira da trave, da ombreira ou como é que se chama, e depois ainda teve que tirar uma tranca de outra porta. E andava sempre a fugir-me, mesmo quando o soltava no quintal e tudo. Era uma chatice, mas a verdade é que foi assim que eu resolvi o problema do nome: passou a ser o Fugas. Ainda hoje, toda a gente ‘ Ó Fugas, ó Fugas!'

Mais ou menos desde essa altura comecei a preparar outro sítio para o armazenar, porque não o queria obrigar a ficar num sítio onde não se sentia bem. É uma antiga estufa e tive que andar a pôr rede etc., por isso é que demorou tanto tempo! Por isso e porque o gajo fugia-me sempre, sempre de lá. Ao todo terão sido umas dez vezes, incluindo uma ou outra em que conseguiu fugir ainda antes de eu ter tido tempo de fechar a porta. Podia não conseguir fazer uma jaula à prova de Fugas, mas pelo menos toda a gente dizia que eu tinha escolhido um bom nome para lhe dar.

Hoje finalmente concluí uma prisão de alta segurança, para um criminoso compulsivo. Pus tijolos onde era necessário, amarrei a rede com o triplo dos arames e pus o cão lá dentro, que foi a parte mais arriscada. E fiquei a ver ao longe. Só que ele deu umas voltinhas, tentou furar aqui e ali sem grande convicção e desistiu. Ele deve ter percebido que não valia a pena tentar. É muito fino.

Por falar nisso, apareceu naquela altura o Arménio, que achou que era importante fazer uns melhoramentos no telhado da casota que também construí lá dentro. Estávamos atarefados com os trabalhos quando o surpreendemos a escavar um buraco. Não era um túnel para fugir, isso pensámos nós, mas não estava para aí virado, era um túnel direccionado apenas para baixo . E deixámo-lo. Depois é que nos lembrámos que devia ser estratégia: se não conseguia fugir pelos meios habituais, tinha que recorrer ao logro. Das escavações saíram coisas desagradáveis: restos de galinha, é melhor não entrar em pormenores. Como ele ameaçava continuar, vi-me obrigado a transferi-lo para as instalações antigas. Mas receio, e aqui é que entra o logro, que tenha sido coisa planeada. E que, neste momento, ele esteja a escavar mais uns centímetros no túnel que sabia ser impossível fazer na ala de segurança máxima.

É por isso que o quadrúpede já tem nome e sobrenome: Fugas Scofield.

2 comments:

Lucinda said...

Tem nome, tem sobrenome e um dono que só pensa em prendê-lo. O cão, melhor que a maioria dos cidadãos que estando livres estão presos, tudo faz para cheirar a liberdade. Lá diz o outro no seu livro e eu, mesmo sem gostar do outro, concordo com ele: a liberdade é um vício.
Como eu compreendo o teu cão, faria o mesmo.

J. Bailica said...

Origado pela visita, Lucinda.

Eu compreendo esse ponto de vista, mas mas o meu cão está numa antiga estufa que tem cerca de 30m quadrados, cercada com rede(o lhe permite ver o que se passa e quem passa); quando tenho mais tempo livre passei-o (e a mim) quase todos os dias uns 45 m \ 1h.
Desde que o tenho não deve ter havido nenhuma semana durante a qual o animal não saísse pelo menos duas vezes.

Isso não é a liberdade, mas é melhor (na minha opinião) do que a vida da maior parte dos cães, quer os que vivem numa aldeia (muitas vezes acorrentados), como aqui em Eiras, quer os que passam o dia num apartamento.

Por fim, o bicho apareceu por aqui, livre mas faminto. Dei-lhe comida algumas vezes, por pena, e ele foi ficando. Que poderia fazer? Alimentá-lo mas deixá-lo livre?
Entre outras razões, isso não seria boa ideia por causa da responsabilidade por possíveis danos que causasse (alimentá-lo faz de mim o seu dono, se não perante a lei, perante os meus vizinhos).
O 'problema canino' foi iniciado pelos primeiros humanos que domesticaram os lobos. A partir daí, o destino conjunto das duas espécies está traçado, parece-me.

Diga sempre coisas.