(É no Vale Interior mas a ser amarelo não é uma casa)
À beira do interior
Era o anoitecer e os nossos jovens corações agitavam-se. Olhávamo-nos em silêncio, à espera do primeiro movimento. Cinco ou seis. Sentados, a vinte ou trinta metros da casa amarela. Naquele tempo não havia electricidade nas terras. Trevas sobre o abismo para lá dos muros da casa amarela. Veio depois de alguns de nós terem filhos da nossa idade. A luz eram os nossos olhos excitados e os nossos ouvidos. O meu irmão, valentão, valentão! Então? E eu olhava para a casa amarela. Esperando ver surgir um velho que ainda não tivesse morrido mandar-nos para casa a tremer, só de olharmos para ele e ele para nós. Quem seria o valentão?
Assim que me levantei a casa serenou um pouco, não é nada, só uma casa. Anda. Mas eu sabia que nunca tinha ouvido silêncio assim. Fiz o percurso sem nunca me virar para trás, mas eu sabia que os outros nunca me haviam dirigido olhar assim. Assim. A casa sabia. Era um amarelo antigo, branca junto às janelas e à porta vermelha. Havia uma espécie de relvado natural em frente, de erva fininha e rara, não muito curta, verde claro. Mais rara ainda à volta da figueira para onde me dirigi, junto ao muro do lado Sul. O chão muito liso, pisa e deixa rasto. O cheiro da figueira vinha com cada inspiração, tronco, ramos e folhas. Espantei-me com o monte de lenha nova debaixo da árvore. E porque diabo, rapaz?
Agia como um condenado à morte debaixo daquela figueira. Subi para o monte de lenha e lancei-me às ramadas sem olhar para trás nem parar para pensar. Até ficar de pé em cima do muro Sul. Do pátio antigo da casa amarela. Parei para respirar. Para escutar o coração. Para pensar. Ainda sem olhar para trás. Quem está aí?
Decidi fugir mas não o fiz. Desci para o interior do pátio sem saber como. Depois de habituados à escuridão, os meus olhas começaram a ver onde o velho tinha o poço, zzzzpaafff, e o caminho que levava para a adega, e onde guardava os animais. Tudo sossegado e arrumado, como deve ser. Como pode ser? Sem sair do lugar tinha visto quase tudo, só havia aquela porta vazia para a casa amarela, como se nunca tivesse tido porta, como se velhos estivessem sempre a sair, que crescia quando a ignorava, que chamava o meu olhar, como agora. Assim.
Como agora.
Não tragais borzeguins pretos
                                                        
Lance-se a vista por esse Portugal todo, e suas colónias, olhe-se bem, para os immensos recursos que de todas as partes a Providencia nos prodigalisou: veja-se o despreso que de tudo isto fazemos — e diga-se, se era tal terra para tal gente, ou tal gente para tal terra: não fazemos caso de nenhuma d'estas fontes de salvação, de vida, de riqueza e de opulencia: — de dia para dia e de hora para hora nos deixamos indolentemente ir rolando pela escarpa do precipicio, tendo tantos ramos onde nos apegar; tendo caminhos patentes e faceis para tornar a subir; tendo até asas para voar ás maiores e mais deliciosas alturas: a epigraphe, que prepuzemos, é uma carapuça que se enterra até ás orelhas nas nossas parvas e ruins cabeças.
Santana Lopes - órgão
                                                        
                                                        
Eu e as artes culinárias somos uma história! Depois de uma introdução que queria leve e colorida, a ver se sai, uma receita que já fiz. E saiu e bem. É uma omelete muito boa e pouco calórica. Cozinhar é daquelas actividades que nos fazem aguçar devidamente os sentidos. Das poucas, porque vivemos em ambientes artificiais. A plena realização sensorial dos indivíduos é um direito (e uma responsabilidade). Há estudos que indicam que nos países desenvolvidos as pessoas estão a perder a capacidade de identificar correctamente as cores porque não correm risco de vida se por exemplo escolherem um fruto errado no supermercado, o que contraria uma necessidade evolutiva (de distinguir entre frutos perigosos e comestíveis, verdes e maduros, etc.). Ou então, Eva é uma história diferente, comeu a maçã porque quis. Fez muito bem, estava madurinha, era uma questão de plena realização sensorial. Um direito. Uma responsabilidade não, não faz sentido, não se aplica, porque a serpente é que era venenosa e não a maçã, e o Paraíso era como os supermercados.
Os índios ouviam as correrias dos búfalos encostando a orelha ao chão. Os bosquímanos do Kalahari distinguem o rasto de um animal ferido entre as centenas de pegadas de uma manada em movimento e fazem omeletes gigantescas com ovos de avestruz.
Ora, se fizermos uma omelete de queijo quase sem as gemas aguçamos os sentidos e ela fica menos calórica. Pode levar por exemplo
três claras,
uma gema ou menos,
um queijo de cabra ou menos,
salsa e alho.
Num prato, vai ao micro-ondas, porque é para cromos e fica menos calórica.
As claras dos ovos são bastante pouco calóricas.
Ainda não sei o que se faz às gemas.
O cão é que me resolveu o problema.
Quem quiser pode aprender a fazer bolos para dar a um pobre ou a uma pessoa amiga que já seja gorda.
É espantoso como uma comidita tão despretensiosa pode ser assim de apaladada. Eu sei que isto parece tudo feito meio à bacalhau… mas se é bom! Vá-se experimentando nos ingredientes, que eu também não os sei bem ao certo, mas um queijo (individual) para três claras não deve estar mal. Mais vale excedermo-nos na salsa do que no alho, para o meu gosto ao menos, mas é como digo, é tudo uma de bom senso.
Outras dicas:
Doces vegetarianos – são bons e engordam na mesma;
Raparigas vegetarianas muito bonitas – há;
Yoga – dá menos fome do que fazer exercício;
Sobre este seríssimo assunto de estarmos aqui a morrer aos poucos no Interior, penso sinceramente que havemos de sair mais fortalecidos no final das contas, se não desvanecermos de todo antes. Há caminhos que vão sendo feitos, há gente boa a trabalhar, há sinais de uma nova confiança e ambição. Não é ingenuidade, não se trata de optimismo vazio, é apenas a minha percepção de que existe um certo despertar de almas. Não sei é se vem a tempo. Porque o risco de o Interior morrer de facto, ou ficar moribundo durante décadas, é real, se as coisas não mudarem definitivamente de rumo. Pode ser que a tomada de consciência destes riscos seja o derradeiro estímulo para o início de uma transformação. Pode ser.
O desequilíbrio entre Interior e Litoral é coisa de séculos. A localização da maior parte dos grandes centros na zona Litoral era já um convite à saída para o mar (se pensarmos na razão de ser dessa localização recuaremos milénios e não séculos). E então fizemo-nos ao mar. O Litoral ganhou definitivamente grande importância em tudo, enquanto boa parte do nosso Interior começava a ser esquecido. Talvez fosse inevitável. Em todo o caso, o Interior continuava a encontrar ainda nas actividades mais tradicionais uma vitalidade própria. Só muito mais tarde a situação se degradou a sério, com o despontar de actividades como a indústria e os serviços, muito mais dependentes da tecnologia e do conhecimento. Por efeitos da inércia e de falta de visão política, essas actividades concentraram-se predominantemente no Litoral (para não falar do que se passava noutras paragens, noutros países).
O esvaziamento de muitas regiões do país foi avassalador, no último meio século. De há algum tempo a esta parte tem sido tema de discussão a nível nacional. Muito se tem discutido, de resto. Talvez demais. Nós próprios, ‘interioranos’, nos perdemos às vezes em análises de todo o género, no estudo das opções estratégicas e afins. Não digo que isso não tenha importância nenhuma, mas o que não podemos é esquecemo-nos de caminhar, de fazer coisas, de experimentar. Já todos temos consciência dos problemas que defrontamos. Já se fizeram mais que muitos diagnósticos. Pessoalmente dou apenas uma importância relativa a discussões em volta de temas como a distinção entre o que cabe fazer às autarquias e o que é que cabe ao governo; ou saber se essas autarquias devem ou não conciliar estratégias entre si; ou se é melhor apoiar as empresas que queiram investir na região ou tentar atrair pessoas através de benefícios vários; ou ainda perceber se a melhor aposta está no turismo ou se por outro lado não podemos passar sem alguma indústria. Experimente-se: o que resultar é bom.
Eu não sou exemplo, uma vez que me limito a ‘palpitar’ umas ideias, em vez de fazer. Em todo o caso, palpito também que se não fizerem bem, as ideias, também não hão-de fazer mal, não é por aqui que se perde o fio à meada. Aliás, aqueles que parecem querer olhar de novo para o Interior como lugar de oportunidade e esperança depois de derramadas todas as lágrimas pelo quase tudo que se perdeu – dos quais falei no início (e de que tentarei dar exemplos noutras oportunidades) – não actuam primordialmente em função das muitas leituras que se vão fazendo.
Depois de uma catástrofe séria numa área natural, as formas de vida mais simples encarregam-se aos poucos de ocupar o espaço vazio. E atrás desses primeiros rebentos vêm outros, de raízes mais fundas. Nem todos vingam, mas a Natureza não desiste. Mais cedo ou mais tarde, tudo estará recomposto.
Gostava que esta metáfora viesse a aplicar-se ao Interior. A parte da catástrofe já está.
Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa. Tenho de encontrar alguma coisa.
Assim também eu criava colhões!
(Homem gritando do lugar do passageiro de uma viatura que abrandou a sua marcha e se abeirou de outro, aparentemente conhecido do primeiro, e que, imóvel, ensimesmado e de boné na cabeça, se encontrava sentado num banco de jardim, a apanhar o sol da tarde de braços e pernas afastados; hoje, praça central de Eiras de Sabaio)
...A emigrazon y ó Rey, arrebatanlles de continuo,
o amante, o hirman, o seu home, sosten dá familia
de cote numerosa, e asi, abandonadas, chorando o
seu desamparo, pasan a amarga vida ant'ras incer-
tidumbres d'a esperanza, á negrura d'a soidade y
as angustias d'un-ha perene miseria. Y o mais des-
consolador par' élas, e, que os seus homes vans' in-
do todos, uns por que ll'os levan y outros porque o
exempro, as necesidades, âs veces un-ha cobiza,
anque disculpabre, cêga, fannos fuxir d'o lar queri-
do, d'aquela á quen amaron, d'a esposa xá nay e
dos numerosos fillos...
(Rosalia Castro de Murguía)
Há agora umas sobremesas muito boas de baunilha e chocolate no Minipreço de Romaride. Onde vou às vezes. E há agora crianças neste país que são uns príncipes birrentos e chorões. Eu também lá vou por causa das refeições congeladas, não como só baunilha e chocolate. As crianças é que não, querem tudo o que lhes apetece aos berros. A mim apeteceu-me há dias dar uma bolachona a uma, mas sou responsável e não estive para a estragar com mimos, se fosse à mãe comprava-lhe hortaliça para ficar forte em vez de chupas, como sou eu comprei pão caseiro para mim.
Mas gosto suficientemente de crianças para olhar às vezes para mulheres como quem admite arriscar-se a engravidá-las um pouco, bem aí umas quatro ou cinco delas faço-lhes isso entre ir e não vir do supermercado, de semana. Se for ao Modelo na sede de concelho talvez cheguem às trinta. Acho isto normal. Sete ou oito vezes por mês em média, durante dez anos, e pode acabar por me aparecer uma de tal maneira que me convença a ir às compras com uma criança, só que das nossas (a não ser que seja só para dar beijinhos), em todo o caso depois senta-se à mesa e não toca em sobremesa nenhuma enquanto não comer a sopa de feijão verde.
Agora apenas indo eu ainda a caminho do Minipreço tive foi e de que maneira uma vontade cega de matar um velho que entrou de repente de mota a seguir à curva da Cardosa.
Ao todo, de casa a Romaride e de Romaride a casa, acho que me cruzei com umas dezasseis pessoas, e catorze nem olharam para mim (saberiam de alguma coisa?, foi, foi, que eu deixo transparecer tudo).
Por fim voltei para casa e acaba já a seguir: as sobremesas estavam fora do prazo, a rapariga da caixa era gorda e mal-encarada, e eu não sei fazer sopa de feijão verde. Ora bem, estando a gente em Eiras de Sabaio, não haverá por perto, eirenses, um pequeno comércio tradicional onde as crianças vão sozinhas buscar o pimentão que falta às mães e a gente encontra alguém que tem a saúde de espírito necessária para saber fazer uma sobremesa a sério (as do Minipreço também as há de caramelo e não são piores)?
A Maria João não é natural do Vale Interior, nasceu em Lisboa e aí viveu até se ter mudado para cá, há cerca de cinco anos. Deixou a profissão, Educadora de Infância, e abriu um pequeno negócio em Eiras de Sabaio. Onde tem aproveitado a oportunidade de desenvolver as suas capacidades pessoais em diversas áreas. Com ela, podemos aprender a ter perspectivas diferentes sobre o Vale.
Filipa – Depois de ter passado estes últimos cinco anos no Vale Interior de certeza que já o conhece bem. O que é que a região lhe diz de especial? Já se sente plenamente integrada?
Mª João – Sim, se não somos já carne e unha anda lá perto. Mas isto é uma iniciação, o conhecimento nunca tem fim. Nestes quase cinco anos já fiz, se quiseres, o 1º ciclo. Sei o básico. Passava no exame – com boa nota, quem sabe! Pelo menos tenho-me esforçado. Penso que me senti integrado logo desde o início. Cada vez mais, claro.
Filipa – Como era a sua vida em Lisboa?
Mª João – Agitada, corre-se muito e não se sai do lugar. Sempre a mesma coisa durante… muito tempo. Sempre soube que me faltava algo. Mas posso dizer-te do que é que eu gostava, também: de ir ver bailado, moderno e clássico, sou uma louca; dos santos populares; dos elevadores; de contemplar o rio. Há muitas coisas fantásticas. Lisboa é um sítio interessante para visitar, para questionares os teus equilíbrios, porque ao mesmo tempo tens a energia e a melancolia. É super confusa, acidentada, e depois as pessoas foram construindo tudo em camadas. Ao longo da história, foi-se construindo. Não tem uma força estável, uma ordem, não é? A própria terra me dá razão, de vez em quando, dá uns abanõezitos. Por isso, é bom para libertares as tensões internas. Eu vou lá quando sinto que preciso de baralhar e dar de novo. Mas depois afasto-me. É bom para visitar, mas para viver para mim não.
Filipa – Foi por isso que veio para o Vale Interior? Veio à procura de paz?
Mª João – Pode dizer-se que sim. Os lugares é a gente que os faz, acredito nisso. Mas para isso eles têm realmente de nos dizer alguma coisa também, como dizias muito bem.
Filipa – E o que é que o Vale lhe diz? Acha que as pessoas que são de cá também podem ouvir?
Mª João – É quase impossível explicar por palavras. Toda a Terra te pode acolher, não é? Ou melhor, toda a Terra pode acolher pessoas, toda a Terra pode acolher gente! Só que nem todos os lugares são iguais para toda a gente. Depende também da sensibilidade e do momento, do desenvolvimento pessoal. Muitas pessoas não sabem traduzir isto. Muitas vezes as pessoas dizem ‘não gosto deste sítio’, mas não sabem dizer, ou não percebem porquê. Pode ser por causa da paisagem, do ambiente, e elas podem dizer isso. Mas muitas vezes não percebem que o lugar lhes está a comunicar através de sinais ao seu… interior, vamos lá, ao seu ser mais profundo, que é próprio de cada pessoa. São sinais, são… coisas que as pessoas não sabem traduzir, não aprenderam a descodificar. E então dizem que não se sentem bem, ou que não gostam deste lugar, ou daquele lugar, isso ouve-se muito.
Filipa – E quais são esses sinais aqui no Vale Interior?
Mª João – Pronto, para mim há alguns pontos de referência específicos e há também uma atmosfera, certo, como que uma personalidade do… espaço, deste lugar. Em Lisboa também há, por exemplo falei-te na energia e melancolia, aqui há uma energia… – ah, mas em Lisboa é uma energia mais caótica, mais tensa – aqui é uma energia mais de ligação. O vale acolhe, tem uma alma forte, mas não prende. Tem espaço, os cumes estão afastados e têm uma inclinação suave. E isso nota-se em tudo, nas plantas, nas árvores, até nas pessoas. É concêntrico mas tem por onde libertar a carga que acumula. Tem por exemplo o rio, um canal que atravessa este prato todo e comunica para além dele. Eu às vezes imagino que é uma espécie de disco, como os pratos de uma antena parabólica. É um emissor que na liga a energia proveniente, não sei, do espaço, de tudo o que flutua na atmosfera e a recolhe para a terra. Ao memo tempo acumula e o prato faz de reflector para um determinado ponto no espaço. Faz uma ligação nos dois sentidos. Pode ser isso ou não, mas para mim é assim, e é isso que eu sinto de especial. Tem mais a ver com o nosso mapa interno, com o nosso íntimo. Agora, cada um faz a sua leitura. Não tem nada de extraordinário, toda a gente sente estas coisas, só que nem todos param para pensar e sentir. Eu às vezes sinto esta ligação de uma maneira… muito forte mesmo. Não tem explicação, mesmo que te quisesse dizer… às vezes sinto a energia a correr através de mim nos dois sentidos, e é como se fosse mãe e filha deste chão que estou a pisar. Já te aconteceu alguma vez?
Filipa – Ainda não.
Mª João – Também ainda és muito nova, mas hás-de experimentar andar descalça. Sentir o chão.
Filipa – O que é que se pode aprender nas suas visitas guiadas?
Mª João – Isso é um bom exemplo. Eu acho que uma experiência se deve desenvolver em vários planos, ser a mais rica possível, e depois cada um retira aquilo que está de acordo com os seus interesses e sensibilidade. Por isso eu não me foco em nada de muito específico, mas num todo. O importante é que faça sentido. Há pessoas que vêm e se identificam mais com a paisagem, outras com a gastronomia, enfim, pode ser um passeio turístico como qualquer outro. O contacto com a natureza, andar a cavalo, essas coisas. Depois fazemos na quinta actividades, relacionadas com as artes – olha, aprendem artesanato também, quem quiser. Fazemos diversas técnicas espirituais ou de relaxamento e meditação, aprendemos sobre alimentação, tudo isso. O que é giro é depois incluir isso numa visita guiada, e isso já depende da época do ano, da disponibilidade de algumas pessoas da região, porque levamos mesmo os visitantes aos locais, mostramos o artesão, ouvimos falar das lendas e das histórias locais. Eu falo normalmente um bocado da minha interpretação espiritual do Vale Interior, baseada na minha experiência e na pesquisa a diversos autores – falo do Rio Sabaio, da Pedra da Salga, da configuração do Vale, os seus montes, as suas grutas, mas também das plantas, das ervas medicinais, que as pessoas recolhem também muitas vezes. Depois fazemos um almoço que inclui às vezesos produtos da região, podemos aplicar à tarde, por exemplo, algumas técnicas, ou vamos para as artes, num local bonito, ou com determinadas características especiais. Enfim, não há duas visitas iguais.
Enquanto o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde e os da Economia e das Finanças (e os outros) andam a brincar aos ministérios, e enquanto grande número de instituições e entidades andam a brincar às instituições e às entidades, o país conta com uma quinta coluna que miraculosamente o vai aguentando. Chamam-se as avós.
E chamam-se os avôs, e as tias, e os vizinhos e todos nós. A Nação agradece o esforço de todos (lá bem no fundo, pois então), e cada um que explique as coisas como entender, mas a verdade é que boa parte das famílias estaria bem mal arranjada, não fosse a ajuda das que já foram mães e agora são também avós. Isto diz muito das avós que temos, mas diz mais ainda do país que temos. Guiadas pela educação ou pelo instinto, o que é certo é que elas já contam com a ajuda que hão-de dar. E nós com ela. É normal. Ou seria, se não tivéssemos passado por uma série de mudanças sociais – desde logo a entrada das mulheres no mercado de trabalho – que, apesar de importantíssimas, trouxeram problemas novos. O país (ou seja, nós) não soube encontrar formas de dar resposta a estas mudanças. Mais fica para a avó: é o preparar, o levar e o trazer as crianças da escola; depois há o cuidar, nas horas livres e na doença – e não só de miúdos; são as refeições para os grandes ajuntamentos familiares e as feitas à pressa para quem aparece sem aviso.
Sabemos que facilmente se encheria uma página com exemplos. Quando tudo o resto falha, só mesmo quem se habituou desde cedo a atender mais a solicitações alheias do que às suas parece ter ainda a disponibilidade e o saber necessários para acudir aos tais problemas novos. Que talvez nem o sejam, se ao fim e ao cabo as solicitações não são muito diferentes das de sempre.
Posso cometer uma injustiça (aliás, a generalização já é uma forma de injustiça), mas para mim a avó é a reserva e ao mesmo tempo o melhor símbolo do nosso património cívico. A morfologia da intuição, aliás, devia poder levar a melhor sobre a semântica dos dicionários, consagrando-se a palavra matrimónio em casos como este. Património ficaria para os monumentos e para os registos de propriedade.
A propósito, não é uma estátua que as avós merecem. É mesmo um grande beijo.
Heute, am 14. Juli 1990, geben sich die attraktive Manuela und der Kontaktfreudige Ürsel das Ja-Wort.
Manuela (29) und Urs (30) lernten sich vor 3 Jahren(?) kennen. Ein heisser Blick, es funkt, und zwei Herzen brannten lichterloh (118). Von da an war jedem klar, das gibt ein Traumpaar. So ist es geblieben, am 1. Dezember 1989 wurde der Vertrag unterschrieben.
Hoje, 14 de Julho 1990, dào a actractiva Manuela e o bastante sociàvel Urs a palavra-Sim.
Manuela (29) e Urs (30) conheceram se à 3 anos. Um olhar fogoso, e pronto, dois corações ardem em chamas (115). A partir daí era a todos claro, seria um paridem. Assim permaneceu, e em dezembru 1989, foi o contrato assinado.
(de uma edição em formato de jornal, no topo do qual se encontram os dizeres PETRI-HEIL-ZEITUNG , salvo melhor opinião, que no mesmo topo se imprimiu também o desenho de um peixe, a cauda dele vindo a cobrir parte das letras que formam os ditos)
Quais são as boas comidas que há que sejam rápidas de fazer sem trabalho e bem boas, não importa? Imagina, quando tu chegas numa noite e tens aquela necessidade de um petisco especial improvisado para devorar e esquecer. Piiim.
Num prato fundo ou tigela partes uma banana em bocados com uns dois a três centímetros. Juntas pedaços também de queijo. Do frigorífico tiras o leite que havias previamente posto a arrefecer e basta deitar sem mexer nem bater, até sensivelmente cobrir dois terços da altura dos pedaços de banana. Não me lembro agora da quantidade de mel, mas duas colheres de sobremesa não devem ser de mais. Esperas um pouco que o leite adoce e podes juntar canela.
Como é que se equilibra a alimentação? Por exemplo alternar pratos de carne com pratos de peixe, fazes: ao almoço atum (com batatas) e ao jantar salsichas (com esparguete e uma salada). Depois trocas.
Atenção que o mel faz dor de barriga.
No dia 23 de Agosto de 1939 a Alemanha e a União Soviética assinam o pacto de não agressão, ou pacto Molotov-Ribbentrop, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Cada uma das partes esperava na realidade que a outra não interferisse nas suas próprias agressões a terceiros países europeus, no âmbito de uma secreta divisão do território a ocupar por estas duas nações.
A Alemanha acabou por quebrar o acordo ao invadir a União Soviética em 1941.
Molotov e Ribbentrop eram os responsáveis pelas relações externas dos dois países quando o tratado foi assinado.
Molotov, que foi uma das mais relevantes figuras da política soviética durante décadas, não inventou o Coquetail de Molotov, mas o seu nome está de facto ligado a este tipo de arma incendiária, por razões que se podem apurar na Wikipédia.
Ribbentrop foi condenado à morte após a Segunda Guerra Mundial, no Julgamento de Nuremberga.
Não me ocorre agora outra coisa senão esta cantiga popular muito bem interpretada pelo Quim Barreiros.
Quando eu era rapazote
Davam-me muitas vinetas, (BIS)
Andava sempre amarelo,
De fazer muitas caretas. (BIS)
São João rapioqueiro
Casai-me que bem podeis, (BIS)
Já tenho teias de aranhas,
Naquilo que bem sabeis. (BIS)
Ó meu Gonçalo de Amarante,
Rachador de pau de pinho, (BIS)
Dá-me força no vergalho,
Como o porco tem no focinho. (BIS)
Estas moças que aqui estão,
São bonitas trajam bem, (BIS)
Por cima são tudo rendas
Por baixo nem calças têm. (BIS)
As moças da minha terra,
Têm todas cordão d’ouro, (BIS)
Também têm bigodinho,
Á volta do mijadoiro. (BIS)
Fui à praia com o meu pai,
Fui à praia de calções, (BIS)
Andamos a tomar banho,
Com água até aos joelhos. (BIS)
Escrever é envelhecer o mundo. No documentário Uma tribo em Paris, ou algo assim, que vi no Odisseia, lá estavam os papuas (ou seriam polinésios?) de uma tribo remota, nas ruas da capital da França, a falar sobre o homem branco. Muitos espantados de tudo. Riam-se. Eram bem simpáticos, aliás, e perceberam logo muitas coisas pelas quais passamos de todo alheados. Barbudos, com penachos na cabeça, um deles (eram dois), o chefe, tinha uma espécie de pauzinho chinês a atravessar a base do nariz. Um pircing em forma de lápis.
Seja de que maneira, não sabem ler nem escrever. Vêem da pré-história e não temos nenhuma informação sobre os chefes que sucederam a chefes, guerras, pazes e afins. História política, história militar, história da economia, história das ideias, história da vida privada, história das mulheres e história dos homens. De nada há registo nem memória - excepto nas tradições orais, que se vão repetindo e renovando através dos tempos, de forma análoga à renovação da natureza.
Escuta o canto dos pássaros.
Eles são os pequenos mensageiros da manhã.
A escrita é diferente: onde assenta, deixa marcas visíveis. Que leitura farão os papuas da passagem do tempo? A face da Terra tem outras cicatrizes, sinais que talvez saibam interpretar. Mas também não é impossível, caso se ponham realmente a pensar nisso, considerarem por exemplo que o mundo sempre existiu, ao mesmo tempo que tudo é sempre novo. Não lhes assentaria mal uma especulação destas. Dado que não têm História, apenas isso.
Ao visitarem a tribo do homem branco, debruçando-se na varanda do hotel sobre Paris, dar-se-iam os polinésios (ou eram papuas?) conta da importância da progressão do tempo na construção da realidade humana, que convenientemente gostamos de qualificar como ‘progresso’, ou, pelo contrário, assentariam fundamentalmente as suas especulações numa concepção não dinâmica da realidade? Pareceu-me terem optado por não dar grandes indicações num ou noutro sentido, sensatamente. Talvez pressentissem o que outros recusariam concluir: estar a dar-se neles próprios e na sua circunstância uma transição da pré-história para a pós-história.
Porquê? Porque a cidade de Paris, aquela criação humana, só se percebe através de uma forma de narrativa específica (a História) que transforma qualquer fenómeno em objecto de conhecimento. E mais, toda a vivência é já tão marcada pela demanda da objectividade (dos chamados ‘factos’), que os papuas devem ter sentido de repente que já não havia lugar à subjectividade, todos os limites da sua imaginação lhes pareceriam subitamente esgotados. Nem precisariam de os levar a bibliotecas, museus ou universidades. Levaram-nos ao Moulin Rouge, e foi o melhor que fizeram (eles riam-se, riam-se).
A ausência de registo de fenómenos é a pré-história. A materialização automática e sistemática de todos os fenómenos em detrimento da subjectividade é a pós-história.
A nossa tribo há muito que tem consciência histórica. O conhecimento da História (no sentido de narrativa (de sucessão de acontecimentos)) influencia a própria História (no sentido se sucessão de acontecimentos). Agora, com a tendência para a digitalização de todos os aspectos da vida, pergunto-me às vezes duas coisas: a (aparente) emergência do ‘sujeito digital’ (fóruns, blogs, páginas pessoais, redes sociais, etc.) não a estará afinal a tornar a verdadeira subjectividade individual irrelevante face ao crescimento galopante de uma forma nova e muito mais poderosa de materialização, de transformação de tudo em objectos do conhecimento? e não sentiremos nós por vezes, tal como os papuas, que os limites do imaginável estão cada vez mais a ser postos à prova, afectando a própria História (no sentido se sucessão de acontecimentos)? Já não digo nada.
Eu às vezes parece-me que vivo numa espécie de pós-história, confesso. Não sei o que seja isto. Se entretanto conseguir saber mais do que tenho, venho cá dizer (posso ter uma inspiração repentina).