Tuesday, May 10, 2016

Uma teia de aranha


Os documentários televisivos sobre o mundo natural ocupam desde sempre lugar cativo nos recônditos da minha alma contemplativa. Ora doce, ora amarga e cruel, a maravilhosa tela da vida apresentada nesse formato continua em muito a ser a melhor companhia de sofá para o homem espiritual, mesmo no século XXI. Mas tempos houve na minha vida em que assistir ao BBC– Vida Selvagem era como ir uma pessoa à missa. Encontrar-se com o divino, comprar pão e tremoços, tagarelar com os vizinhos, apreciar as fatiotas. Vontade houvesse, claro está, de abandonar a cama a meio da manhã.

 Transmitido religiosamente à hora de almoço, mais água mineral menos preguiça, aquela celebração domingueira ia conseguindo operar em mim o milagre de sintonizar pecado e graça, culpa e maravilhamento, bizarria e subtileza. Um pouco como o professor Marcelo, mais à noitinha, naqueles comentários que viria a deixar quando lhe aconteceu a despromoção – ainda que com menos violência e instinto animal, o BBC.

Ora bom. Se é verdade que a disposição humana para aceder ao divino é mais antiga do que o BBC – Vida Selvagem, não deixa evidentemente essa disposição de ser anterior também à missa na aldeia. Evidentemente. Pode até o meu ser mais caso de indisposição para aceder à missa na aldeia… mas há qualquer coisa a montante: uma predisposição, podemos dizer.

Seja o que for, o que eu dou é às vezes uma volta aos pinhais, ou um passeio pelos campos. Ouvir as cigarras, apalpar o cu às pinhas, cheirar violetas e giestas. E não necessariamente neste sortido de correlações. Porque aí está a essência da paródia toda, a descoberta de que muitos são os caminhos da terra, e enormíssimo o Céu. E principalmente de que de um domingo por semana é sempre tempo. Podemos escrever.

Então, não me canso de lembrar à juventude que há muito mais vida selvagem nos nossos pinhais do que se imagina. Ainda no outro dia vi isso num carro que estava ali parado, num recesso. Mas eles retorquem Ah, lá agora. E eu digo Sim, grandes bestas. E eles Grandes como? E eu Como lobos, e javalis. E eles Ahhh! (São parvos.) Eu neste ponto tenho de confessar que ainda não os vi, certamente por falta de sorte. Mas nem preciso: os jovens talvez preferissem dar por aí de caras com um urso polar ou uma zebra africana, mas para os devaneios do caminhante solitário basta uma singela teia de aranha.

Passa um corvo, a aranha espera e espera, ou tece e tece, a gente espera e espera, ou tece e tece, o vento amaina um bocadoo sol e tal, mais o diabo a sete… e ei-lo, nasce o documentário.

Thursday, November 20, 2014

9 Maiores Embaraços, ou

                                          
                     tantas maneiras de morrer de vergonha

1 – saber da chave e perder a casa, e entrar inadvertidamente numa outra, porventura, má fortuna, parecida (decerto na fechadura);
 
2 – deitar-me com a rapariga errada, por ventura e grande sorte, muito melhor (decerto na fechadura!);

3 –  lá sobrevivi; mas agora, esta: sorrir e acenar, um dia só, para o José Mourinho!
 
4 –  que passava de carro e nem me viu, e imaginar que ele poderia apreciar-me, como futebolista amador, ou só como amador;
 
5 – definitivamente, fazer listas destas ( já a seguir porém é que vem do que é bom, e bem do que é bonito);
 
6 – em pleno Alentejo, ter perdido também o meu caminho, numa  povoação de restaurante e meio, dois cruzamentos e tal rotunda boniteza (assim foi, alma minha que és sensível);
 
7 – um monte de coisas realmente embaraçosas e privadas;
 
8 – como sonhar com caixas de supermercado loiras;
 
9 – ou não saber fazer contas de dividir (nem de nada, especialmente se forem loiras, embaraçosas ou privadas);

 

Saturday, August 3, 2013



[A colina, a colina.
Um animal roedor, talvez…]
Ele era [não, não, a colina, mas ele era] um ouriço. A colina. Ele, era um ouriço. Forragear nos barracões, raspançar pelo enferrujado dos quintais, recolhendo depois para casa, a meio da colina. Sim, a colina. De manhã, desce a pé à povoação, resplandecente contra o sol. Crianças, sapos, poças, moças, trapos, hortas. Resplandecidos e belos, como sempre assim é. O jovem e esquivo ouriço de nada quer saber: Porca miseria, ó porca miseria! Põe um palmo de testa fechado e queixo recolhido, fecha os olhos e ofega, e então dobra e junta e pende os braços e as mãos e os dedos virados para cima, sacudindo-os. E declara: La machina! La machina!
Lá máquina. O sucateiro vai por instantes já de motoreta. Obviamente, com atrelado. De sucata (e para a sucata); de lata (e para a lata). E de todo o tipo de materiais muito pouco ou nada preciosos, para todo o tipo de materiais não preciosos, porém por ouro (ó cabeça submersa!). Cabeça de ouriço.
Antes de o sol, porém, viera a chuva. Sobre os destroços, que ficaram para tufo sujo e irradiante de vapor e orvalho, à toca do jovem esquilo recolector. Logo sobe da povoação uma mulher verdadeira, com um peixe inteiro e cru. A espantada cabeça de antena enferrujada, meio sem mais nada, observa tudo: uma sequência de gestos naquela espécie de película efémera e fictícia dos melhores alvoreceres.
E deixa-a partir em paz, como veio, sentado no chão e de costas com costas o tronco mais calejado. Sim, pois, forte e feio, os tapetes, para a máquina, forte e feio, até o frio molhado lhe repassar bem a couraça de porco-espinho.
[Então come do peixe e é que desce à povoação.]
Os Rádios CB são capazes das mais inesperadas proezas. À noite, as ondas perdidas dos Rádios CB podem atravessar facilmente as fronteiras de países amigos ou estranhos, e mesmo rasgar a remota estratosfera de outros continentes, de acordo com discretos mas idóneos testemunhos. Diga-se que para alguns aficionados os Rádios CB são nada menos do que uma das grandes maravilhas de todos os tempos, a peça mais importante do respectivo veículo e o mais superlativamente singular artefacto da história da comunicação humana! Com todo o a propósito, havia muito que o Ferro-Velho era explorador do filão: do zebre garimpo, muito além do riquexó, sonhava em ter rádio de cidadão. Poucos, porém, lhe reconheciam faculdade e mérito. A própria colina! Sim, que as pequenas peças lhe sucumbiam à repentina corrupção [a colina!], e as maiores eram disto muito espantadas, como que agradecendo, se deviam, que tranquilamente apodreciam.
Já nalgum íntimo daqueles dois bencus altivos, soavam as palavras: «Vitória, vitória, seja para o menos cansado, estafado!». Pecavam inocentemente por defeito, todavia, ou não fosse que milhões e milhares de colinas depois, quando homem, máquina e amuleto se fundem finalmente em trem de tiro e praça, ainda a derradeira batalha estivesse por travar.
Lixo e transístores. Ao longe, sempre lixo e transístores. [E algum despontar de Canção Napolitana! ou vozes melosas?]
A motoreta autofalante chocalhava furiosamente, quantas vezes já, por ruas, vá, mortas de sol ou nada de anormal, mas ainda resignadas ao espanto algo rarefeito das ondas curtas e ondas médias do Rádio CB, mais a competição a dois tempos do roncar do motor. Um animal selvagem. Largos, casas, portas, calçados, telhados, beirais, cornichos e antenas, e cabeças de pardais. Dão-lhe sucata, dão-lhe comida, dão-lhe água fresca.
Ele é ruivo.
Peças e transístores.
– Bom dia, você [nome?] tem por aí sucata?
– Bom dia. Tenho. Já falaste para Itália?
– Ainda não – ri-se, desconfiado – mas como é que sabe?
– É hoje?
– É. Como é que você sabe?
– Bom.
– Bom. É hoje. E meta a Itália no cu! [Ou a sucata… Sim, forte e feio!]
Mas o homem vai para dentro, buscar apenas plásticos e cartão dobrado e enfeixado.
– É o que tenho agora para ti, jovem.
O ruído do motor, as sucatas, os dedos no sintonizador do rádio CB, buscando as mais altas frequências, passando de posto em posto, de rua em rua, o esquilo, o som de lata espalhando-se no vazio, a motoreta. As pessoas dão-lhe fruta; é surpreendido a falar para o microfone: não tenta compreender, aceita.
– Bom dia. Tem sucata?

Sobe até casa, depois da longa jornada de trabalho. Aí prepara o magro jantar, abandonado ao crepúsculo. Sem pressas, mas sem pausas também, mastiga mecanicamente a comida, mais absorto ainda do que é normal entre os animais roedores. Deita-se na rede e dorme um pouco, suspenso das luzes da povoação lá em baixo. Consegue também ouvir algum algaraviar disperso que, entregue à quietude e à segurança da altitude, sempre lhe acalma os nervos e distende os músculos.
Respirando agora mais profundamente, vai-se sentar, como que reclinado, num monte de pneus e estofes de automóvel: deste lugar privilegiado pode contemplar a seu bel-prazer o topo da colina. Às horas que são, evidentemente, não é propriamente possível vê-lo lá em cima, pelo que agarra uma maçã, deslocando-a à sua frente ao comprimento do braço, até a fazer coincidir exactamente com o desenho do topo: conhece os seus contornos e localização perfeitamente, de cor. Sem que nada o fizesse prever, porém, resolve puxar de uma outra maçã, que delas não vinha desprovido, rolando a primeira para junto do pé esquerdo, no chão. Depois, acaba por prescindir também do segundo pomo, atitando-o desta vez para a direita. Felizmente trouxera um alguidar cheio. E sem mais esperas, logo esfrega e limpa à mão livre uma terceira maçã, a qual trinca duas ou três vezes com satisfação, mas sem contudo, e subitamente, deixar de a fazer rebolar para junto da que em primeiro escolhera. Ficou afastada desta cerca de um décimo da distância que a separava do, tão intacto como o primeiro, segundo fruto. Como se tratasse de pensamento ou mania por resolver, retira, de forma resoluta e assentada única, uma quarta e uma quinta maçãs, que displicentemente mordisca num ou outro ponto. Destas duas, a primeira acaba por ficar por volta dos quatro décimos, na já exposta razão de medição de distâncias entre maçãs, e a segunda a cerca de sete décimos.
Por fim levanta-se e, tendo o cuidado de não esquecer o alguidar, vai ao encontro da máquina. A primeira coisa a fazer é ainda descarregá-la da recolha do dia, procedendo também a uma primeira selecção: uma enxada partida, um assador enferrujado, um porta-cabides e várias panelas seguiriam para a secção dos metais; uma máquina de confeccionar pipocas avariada, para a oficina dos electrodomésticos; umas asas de fada de criança, para decoração do estaleiro; cinquenta e dois centímetros de tubo de cobre, para os metais preciosos; pequenas peças diversas, para o respectivo monte; e o mesmo para plásticos, papéis e cartão. Olhando uma última vez detidamente para o topo, resolve-se então a iniciar a subida.
De tão aguardada, esta, e apesar da luz dos faróis, acaba por sair meio às cegas dos amontoados de entulho que ensopam todo o arraial. Mas rapidamente, à medida que os adereços naturais da colina vão substituindo os artificiais da lixeira [ ,, escamas putrefactas da civilização humana!…], o trepador vai-se fazendo ao trilho serpenteado. Ao longe, o movimento oscilante daqueles focos, que iluminam extensões cada vez mais elevadas da colina, não passa despercebido.
Como seria de esperar, o expedicionário leva já o rádio ligado quando chega ao topo. E como sempre, as vozes surgem confusas e fugidias; mas tinha a esperança de que, com a ajuda dos ares favoráveis da noite, do benefício proporcionado pela altitude e uma combinação favorável de factores atmosféricos previstos para as horas que se seguiriam lhe permitiriam tirar o máximo partido do aparelho de rádio.
A belíssima língua italiana tinha normalmente posto certo em determinadas zonas do mostrador de sintonização. Assim que se assegurou de onde estacionar o carro, rodou com muita prudência o sintonizador, as estrelas por únicas testemunhas, para o ponto aproximado do primeiro décimo do espaço disponível de frequências radiofónicas. Os italianos apareciam sobrepostos por outros, mas ainda assim bateu muito pacientemente toda essa zona do mostrador, num sentido e depois no outro. Rãs coaxavam nas poças, parecendo querer dizer do seu solidário pesar, que, porém, algum tempo mais tarde, como que meia hora, se tornaria sinal espantoso mas evidente de não pequeno menosprezo.
Mas a resposta terá vindo com uma mudança estratégica de localização, a qual possibilitava até certo ponto corrigir as dificuldades de sintonização das ondas curtas. De novo a agulha passa pela mesma zona, por uma vez com algum sucesso. Ouviam-se conversas em bom italiano, só desfeitas ocasionalmente por sons agudos e prolongados [Estrelas!]. Restando ainda as zonas dos quatro e dos sete décimos, foi curiosamente a meio do espectro que ressaltou a mais bela das vozes transalpinas, mas de facto bellissima de ouvir, não fosse a presunção, ou a ideia, para sermos mais justos, de que para aquela frequência específica não era muito adequada a localização do veículo…
A chave roda, pois, na ignição, e os faróis rompem a penumbra. Com não pouca ansiedade, a motoreta vai ziguezagueando, quase em ralenti, em busca dos melhores pontos de escuta. Resolve-se então a estacionar numa parte algo inclinada, quando aquelas vozes, pois já outras se tinham juntado à primeira, se faziam sentir com uma nitidez quase assustadora, para quem as escutava de súbito tão próximas e reais.
Naturalmente entusiasmado com o sucesso, o sucateiro vai de imediato pelo microfone, arrancando-o com tal força que o atira ao volante, de encontrão precisamente à zona do botão talk – por certo o primeiro e o menos desejado som que haveria de emitir para Itália. As argolas preto vinil descritas pelo fio que une o microfone ao rádio continuavam a oscilar, suspensas. E cada vez com mais intensidade, na verdade, à medida que o nosso se preparava para de novo falar com os italianos, e a carripana, traseira apontada a uma esquecida cisterna, escorregava desesperadamente terreno abaixo. De facto, com o entusiasmo e a precipitação iniciais do condutor, ela não havia sido convenientemente travada!
Nisto tudo se prepara o referido atleta para nova tentativa [ – Ciiaaaaoooo….] de contacto. A espiral frustrada que dá forma ao fio fica totalmente suspensa no ar, todavia, como que assegurando-se da condensação das palavras e do tempo. Até ao exacto momento de se expandir em todas as direcções e com toda a violência, no estrondo do embate.
A mal-avisada cratera havia sido aberta em tempos idos, para exploração e posterior serventia de águas, por meio de um colector, a uma antiga pedreira que se localizava um pouco mais abaixo, na vertente oposta à que trouxera tão desafortunado radioamador.
Assim às primeiras, e bem a propósito, o aparelho de rádio apresentava os seguintes problemas técnicos: permitia receber sinal, mas não emitir; um dos altifalantes trabalhava normalmente, enquanto o outro fazia-o de forma intermitente. Perante isto, do seu lugar de comando, o pobre rapaz, revoltado, introduz a primeira velocidade na consola selectora de marchas e acelera a fundo, tal o desespero. Apesar de o motor corresponder à fúria do operador, o veículo não se convence a aproximar sequer da parede adjacente, pois na verdade o eixo traseiro estava completamente arruinado e a roda da frente tinha uma inclinação de cerca de quarenta e cinco graus em relação ao solo, deu-se ele conta ao abandonar a cabine.
A cratera era no fundo um poço quadrado, de quatro ou cinco metros de profundidade, a medida das paredes de cimento liso. Os sons difusos eram bonitos, as pequenas luzes nocturnas também, interrompidas, para mais, pelo aconchego do idioma itálico, pois d’eco se tornava mais belo gravado, em receptáculo a céu aberto e fechado.
Uma e outra maçã foram passando, e ouvia o coaxar das rãs ali nas poças, poderia viver de insectos e de rãs, ouviria rádio [pelas manhãs], responderia ciao (às coaxantes rãs). O velho, pobre ouriço. Diga-se porém que foi com o barulho de vozes a aproximarem-se que verdadeiramente se sobressaltou. Pensando à velocidade da vertigem, logo desfez à navalha os tapetes e carpetes em tiras. Amarrou-as e atou-lhes na ponta uma pedra, a fim de alcançar um velho guindaste.
Subiu ainda à borda do poço, sem no entanto conseguir esquivar-se aí à assistência. Resplandecente contra o sol, nos dias seguintes, quer em muitos mais que se lhes seguiriam, sorri de vergonha, e sem qualquer mostra de vontade, ou coragem, de claramente falar como para Itália falara.

Tuesday, November 13, 2012

Sunday, July 29, 2012

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais



O Automóvel e o Código da Estrada

Primeiros passeios de automóvel

Quando na criança despertam os sentidos e começa a aprender a fixar o nome das pessoas
e das coisas, o automóvel cedo lhe é familiar e conhecido.
E não é sem uma sensação de felicidade que recebe, por exemplo, a notícia de que vai dar
um passeio de automóvel, um "passeio no popó".
A esta fase segue-se a destrinça entre a camioneta e o autocarro, a furgoneta.
"Este é o carro do pai",  "Aquele é o carro do tio" e, a par das formas e das cores que distingue, bem cedo começa também a fixar as marcas.
Assim, passo a passo, vai completando e aperfeiçoando os seus conhecimentos sobre o automóvel.
Quer ir para o colo do condutor para ter a sensação de agarrar o volante e de conduzir, quer tocar a buzina para ouvir o som que ela própria obrigou a produzir, e segue-se todo aquele mundo de curiosidades e de perguntas como: “Que é isto?”, “Como se chama?”, “Para que serve?”

A paisagem e tudo quanto vê não lhe despertam tanta atenção, todo o interesse está concentrado
no “universo” do carro.
Nele se sente verdadeiramente confortável, tanto como se estivesse na sua própria casa, no berço
em que a embalam. E por se sentir embalada, a verdade é que facilmente acaba por adormecer, e profundamente.



(Do capítulo «O automóvel» da Enciclopédia Legal  - Selecções do Reader's Digest -, do ano de 1987, páginas 304 e 305)

Tuesday, April 17, 2012

Notícias do Vale Interior




Dia da Floresta


Integrado na comemoração do Dia da Floresta e na sequência do projeto Eco-Escolas, a EB1 de Meniouca realizou no passado dia 21 de Março, uma limpeza do pinhal.
Há semelhança do ano passado, a EB1 de Meniouca convidou os encarregados de educação para, em conjunto com as crianças, realizarem uma recolha de resíduos na zona de pinhal envolvente. Infelizmente, na área seleccionada para o efeito não foram encontradas garrafas, plásticos, latas de bebidas, cartões, ou outros detritos, ou só em muito pequenas quantidades, e como que por mão bem intencionada, o foram.



Couve ínfima

Desta vez, um casal de reformados de Parangonas Novas anunciou ter encontrado na sua horta uma couve minúscula. Mede de quatro dedos a um palmo, já adulta.





Novo presidente do GVAUF, de Fermimfundo, reclama mudança de estatutos polémicos

Os estatutos actuais prevêem que a sede da associação deverá situar-se em Fermimfundo, mas o presidente recém-eleito já anunciou constatar-se que os sócios e utentes não são maioritariamente daquela localidade. O que se impõe é mudar os estatutos, para mudar a sede, no sentido de encontrar uma localização adequada à erecção da estrutura, para cabal cobrimento de sócios e utentes, diz o presidente.
No entanto, a mudança da sede, das actuais instalações provisórias, em Fermimfundo, para a nova sede, fora de Fermimfundo, poderá ocorrer mesmo sem a mudança de estatutos, acrescenta. Isto porque «os estatutos se revelam completamente impotentes para responder a muitas das funções e novas solicitações com que os distintos órgãos se têm deparado: o mundo não parou em 1976, todos os aspectos da vida mudaram, entretanto só os estatutos se mantêm inertes. Não é bonito, mas às vezes não há outra solução que um bom pontapé nos estatutos», conclui.

(Notícia recolhida no Jornal de Fermimfundo)

Wednesday, March 7, 2012

Fosso de orquestra



A trompe de chasse. O António José Seguro.
Este não aparece nas imagens (de preocupado que está em fugir); a velha trompe de chasse não mudou de nome; trata-se de uma alusão isso sim a um político português pouco conhecido.




Thursday, January 26, 2012

Carta a mim


Venho por este meio protestar junto de minha excelência por ser tão vaidoso na minha modéstia. Lamento o tempo que passei olhando as flores crescer. As flores que são também as obras dos homens, em especial as que tive a vaidade de ajudar a cultivar no nosso quintal, na nossa Eiras de Sabaio. Sou vaidoso.
Protesto junto de minha excelência, por não dar tanta importância à remuneração financeira como alguns dos melhores de entre nós, políticos e classe dirigente em geral. Esses sim, são humildes. Não têm a vaidade ou a ambição pessoal de trabalhar para ver realizados os sonhos dos seus concidadãos. Eles, ou alguém por eles, parece querer fazer crer que só o dinheiro interessa, ou por ser muito, ou por ser pouco. Não terão maiores ambições.
Protesto junto de minha excelência por ser tão vaidoso, e inclino-me perante a sua modéstia. Eu tenho a vaidade enorme de esperar realização pessoal para mim e para os meus concidadãos. Se falasse em remunerações em vez de sonhos realizados, se tivesse cara solene em vez de mostrar a melhor face às dificuldades e responsabilidades, seria humilde. Mas não, ainda tenho a vaidade de sorrir, na cara e por dentro, no coração. Protesto por não aprender com os melhores a ser humilde.
Protesto junto de minha excelência por as minhas ambições serem muito diferentes de ou ter muito dinheiro, ou de querer parecer que não tenho muito dinheiro, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, que parece ser possível na cabeça de alguns. As minhas ambições não têm é nada a ver com dinheiro, e essa modéstia é hoje em dia é um luxo e uma vaidade. Eu deveria portanto ser mais humilde.
Protesto por tudo isto junto de minha excelência, o vaidoso.

Humildemente,
Francisco Aires Marchante (Presidente da Junta)

Friday, January 6, 2012

O trabalho numa quinta nunca acaba, entre rotinas entediantes e incidentes sem significado, agora no tempo gasto com reparação da cancela, de onde, ao longe, vejo um grupo de americanos aproximar-se. Acabei depois por não perceber bem se eram uma espécie de arqueólogos, se geólogos,, ou algo ligado ao turismo ou à agricultura ou a que «projectos»,  porque o vereador também la vinha, e ele vem sempre mais do que disposto a apostar em «projetos», a mostrar «projectos» ou a falar de «projectos», de maneira que de vez em quando aprece para aí todo o feitio de tropa. Mas americanos deviam ser. Gostei especialmente duma, bonitinha, olhou para mim também, foi bom. Se tivessem vindo de manhã, talvez ela me tivesse visto partir a cancela com o tractor. Que vergonha, meu Deus, que vergonha passei, quando afinal estávamos sozinhos, o tractor e eu. Mas não, para grande sorte minha, ela aparecia agora. Ferramentas. Lidando com alicates, com estacas a sério. Pois é, amiga! Sou homem ou não sou?
Tão-pouco os outros, alguns deles gente experimentada na vida, pareciam perceber que eu não saberia usar bem a chave de fendas, quanto mais conduzir o trator, que ali continuava meio desorientado. Mas talvez estivessem apenas a ser simpáticos, no fundo os americanos são pessoas quase iguais às outras. E eu, meio envergonhado, lá lhes perguntei o que é que achavam de Portugal, o que é que estavam a sentir. Algum tempo depois, evidentemente, já tinha confiança para os abordar de outra maneira:  o que é que é vocês acham de Portugal? O que é que estão a sentir?
Claro que sim. Mas mais e mais:  O que é que é o nosso interior para vocês? E o que é que é uma quinta biológica como a nossa? O que é que é? E, claro, cá o Portugal propriamente, de que maneira é que é que Portugal é visto na América, e tal?, Já provaram leitão?, Não vos faz impressão? Sabem que somos um país independente da Espanha? Ou pensam que somos uma província da Espanha, hã, Portugal, o que é que acham lá na América, o que é que é?
Bom, J., ainda não conhecemos muito, gostamos de Neizauréh, vamos para Vaizu, e Lissboah é simplesmente adorável.
Que resposta tão inteligente, para aquelas circunstâncias. O truque está aí. Percebi então como funciona a mente americana, que era o que eu mais queria na porra da vida. Ah, pois, Vaizu, Vaizu.
E que americana tão bonita vinha na comitiva, realmente, morena. Acho eu. Pareceu-me bonita. É um cabelo castanho escuro, mas luminoso, como que translúcido. Já tinha olhado para mim segunda vez, entretanto, mãe do Céu, novamente bom. Há aquele canela acobreado, que para mim é rei! Mas isso são casos raros. Não me parece que na América haja muito.
Na América há muito nas senhoras a cor de cabelo canela acobreado, ou não?, perguntei-lhe finalmente, desesperado. Não percebeu. Silêncio, silêncio. O que é que achas de Portugal? Pelezinha clara, modos suaves. Ah, adorável, estou a ver. Silêncio, pardais. Os americanos às vezes invadem países e depois fazem filmes sobre isso, acrescentei, é muito curioso.
Ela pareceu não gostar muito de mim e foi-se embora.
De um ramo, ao longe, alguma ave iniciava calma e tranquilamente o seu voo. Amor da minha vida! Não, não faças isso! E se viesses passear comigo no tractor? Os outros américas (que afinal estavam apenas de férias) que regressem à Vila com o vereador. Ou então eu depois ligo-te, vens cá e conduzes tu sozinha e eu fico só a olhar para ti.
Não deu.
Mas no dia seguinte reencontrámo-nos e deu (tratava-se também de prospecção de minério a comitiva queria aproveitar. Eu fiquei com a mais bonita. E à tarde pude explicar-lhe, na pastelaria, que até tinha concordado com a guerra no Afeganistão.
Que ideia, perguntava-me ela então, têm vocês da América? Há pessoas aqui que não suportam a América, certo? Mas gostam dos nossos filmes, não gostam? Etc.).

Thursday, December 8, 2011

Friday, November 4, 2011

Algumas notas sobre o reencontro com «o Galo»


O sr. Abílio de Sousa, pessoa conhecidíssima em Romaride inteiro por «o Galo», sempre foi muito atento às novidades da terra, naquele seu jeito de mostrar interesse, com um sorriso diria ora mais airoso ora matreiro. «O Galo» debicava sem que se desse por isso. Não que fosse de descaramentos como alguns e algumas. Ou de grandes intrigas, que essas vêm muitas vezes de onde menos se espera. Não, aquilo era alma de repórter. De grande repórter, isso sim.
Na verdade, eu próprio fiz ontem todo o gosto em divagar novamente com ele, aqui por estas nossas velhas ruas. Foi um puxar da memória, pois como em termos, modos e tempos já dei a entender – a quem o não soubesse ainda – , do «Galo», a memória é tudo o que resta.
Comecei por me dirigir à Praça, desde sempre o seu lugar de eleição. Aproveitando para ilustrar um pouco alguns aspectos da vida de então, havia os homens da praça, que às vezes iam à taberna, e os da taberna, que às vezes vinham até à praça, sobretudo ao domingo. Não se pense que os homens da taberna, apesar de em geral de manifestarem extrema devoção ao vinho da casa, fossem gente pouco trabalhadora. Pelo contrário, os da Praça bebiam menos mas também trabalhavam menos, velhos e novos. Certamente que alguns outros frequentavam a taberna quando tinham dinheiro, e a praça quando não tinham, mas esses eram de longe os que menos vida orientavam. Daí concluindo eu desde esses tempos que mesmo entre a praça e a taberna um homem tem de saber escolher a sua vocação.
Na Praça reinava «o Galo». Permanece de certo modo a sua Praça. Não me estranharia quando ali cheguei topar de repente com ele, descontando um ou outro pormenor que nos recorda que os tempos são outros. Para dar um exemplo, julgo que concordarão comigo quando digo que uma das principais novidades, por estranho que possa parecer, é que antigamente era mais movimentada de trânsito automóvel. Aquele era o centro vital da povoação, e local de passagem obrigatório. O trânsito não seria na verdade muito, mas à época impressionava: quase só camiões de mercadorias e autocarros, talvez um ou dois por semana, para regalo dos rapazes. Hoje não é assim, obviamente, devido às proibições de circulação.
Algumas das casas mais bonitas estendem-se, como antes, pelo perímetro da Praça e ruas adjacentes, felizmente. Íamos discutindo isso, quando nos detivemos à porta de Mestre Candeias, grande figura da música romaridense. Que saudades das sessões da Ligeirinha (quem se lembra?), uma formação composta por alguns dos melhores músicos da Banda Filarmónica, sob a batuta do saudoso Mestre Candeias. O sucesso era tanto em dois ou três salões de baile que logo se improvisaram que as mães de família chegaram ao ponto de alegar questões de moralidade junto da esposa, tentando pôr fim aos bailaricos. Algum fundo de verdade haverá nisso, pois Mestre Candeias era bem conhecido por suas tiradas. Entretanto, aproveitei para dar conta ao «Galo» das grandes melhorias que se vêm verificando na nossa Filarmónica, a todos os níveis. Mas é preciso dizer que não será fácil fazer nos nossos dias algo que supere a verdadeira sensação que constituiu à época a brilhantíssima Ligeirinha, irrelevando um ou outro excesso.
Estas e outras diversões eram relativamente esporádicas, e sobretudo bastante modestas em termos de gastos. Essa modéstia também se expressava em acessibilidade a todos quantos quisessem participar. Algumas pessoas mais humildes talvez se sentissem um pouco duvidosas em aderir a determinadas festividades, mas não havia um espírito elitista ou de segregação por questões da conta bancária, como há hoje. Relembrámos a propósito os casos do Mário Tropa, e de toda a sua família, ou os Bairradas, como exemplo, pessoas que notoriamente tinham uma vida de dificuldades, e que no entanto faziam um especial gosto em assistir aos espectáculos musicais e teatrais, ou outros, que se produzissem na terra. Falo destes casos em especial porque o meu pai fazia questão de juntar à sua mesa estas famílias no dia do Peditório dos Martírios. É uma relação já muito antiga, embora fosse confessando ao «Galo» que quando era bem jovem cheguei a ser obrigado a sentar-me à mesa num que noutro desses jantares, porque eu apreciava a máxima «os Homens são todos irmãos», mas não a compreendia completamente. Foi uma lição que me ficou para a vida.
Alguns dos filhos dessas famílias são actualmente donos de algumas das melhores moradias que tivemos oportunidade de apreciar, algumas até «históricas», que as há bem bonitas em Romaride.

Tuesday, October 4, 2011

Info-exclusão para sempre


Às vezes pergunto-me que espécie de vida podemos nós ter, nós info-excluídos, à medida que a realidade se vai tornando cada vez mais virtual. Antes de mais, será que para além das alfaias electrónicas há ainda vida? Empregos, casas, bolsos, mentalidades, está tudo a ser invadido.
A EXCLUSÃO. É esse o nosso destino, aparentemente. A palavra diz tudo. O que é que uma pessoa há-de fazer? Gostaria de saber realmente se estamos tramados. Na minha vida (bastante pura e analógica!), respondo ao ataque com militância e luta, camarada. Mesmo que eu não saiba muito bem em que é que isso se traduz. Encontro no entanto muita gente bem pior, digo eu, gente que se queixa dos abusos de poder das máquinas mas que já nem reage. E isso faz falta. Podemos começar por brincar um pouco mais a sério, digamos assim, com o assunto: um passeio sem GPS, uma carta escrita à mão, dar de caras com um amigo e recomendar-lhe um livro, fundar uma associação (porque não? nós fizemos um blogue!).
O problema, como se vê, não é fácil de resolver, mas não me digam que não há nada que se possa fazer. Não é verdade. À medida que escrevo esta belo texto, por exemplo, sei bem que é como se a info-exclusão, o pior que há nela, já tivesse ganho! Porque tudo quanto se possa dizer sobre a questão (sobretudo num blogue, eu sei), como os exemplos de respostas a dar-lhe, parecem coisas ridículas e inúteis, num mundo infectado, e satisfeito, com a bendita tecnologia. Só que o problema é real, e ter vergonha de admiti-lo não resolve nada. Info-excluídos, por favor não vão por aí.
Para deixar claro, não é necessariamente a tecnologia que está em causa, mas a excessiva dependência e alienação que provoca na vida da maior parte das pessoas, além da discriminação sobre quem escapa aos dois primeiros males, que é ainda pior. Eis como se resume o «problema», da nossa perspectiva: a info-exclusão seria uma bênção, como poder comer de simples faca e simples garfo num jantar de gala. Mas acontece que os engalanados preocupam-se mais com os próprios talheres do que com a refeição.
E àqueles que dizem que não saber à partida usar os talheres é a raiz do problema, convém talvez lembrar que pode não ser fácil perceber quanto disso se deve à aversão e quanto se deve realmente a incapacidade. Há gente que teria capacidade, simplesmente é alérgica. Já todos lhe ouvimos chamar muita coisa, não é verdade? Mas pense lá bem se tem mesmo paciência para talheres. E depois há isto: ninguém se chateia, nem é muito chateado, se não souber construir um palheiro, ou gravar uma canção num estúdio profissional, por exemplo. São meras tecnologias também. Que ou bem que se domina, ou que não se domina. E pronto. Mas uma tecnologia que chega e quase ocupa toda a paisagem, adquirindo enorme relevância social, como é o caso não de uma mas de várias, tão «importantes» que já nos referimos a elas genérica e simplesmente como «a tecnologia», como se fosse a única, ou então dizemos «as novas tecnologias», como se não houvesse outras igualmente novas; enfim pois, com essa, ou com essas, é completamente diferente. É outro filme.
Por isso é que não podemos deixar de ser nós, info-excluídos, a dar os primeiros passos no sentido da desmistificação da importância das alfaias nas nossas vidas. Porque um meio é apenas um meio, não pode (obviamente) ser um fim em si mesmo. Isto nas nossas vidas info-excluídas, mas diga-se, é assim na de todos. Devemos ter a essa pretensão de sabermos melhor do que os outros, e de os querermos ajudar (por mim não peço outra vingança!).
Mais uma vez, já que houve ali uma frase que, vá-se lá saber como, me parece ter saído bem: um meio é apenas um meio, não é um fim em si mesmo. Certo?

Saturday, August 27, 2011

Lanterna mágica


                                                        


Thursday, July 14, 2011

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais


VÃO ACABAR OS POLÍCIAS?


Com as alterações feitas na admissão ao serviço policial as mulheres estão equiparadas aos homens.

É um princípio de igualdade de direitos concedida aos dois sexos.
Mas, na prática, as coisas podem trazer novidades inesperadas.
Se as mulheres aparecerem a concorrer com maior preparação intelectual, com mais estudos, elas estão em termos de obter maiores classificações e isto fará aumentar o seu número nos quadros policiais.
Mesmo fisicamente, as mulheres são capazes de saltar mais do que os homens e até de correr velozmente. Não esquecer o singular caso de Rosa Mota...
Ora, nesta ordem de ideias, nada nos admiramos se os quadros de tais serviços, dentro de poucos anos, estiverem cheios de mulheres e vazios de homens.
Por isso nos atrevemos a considerar possível ver reduzir o número dos polícias e aumentar o das polícias, acabando, provavelmente, por termos só as polícias e acabarem os polícias...
O raciocínio parece ter lógica, mantendo-se as condições de admissão e de acesso agora existentes na Polícia de Segurança Pública. Ou estaremos enganados?

(Retirado de um jornal regional de Maio de 92)

Sunday, June 12, 2011

Entrevistas a pessoas da nossa terra


Filipa – Sr. Mário Murtosa…
Sr. Mário
– Mário da Murtosa.

Filipa – … diga-nos quando começou a aprender a ler.
Sr. Mário
– Ler é coisa que não sabia, assim foi o meu estado, mas faz dez anos e um bocado a minha maior alegria.

Filipa – Dez anos, portanto, é isso?
Sr. Mário – Dez anos e um bocado. Sim, é isso.

Filipa – Qual foi a primeira coisa que leu?
Sr. Mário – Camões. Não, mas já li qualquer coisa. Mas a primeira coisa foi, depois das coisas da escola, um livro sobre a guerra de África.

Filipa – Eu tenho informações de que agora está viciado na internet!
Sr. Mário – Sim, essa história é engraçada porque eu não sabia ligar um computador.

Filipa – Olhando para trás, acha que lhe fez falta?
Sr. Mário – Claro que fez.

Filipa – Mas no entanto foi tanta coisa, esteve envolvido em tantos cargos…
Sr. Mário – Não há no mundo melhores letras, do que as da necessidade, não são precisas canetas, basta a boa vontade.

Filipa – Quer falar um pouco disso?
Sr. Mário – Eu decorei sermões inteiros de missa, pagavam-mos em pão, os avisos, as novidades todas. Eu conhecia toda a gente e toda a gente me conhecia a mim. Conhecia vivos e mortos de há cem anos.

Filipa – Quem é que pagava?
Sr. Mário
– Pessoas doentes. E outras pessoas, que gostavam de mim. Nós éramos muito pobres.

Filipa – Entretanto, mais tarde começou a trabalhar na marinha mercante.
Sr. Mário – Sim, foi a minha grande escola. Mas isso foi depois da tropa. Passados sete ou oito anos já tinha dezenas de homens à minha responsabilidade, sem saber ler nem escrever.

Filipa – Como é que alguém vai daqui para trabalhar no mar? Não achou estranho?
Sr. Mário – O estranho… não. Muitos iam para mais longe. Eu não. O meu serviço foi sempre em terra. Nunca pus os pés num barco, até ao dia de hoje.

Filipa – Considera-se feliz?
Sr. Mário
– Tive muita sorte. E vontade de aprender.

Filipa – Qual é que é a mensagem que quer deixar em especial para os escuteiros, agora que se diz que poderá voltar a ser chefe?
Sr. Mário
– A mensagem de que eles são também são a menina dos meus olhos. O que é que eu hei-de dizer?

Filipa – O que responde então à polémica de que sempre a dada altura deixou os escuteiros para segundo plano, e que numa fase inicial teria chegado a «torcer o nariz» à sua implantação?
Sr. Mário
– Que é esquisito, mas para mim já nada o é. Isto são coisas que passaram à vista de toda a gente, são águas passadas que ao fim de muitos anos voltam outra vez à superfície. Mas a água nunca corre duas vezes debaixo da ponte. E se corre já não traz trutas. E eu aprendi há muito tempo esta lição: quem não quer ser criticado nunca, tem bom remédio: não faz nada de nada.

Filipa – Quer dizer que pensa mesmo dizer que os escuteiros podem contar consigo?
Sr. Mário – Ah, isso sempre.

Monday, May 9, 2011

Sunday, March 20, 2011

Primavera

Depois de ter sido picado por uma vespa hoje às 10 horas e vinte, pensei: espero que a minha pele macia te tenha dado cabo da vida tanto como tu deste da minha. Cabrona. Depois pensei outras coisas: a)não é nada, sempre tenho outro braço de pele tenra e à mão dedos disponíveis para afagar o lóbulo das orelhas; b) mesmo com um braço inutilizado ainda posso ser alguém na vida; c) é mesmo estúpido pensar que compreenderias os meus pensamentos (mas já agora, vocês vivem de quê, também fazem mel? ou vivem de chouriço, tal como as melgas, essas vacas sanguinárias que o fazem com o NOSSO SANGUE!?)
Uma picada de vespa é como ser espetado na carne por um aguilhão capaz de bombear durante horas a fio um veneno tão poderoso que provoca lancinantes dores. É exactamente como isto. A dor moral poderá ser maior para quem seja muito meigo de pele e coração e se sinta de repente intoxicado por uma até então nunca pressentida essência maléfica, poderá, mas isto sou só eu a dizer. Se for assim, não obstante, apraz-me pensar que reciprocamente alguma da particular doçura do meu ser tenha contaminado o corpo da gaja (ou pensas que é chegar aqui assim mordes e vais-te embora?) e que agora essa porca chauvinista esteja meio afectada dos cornos.
Fui até ao vespeiro, lá atrás, sem ligar a pormenores: mandei um chutão de pé direito numa vara de ferro que está a apoiar a estrutura metálica, na qual fizeram o ninho, não interessa, ficou tudo a estremecer, e elas que nem doidas. Foi giro. Depois fui buscar uma bola e lá estive a rematar contra aquilo, um bocado de longe. Muito giro também, quando acertava.

Sunday, January 23, 2011

Os yuppies também sofrem


Li algures que o nosso país é uma bela mas decadente ruína na qual, em todo o caso, se perecebe um enorme potencial. Bom, suspiremos profundamente a isso, que bem merecemos. Quem o escreveu foi uma pessoa de outro país que vive cá. Talvez por isso tenha prestado mais atenção, passe o provincianismo de atribuir relevância acrescida ao que os de fora dizem. E a verdade é que suspirei mesmo, de testa na mão e tudo.
Pensava estar mais ou menos entendida comigo mesma quanto a ideias e a emoções mais intensas sobre o país, mais as suas belezas e potencialidades. Os sonhos e as ansiedades que me assaltavam com toda a vivacidade em idades mais jovens, ou mais juvenis, foram-se tornando naturalmente mais esbatidos com o passar do tempo e das suas circunstâncias (que é como quem diz emergências), que os iam espalmando e moldando sempre (que é como quem diz impedindo que se rompessem definitivamente). E assim foram ficando as coisas, em suspense, justamente esperando pelas perturbações que viessem.
Há anos que faço parte de uma associação de defesa do patriónio e do pequeno comércio de uma zona históricas do Porto, pois tive a sorte de descobrir cedo que muitas coisas podem ser feitas enquanto se espera – na verdade, a participação em associações e projectos de pequena escala é uma das melhores formas de preservar vivos todos os patrimónios, incluindo o da esperança. (Ou será todas as ruínas?)
O sr. Parente, sócio fundador da associação, luta por um património bem concreto: a sua Sapataria Moderna – nome justíssimo à data da abertura, explica-nos, no longínquo ano de 1963. Quando lá entrei com Sérgio antes do Natal, por causa de assuntos da associação (mas também para espreitar a Colecção de Inverno) dei-me conta, por mero acaso, de que aquela declaração confiante de modernidade no letreiro, por cima da porta, era precisamente o que em toda a loja mais nos sugeria outra época. Mas se hoje não se proclama a modernidade assim, às vezes pouco menos, e eu, sem o saber ainda, estava prestes a ver a minha concepção de modernidade confrontada com outra bem diferente.
É que para mim, chamem-me romântica, a modernidade é tambem a consciência daquilo que se deve salvaguardar (e que acabará depois por se tornar clássico); enquanto que o jovem contabilista do sr. Parente, que estava de passagem pela sapataria, tem uma visão mais de mercado: há que adapatar, remodelar, reconstruir – enfim, modernizar; ou então sucumbir, abrir espaço para os novos projectos. Acabei por simpatizar com a maneira interessada e honesta como defendia o seu ponto de vista e com a preocupação genuína que manifestava em relação ao futuro da sapataria. Que não se afasta muito da visão que tem daquele bairro histórico e mesmo, é claro, do país. De alguma maneira, toda a gente se aflige com o que vê. A grande questão, digo eu, é saber o que fazer com as diferentes espécies de «ruínas».

Monday, December 13, 2010

Monday, November 29, 2010

O

O   do meu teclado não  unciona. O ' '.  Quero eu dizer que não tenho o e e, é isso que estou a tentar explicar. De  aca! De  oca! Sim. O que é que os esquimós comem, por exemplo?  Todos os dias, almoço, lanche  e jantar.  oca-se, pá! Ó pá, o oitavo rei de Portugal, que cognome tinha? Pai de D. Fernando I... Mas  ilho da  puta! Mas que grande  ilho da puta! O  ! É que às vezes dá, o raio da tecla! Mas não, não é isso!  Vamos ver, calma. Haverá necessidade de explicar ? Não era mesmo o  ilho da puta, não é? Tipo o  ilho da puta! Havia de ser bonito, por exemplo,  D. Pedro I, sei lá, o  ilho da puta! Não,  rancamente , nada disso.  Bom, e então o que era?  ácil,  in orma-nos a ortunadamente ernão Lopes, era o  ormoso. O  ormoso. Crónica não sei das quantas, página não sei quê, é o que lá está. A sua santa mãe, já agora, só por segurança, era Beatriz de Castela.
Esta situação é parecida com a daquelas pessoas que têm um problema na  ala e não conseguem dizer o ‘c’ ou o 'l', com a diferença de que isso até tem graça. E isto chateia. A tecla até  unciona, só que tenho que insistir e  azer um jeito, assim: ffffff. Fffff. Fffff. Quando me esqueço, ou não estou para me ralar, envio como estiver (um  ormulário para o ministério da agricultura, por exemplo, também ninguém lê, é na boa), só que depois, se  or alguma coisa importante, é mau, aquilo às tantas é tudo lido. Já falei com o técnico, que me disse para retirar a tecla, que elas são de encaixar, e limpar o pó. Mas eu tenho medo de que alguma coisa possa acontecer, desde partir o disco às tantas até provocar um enorme incêndio, e gostava que  osse ele a  azê-lo, o problema é que tenho vergonha de lhe dizer. F! São sobretudo estas as minhas aventuras de in o-excluído (ó pá, mas tantas outras!), nada de mais. Sinto-me, quando  aço um es orço, relativamente con ortável, com a situação, excepto neste pequeno detalhe de  icar às vezes diminuído e desesperado e fodido com isto. Não é propriamente um estigma social, é antes como se tivesse pulgas e piolhos, assim é no  undo a in o-exclusão, mas não não ligo muito a isso, está tudo bem, até é divertido (e não parece...).

Wednesday, November 10, 2010

Isto não vai passar


O Mário não pagou o gás e por isso a Júlia toma um duche frio, numa das versões da história. Júlia resolve ligar a Susana.
Sim, logo vou ficar a tua casa.
Só por causa do gás?
Como é que soubeste?
Foi ele.
Como é que ele soube?
Disseste tu.
Disse?
Gritaste, no banho, ou ameaçaste, qualquer coisa assim.
Não, não é só por causa do gás.
Pois, mas ele pediu-me para eu dizer que não.
E tu?
Disse que... ia dizer que não.
Porquê? Não sei, para vosso bem, acho eu.
O nosso bem, essa é boa!
Estou a ver.
E então, posso ir?
Bom, se tens a certeza que é o melhor, acho que sim, mas vou ter que lhe dizer que não estás cá.
Claro, é isso.
Ele de certeza que vai rondar a casa de vez em quando, e também vai telefonar para cá, mas tu nunca podes atender!
Sim, sim, é isso.
E depois, quando tudo passar, também não lhe vais poder dizer nada, inventas uma história qualquer.
Claro que não digo nada.
Prometes?
Prometo, mas ouve, ISTO NÃO VAI PASSAR.
Pois, é que se disseres fico eu com um grande problema!
Eu compreendo, mas ouve-me, isto NÃO VAI passar!
Eu já lhe prometi que não te recebia, se depois ele souber…
Não vai sab…
… é capaz de me fazer alguma.
Não, que exagero, ele nunca te vai fazer nada.
Exagero? Bom, o Mário não é propriamente uma pessoa…
Quê?
Fácil, sabes que...
Não, não é.
Ah, continuas a não gostar que se fale…
De quê?
Esquece, eu...
Olha, o Mário pode ter o feitio dele, mas acho que não te faz nada, é só isso.
Não digo bater-me, mas sabes bem como ele gosta de inventar coisas... meio estranhas.
Sim. Às vezes.
Não são assim tão poucas, e sem necessidade nenhuma. Parece que tem gosto.
Sabes como ele é...
E tu também sabes, e mesmo assim... sinceramente não sei como aguentas. Aquelas piadas à frente de toda a gente, o que ele diz de ti...
Sim, eu sei.
Olha, a mim já me apareceu na loja num dia de movimento...
Só para se fazer de desconhecido.
Sim, eu a falar para ele naturalmente...
E ele a olhar para ti, espantado.
Sim, e só...
Porque há não sei quanto tempo não o reconheceste não sei onde.
Sim. Eu digo que foi por isso, não sei. É coisa que se admita? Não o venhas agora defender, já que me quiseste envolver!
Não, não é isso. Escuta, isto não é fácil para mim... mas tu...
O quê?
Também te ris às vezes do que ele faz! Ou não?
De algumas coisas, sim. Mas cada vez menos.
Para ele é tudo... um jogo, compreendes?
Escuta, agora já não importa.
Ele é assim, e eu... eu não queria que tu ficasses a pensar que ele é uma espécie de monstro. Compreendes?
Compreendo.
Nem que eu sou. Compreendes?
Tu?
Eu depois ligo-te. Por favor, tenta compreender.

Saturday, October 23, 2010

Lanterna mágica



                                                                                                    

Thursday, October 14, 2010

'Um clique, uma eternidade', em Eiras


Ao ver noticiados casos polémicos do famoso «Google Street View» um pouco por todo o mundo, lembrámo-nos, a nível da Junta de Eiras, de enriquecer o nosso sítio digital da Junta com fotografias das ruas principais e dos locais mais marcantes da freguesia, através de um concurso de fotografia. Estradas com buracos, ou problemas nas infra-estruturas da responsabilidade da Junta, não vão obviamente ser aceites.
Espero ter levado à certa alguns com esta partida, mas ela tem o seu propósito: pelo contrário, haverá espaço próprio para os cidadãos comunicarem alguma anomalia que encontrem no seu dia-a-dia. Eu não gosto daqueles órgãos de informação autárquicos que dão a notícia da inauguração da estrada nova, ou das obras na estrada, mas que não dão a conhecer a realidade antes: «Estrada precisa de obras urgentes», que também devia ser notícia. Claro que tanto o nosso jornal como o nosso sítio na internet são veículos principais para pôr os eirenses do trabalho desenvolvido pela junta, que é uma missão que classifico de informativa, para a avaliação do que tantas vezes escapa a quem cá vive e anda na sua lida diária, mas não estamos indiferentes aos problemas. Mas o nosso novo projecto relativo às fotografias vai ter um cantinho especialmente para as sugestões e alertas ou reclamações.
Concretamente, na parte do concurso há atribuição de prémios de acordo com regras e prémios que podem consultar-se no nosso site ou directamente na Junta. Estamos certos que o empenho dos eirenses vai ser grande, como é o amor que lhe temos. E a beleza da nosssa terra, nunca é demais lembra-la, é suficiente atracção para os seus filhos, para além claro forasteiros. «Um clique, uma eternidade» foi o lema escolhido, votando eu vencido «Fotografar o sentimento», já agora.
Vamos mostrar que quando queremos somos dignos do nosso melhor. Mesmo nestes tempos difíceis é também nos pequenos gestos, que são por vezes os maiores, e é na atitude, quanto a iniciativas como esta e em tudo. Uma frase célebre de Aristóteles, de que sempre gostei, diz: «a felicidade é ter algo que fazer, algo que amar e algo que esperar». Nela está tudo o que quero sempre e o que procuro sempre de incentivo para nós, enquanto comunidade, pois é nisso que me esforço, quer na actividade que me coube quer aqui, ao partilhar convosco neste simples texto. Oxalá assim seja, e se há que esperar, como diz o filósofo, então além de esperar que seja um êxito, podeis esperar também por novas iniciativas da nossa parte, que vamos preparando, assim haja possibilidade. A mais séria candidata, posso revelar, será a iniciativa de arborização das localidades da freguesia. Se houver vontade, com a ajuda da população, vamos de futuro tentar envolver todos neste projecto que sem dúvida de embelezamento, mas de civismo, de reforço dos laços afectivos à terra e à comunidade.

Monday, September 20, 2010

Mercearias mortas


O homem do mimimercado vendia peças de fruta morta, cortado já o fiambre morto, antes de hesitar novamente nas mesmas contas certas, como pesos mortos, para este senhor é uma embalagem de vinho morto, pão morto já não há minha senhora, ainda vai agora buscar troco escorrido, algures por uma porta para as traseiras que ligam ao pátio ajardinado, enquanto as conversas mortas com os clientes ficam mais sós ainda.
Depois de eternos minutos mortos regressa com passos de grão-de-bico entornado, nos olhos aguados de vitrina uns óculos fundo de garrafa de bagaço e gestos de biscoito seco numa magreza de papel vegetal.
Repassam moedas, ora aqui tem, a filha despachada, e se é uma fortuna, os sacos, já de lá vem assim, manuais gastos, os olhos da cara é que é, olá, para mim não me fica nada, uma boa tarde. Da rua cantam pássaros, e abaixo os últimos passos surdos e carregados. O homem do minimercado camisa de toldo sujo e engelhado passa ao pátio ajardinado nas traseiras, vazio, até cansado recolher os grãos para ouvir os pássaros que cantam na rua.
Chegam as entregas nas carrinhas, em pacotes familiares para arrumar. Os sacos de batata amarela são a mulher, as margarinas e os azeites nacionais são os sogros, as bebidas são o cunhado, o que não havia esta semana é a filha, ele é o queijo amanteigado.
Fechada a porta da rua, tudo está arrumado, sai pelo pátio ajardinado e sobe ao primeiro andar. Meio morto no noticiário das oito, enchouriçado de má-vinho, o cunhado, enquanto a mulher coze as batatas, para os sogros, tens mais do mesmo ou vai-se lá a baixo, já não me levanto do sofá, e as minhas batatas, precisam de azeite, a miúda, janta fora, pois para mim pão com queijo.
E logo depois mais pássaros e mercearias mortas, amanhã.

Friday, September 3, 2010

Fosso de orquestra


(caricaruras sonoras)


Passos Coelho - cravo



                                                        

Thursday, August 12, 2010

União Europeia, alegações à roda


A ideia de que se há-de construir a Europa, mesmo no que tenha de mito forçado, serve para divertir os desejos de poder por via imperial, alegadamente substituídos pelos encantos de um amor fraternal idealizado. Se esta ideia, usada assim para descrever uma impressão, fizer algum sentido e se for isto verdade, não há aqui nada de extraordinário nem de original, enquanto ideia geral para tudo. Logo, à natureza: depois de sempre, busca-se outra vez e outra vez a ilusão da inocência primitiva da criação, alheia à dor e luta entre as bestas bravas e as mansas. A fraternidade entre as nações também está sempre prevista nesse plano elevado, que um pedestre como eu também sonhava e sonho vagamente. Talvez a Europa seja a mais ousada, ou a mais ingénua, na sua construção de legos.
Mas é aborrecido construir sonhos, é melhor sonhá-los. As pessoas, dando-lhes bem a volta, entregar-se-ão com mais entusiasmo à guerra, outra vez: está sempre tão perto a tentação e o impulso para a destruição - dos sonhos dos outros – como em nós a tentação para a dissolução nos nossos. Por receio daquela tentação destrutiva mas nos ditos outros, e por pudor de cada não-outro em admitir a sua, os mesmos e os outros, em conjunto, que são todos, podem ver mais benefício a dado momento histórico em substituí-la por uma trégua ritualista (ritualizada). Daí a União Europeia, e daí ela ser assim, uma obrigação aborrecida.
Uma chatice. Claro que os dirigentes políticos europeus têm a missão concreta de tentar construir a grande ilusão e nisso se sentem autores do real: é a autoridade da realidade europeia o seu poder, mesmo que ela seja uma ilusão; e de resto, se tem de haver alguma, sempre há outras bem piores. Em todo o caso, quem tem poder não se aborrece tanto. Mas os liderados são outra história, porque não têm poder nem amor, que também serve para desaborrecer (amor pela realidade europeia constantemente em construção).
Ou, se têm amor, é um amor aborrecido, que nunca é amor.

Thursday, July 8, 2010

Info-excluído


Info-excluído não é apenas expressão de capricho insensato na escolha de nome para dar à expressão desta gente - nem a condição em que a gente tranquilamente se reconhece. É também o nome de um dos autores do blog. Que nunca chegou a escrever nele nada. E que mesmo assim se atreve a vir agora com o seu próprio e exclusivo sítio. Até daqui se exclui.
Sempre o mesmo.

Tuesday, June 22, 2010

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais



Hoje creio que dá. Esteve aquela mulher a falar até esta hora, huumm, quando é isso parece que costuma a dar. Deve estar pra começar breve. Eu só gosto de ver por causa das pessoas que levam coisas para lá pra ele, e depois aquele Miguel que está lá em cima… farta-se de rir. Olha, ele ri-se tanto, tanto, tanto que é uma coisa por demais, até isto parece que estremece, estremece… TUDO! Quando é a bola não me interessa para nada. A gente não percebe nada do que eles dizem! Eles haviam era de dizer quando é que dava e não dava! E também gosto de ver aquelas que ao princípio vão para lá todas contentes, eeeehhh, com os braços no ar, depois estão, não são chamadas e ele vai lá e pergunta-lhes então quanto é que dava, e elas, ah… ficam assim, uhm [risos] e vai, vai, vão-se embora sem lá ir[risos].



(Irene Bisgata, 88 anos, Eiras de Sabaio, ontem, 19:10)

Wednesday, May 26, 2010

De quanto vimos


O melhor blog de uma australiana em Portugal que conheço. É este. Divertido, original (toda a aventura da antípoda o é, aliás), e ainda capaz de nos fazer pensar. Sobre a gente.

Entre o divertido e o assim-assim, em doses diárias (nem que seja por isso, é digno de nota!). Por vezes original. Ora então.

Para dar alguma seriedade. E tem interesse.

Monday, May 10, 2010

Eu nunca mais.


Nunca mais quero saber de futebol, com este sistema aleatório. O Benfica devia ser considerado campeão a meio da época por uma assembleia de pessoas que percebam de futebol. Oficialmente. (O Braga podia ter ganho o campeonato ontem!) Ou então que se faça tudo por meio de lobbying junto dos árbitros. O chamado sistema da corrupção dos árbitros não cai bem na mentalidade portuguesa e é uma pena. Já se tentou, mas dá muita polémica.
Nunca mais quero sofrer assim, nunca mais. O pessoal no café festejou na mesma, e eu não, fiquei a um canto, cansado e perplexo. Perplexo com a falta de emoções que me veio, quase mais triste do que alegre, e sem emoções, e a sofrer. É só o que posso dizer.
Mesmo no final, quebrou-se a imagem heróica da equipa que vimos durante o resto da época, e de qualquer maneira gosto mais da emoção espontânea de uma boa jogada do que do calculismo pequeno-burguês com os pontos e a tabela classificativa, sobretudo se obriga a um clímax constantemente adiado, um campeão devia ser um fazedor de boas jogadas sucessivas. O Benfica só não o foi no fim! Entristece mas é assim.
Também acontece que quando uma coisa de sonho é muito esmiuçada somos obrigados a pensar nela como em coisas do dia-a-dia, uma torneira, um tremoço, etc., e isso leva-nos depois a que nos interroguemos sobre o que é que estamos ali a fazer a olhar para aqueles palermas a jogar.
Por isso este sistema, em que uma equipa claramente de sonho vai até ao fim oprimida pelas contingências da realidade - mesmo que absurda! -, não me parece o melhor.
Entretanto isto também me há-de passar, vou perceber que somos campeões e vou ficar eufórico. Já andava nisso, e tinha começado a escrever um texto eufórico, na semana passada, antes de termos perdido com o Porto, agora fica para quando me apetecer. Então até lá e saudações desportivas.

Sunday, April 25, 2010

Lanterna mágica





                                                        

Thursday, April 15, 2010

Decidi receber cá o compasso na Páscoa

Decidi receber cá o compasso na Páscoa, que teve lugar no Domingo seguinte, que foi o último, mas o problema da Páscoa já sabemos que passa pela aterradora inexistência quer de presentes, muito ao contrário do que se verifica por exemplo no café adjunto à praia fluvial, que é muito chique e dá um pequeno chocolate embrulhado adjuntamente ao café, quer de striptease. Que é o que eu faço de cabeça à rapariga que lá trabalha, e ela nem sequer se importa, quando me traz o café. O padre podia ao menos ser bonito, mas para padre não está mal. E é já um bocado velho. Apetece tirar-lhe o vestido para ver o que é que traz lá por baixo com este calor, num jogo de sedução, também. Sim, já enjoa tanto alvoroço com padres metidos, portanto, não. À rapariga.
Que ela é bonita como a Primavera que está nesta altura muito contente, já fala com a gente. É esta alegria, a Páscoa, as sombras bem desenhadas pelo sol da manhã e um padre com um vestido às flores de casa em casa e tudo o mais, as pessoas cantando por dentro para o meio-dia.
Sou uma teologia de cima a baixo, já, não é nada de mais, é a ciência que toda a gente pratica quando a cabeça esquece as tarefas do escritório da Suiça e se perde desdenhando das leis da gravidade, tal como as conhecemos, à velocidade da luz. Vou então a questões técnicas, eu avisei quando começámos que depois não sei o que é que hei-de escrever num blog, bom, (num blog! é muito deprimente!), porque é que o padre anda de casa em casa? Para receber dinheiro e conviver um pouco, e eu pensva que era só para conviver um pouco. Diria que na Páscoa tudo é móvel, desde o padre, passando pelos afilhados que por cá têm o hábito de percorrer as casas de padrinhos, etc. e tal, por Jesus Cristo, que neste dia saiu do túmulo e é por isso que se celebra a Páscoa, não é nada por causa da rapariga do café nem da Primavera (se for agora vai dar ao mesmo), também há metade dos espanhóis que nos visitam de automóvel, e acabando na própria Páscoa, que no calendário é móvel (e havia móveis para limpar a óleo de cedro, na sala do sr. prior, em casa da minha avó). Porque é que o vestido dos padres é às flores? Trata-se de óbvia camuflagem para um cenário todo florido nesta época do ano. Camuflagem, isto é… dir-se-ia que assim se vê como a Igreja é una com a obra do Criador. E já agora troca-se um pouco as vistas a Satã.
Mas falava em dinheiro. O caso foi este: lá me entraram em casa, estando eu devidamente prevenido de acepipes e quatro espécies de vinho bom. Na minha inocência de menino da cidade que quer participar nas coisas giras do povo não estava no entanto a contar que esperavam que desse um folar ao padre, que podem ser uns cinquenta euros, talvez, depende do que se queira dar. É mais uma forma de pagar os serviços que ele presta ao longo do ano. Entretanto, foram ali uns momentos de bom convívio, que era o que eu pensava que era para ser. Acho até que esteve aquela santa comitiva a fazer um pouco de tempo, a ver se eu afinal me resolvia a chegar à frente com os tremoços. Logo na altura pressenti de passagem que podia faltar qualquer coisa, mas a conversa estava boa e como às tantas era só eu que bebia, pois diziam eles que ainda lhes faltava muitas casas, nada me preocupava grande coisa. Então saíram e um dos acompanhantes, um camarada mais das minhas relações, é que se deixou discretamente ficar um pouco para trás, e, com visível condescendência, me esteve a pôr a par dos ajustes destas usanças. Parece-me bem, e parece-me óbvio, agora. Eu é que sou tão ignorante que só sei pedir cafés à rapariga e comer o chocolate.

(Quero dizer às pessoas de Eiras de Sabaio que de facto não recebi a visita do sr. padre Ventura, mas que este texto me surgiu de uma real espécie de simulação mental que fiz acerca do que seriam os resultados prováveis ou possíveis se na verdade ela tivesse acontecido, e depois de de facto também ter chegado a falar com algumas pessoas, meio intrigado e meio interessado em participar de alguma maneira nesta tradição que acho bonita, e em prestar a minha homenagem, e é isso que faço, à minha maneira que só assim é que sei, já sei que muitos não vão gostar, como eu também não gosto de outras coisas que, quando não me matam, curam-me mais um bocadinho).

Wednesday, April 7, 2010

A seda entre nós -II


              Em texto aqui publicado a 12 de Outubro do ano passado, já tive oportunidade de poder dar alguma conta neste espaço da nossa relação histórica com toda a indústria da seda. É uma história incrustada na nossa alma quer para o bem, quer também para o mal, como já sabemos e veremos, que nem só de páginas gloriosas se fez.
              Distintíssimo material, já no século XVI vestir ou não sedas era um dos atributos que distinguiam socialmente as pessoas, à semelhança por exemplo do porte de espada. Chegaram a ser criadas leis próprias sobre o seu uso, como a «ley sobre os vestidos de seda & feitios delles e das pessoas que os podem trazer», de 1570, e surgiram costumes, como o privilégio de que gozavam os cidadãos do Porto, livres de poder vestir sedas, independentemente da sua pertença social.
              Sabe-se que nem tudo o que luz é ouro, e que a alma é mais do que a comida e o corpo mais do que o vestido, mas o mais dos homens sempre buscou o conforto para sua alma e o seu corpo na boa comida e no bom vestido, e se às vezes a elevação destas coisas está em acordo com o carácter, o merecimento e a dignidade de cada um, também vemos quantas vezes quanto mais sombras na alma e degradação no corpo, maior é o brilho em guarnições e atavios a que se deita a mão. Que tal brilho possa, quando naturalmente apresentado, ser admirado na sua conta, não no-lo neguemos, porém cuidando que não fiquem os nossos olhos ofuscados, e como que cegos, às intenções daqueles que o usam apenas e só como penhor daquela nobreza que precisamente lhes falta. Isto era verdade noutros tempos, e mais que nunca é nos que vão correndo.
              À conta do fascínio que vem de nós, os seres humanos, pelos artigos de valia superior, muito engenho humano também durante séculos se foi solicitando, muitas histórias correram, dignas de romance, muitas lutas houveram, batalhas se travaram. A propósito da seda, que é pela comparação com a sua pureza que vou tentando acusar o que em nós está em sentido contrário, é conhecido que a tecnologia para respectiva produção era segredo de estado na antiga China, e que foram uns monges cristãos que trouxeram as primeiros ovos do bicho-da-seda para o Ocidente na parte oca das suas bengalas de bambu. Antes de estes conhecimentos se espalharem pela Europa, mercadores e aventureiros percorriam as remotas rotas da seda por essa Ásia dentro, ou então desafiavam os oceanos, rumo ao oriente para se abastecerem do produto fabricado. Como nós, portugueses, que nisso fomos os primeiros, mesmo estando registado que as primeiras sementes do bicho-da-seda chegaram à Península por volta do século VIII, introduzidas pelos árabes. Há também foral de D. Sancho II de Portugal respeitante às amoreiras de que se alimenta o bicho-da-seda, e à necessidade de impedir o seu plantio sem controle.
              É caso para ponderação o tanto que se labutou para que tivéssemos em mãos portuguesas o conhecimento das técnicas necessárias à sua produção no nosso território português, e o tão grande desgoverno que depois houve à volta de toda a actividade serícola, por incapacidade, por falta de visão, a que se juntam algumas moléstias naturais que persistentemente traziam grandes prejuízos aos produtores. É certo que n’ A Terra Portugueza, de Rocha Peixoto, se pode ler que por volta de 1679 se publicou entre nós «um pequeno tratado sobre a creação do lepidóptero; e do paiz que, com a Hespanha, produzia e manufacturava sedas quando no resto da Europa mal se sabia ainda a arte, começaram a conhecer-se os seus magnificos velludos, setins e gorgorões e a serem procuradas as nossas télas, organsis e tafetás, os quaes, não rivalisando com os dos Kalifados de Granada e Córdova, eram todavia executados com primôr». Mas a cobiça e a vaidade tomam-se dos homens sem que disso sequer se dêem por tidos nem por achados, como temos visto, e impedem-nos de dar passos firmes adiante, especialmente quando o mando não ajuda. Na sua maior parte, para os indivíduos sempre foi demasiado sedutor o «negócio da China», e assim pouco ou nada se vem a querer com a boa diligência, com o emprego da mente e do corpo ao trabalho persistente, e com a dedicação ao bom governo das coisas. Não são apenas males de hoje, o desperdício de energias na busca de um qualquer expediente mal esmoído que promete fortuna ao primeiro bater de palmas. Mas a indústria serica, que assim chegou a chamar-se, não consente em tal desmazelo. Citarei ainda Rosa Peixoto a este propósito, que, falando de facto da seda bem poderia vir falar no mesmo modo de muitas outras coisas actuais, coloca bem a questão nestes termos: «E entre nós, ou desprevenidos ou ignorantes, ora ineptos ora desconfiados, nem os decretos e fábricas-modelos, nem o furor desvairado dos lucros valeram à indústria que se antolhou moribunda, falta de preceitos, falta de exemplo, falta de discreta previdência».