Tuesday, March 24, 2009

Basso profondo (lanterna mágica, especial 'Fosso de orquestra')


Qual a música e quais os artistas que tocam na nossa vida pública?

Confesso que tenho este estranho hábito de associar pessoas a instrumentos musicais (neste caso à voz de 'basso profondo'). Pensei, assim, singelamente, em catalogar algumas figuras conhecidas - em especial as da política - de acordo com o instrumento que cada uma invoca na minha imaginação. Pode ser uma espécie de uma caricatura sonora, que, tal como acontece como as pictóricas, realça algumas características da personagem, ainda que de forma distorcida.
As audições têm decorrido diariamente, e sabemos que as qualidades musicais dos executantes nem sempre são as melhores. Ouvimos muitas vezes as suas desafinações e estridências. Por vezes uma ou outra doce melodia, em contraponto com as tiradas mais dissonantes. É música e também é ruído. Mas a excelência musical não é requisito importante neste Fosso de Orquestra. Eis o primeiro elemento:


Basso profondo - Manuel Alegre

Friday, March 13, 2009

A crise na Islândia


Em 2001 a palavra crise era pouco mais do que um eco longínquo na minha memória. Ainda me lembro do Mundial de 82, em Espanha, de ouvir dizer que o desemprego em Setúbal era crónico, mas não do Argentina 78. Depois de muitos anos de ausência, qualificámo-nos para o México 86 e para CEE. Cresci num tempo de esperança, a professora de Estudos Sociais explicou-nos as vantagens da adesão, Portugal ia crescendo connosco, pintei num papelinho uma bandeira de Portugal quando o Carlos Manuel marcou o golo à Alemanha e no dia seguinte fui para a escola com aquele crachá. Éramos felizes, na cauda da Europa e do futebol, sabíamos para onde íamos, os professores Carlos Queiroz e Cavaco Silva guiavam-nos na direcção da mítica moeda única e dos gloriosos primeiros lugares, que acabámos por alcançar, anos mais tarde. Mas entretanto perdemos a felicidade.

Em 2001 a palavra crise era pouco mais do que um eco longínquo na minha memória, Portugal ia de vento em popa e isso era para sempre. Mas a partir desse ano tivemos que voltar a pô-la ao uso, e agora a crise está nas bocas do mundo. Não é no futebol, mas em todas as coisas, que se verifica serem as verdades de ontem as mentiras de amanhã. Talvez não seja assim mas ao contrário.

Na minha cronologia da crise há um antes e um depois de 2001. Não sei explicar causas nem consequências, nem relacionar acontecimentos de forma coerente, mas lembro-me de pressentir que qualquer coisa estava a ficar fora de controlo quando se começou a falar do «problema do deficit» daquela maneira. Depois veio a crise política, governos a entrar e a sair sem mais nem menos, o Santana, coitado, chegou a ir para lá, a Justiça abanava por todos os lados, desvarios de todos os géneros, atrasos, desordens e desmandos, um belo cenário para as doses corridas de escândalos e casos que vinham com cada telejornal. Muitos dos problemas económicos que agora afligem o mundo têm origem, ou foram agravados, diz-se, por certas práticas que remontam a 2001, mais coisa menos coisa. A economia da Argentina colapsou, aprendi que um país podia «falir». No dia 11 de Setembro, atentados terroristas nas cidades americanas de Nova Iorque e Washington afectaram de forma profunda todo o panorama geopolítico. O mundo não acabou em 2000 mais do que em outros anos, mas parecia estar a ficar louco.

E no entanto sinto que muito do que está em causa é a percepção das coisas, a ideia de crise, e não tanto a realidade objectiva, nem as eventuais ligações, complexas, e eu não percebo nada disso, entre fenómenos isolados. Destes, alguns são mais alhos, outros bugalhos, mas para muita gente que alimentava ilusões é a alhada geral.

Depois disto, mais cínicos, mais sábios até, podemos encarar de outra maneira a inquietante situação da Islândia. Aquela gente, tenho visto reportagens, está a passar um mau bocado. O país faliu. Tem havido alguma instabilidade política também. A boa notícia é que a mudança é a coisa mais constante que há, como vimos. Porque hão-de os islandeses estar condenados ao fracasso? Como povo não são menos capazes do que os outros, e nem sequer se podem queixar da falta de quadros qualificados. Há todas as razões para acreditar que a classe política, mais tarde ou mais cedo, acabará por colocar os recursos da nação ao serviço do povo, na senda do desenvolvimento. Há ainda muito trabalho a fazer, mas é enorme o potencial daquele que é um dos mais desconhecidos mas também um dos mais belos recantos do continente europeu. Trata-se de uma terra mágica, abençoada pela natureza. Tem uma identidade própria que, diz quem já experimentou, marca para sempre as pessoas. São as cores, as diferentes cambiantes de branco, é o cheiro forte e inconfundível daquela terra, a enxofre. E é sobretudo o sorriso doce daquelas crianças, a alegria e a vontade de viver que transparece nos seus pequenos rostos enquanto, curiosas, fitam as câmaras que logo à noite as apresentarão nos telejornais dos quatro cantos do mundo (os irlandeses, da Irlanda, também estão à rasca, mas têm um jeito para a música, amigo! E as danças? É já mesmo deles, aquilo).

Saturday, February 28, 2009

Sunday, February 22, 2009

O Rato Mickey


O Rato Mickey
Tive ocasião de ler num jornal regional um interessantíssimo texto sobre a mais célebre criação de Walt Disney, que fez 90 anos em Novembro último. Chamou-me a atenção a reflexão sobre a mensagem que personagens de animação aparentemente tão inofensivos podem passar aos mais novos, e não só, que o pequeno roedor de luvas brancas e calções vermelhos encontra muitos admiradores entre gente graúda também. E isto apesar de se encontrarem, no rico alfobre da nossa cultura e tradições, incontáveis exemplos de distracções muito mais saudáveis e educativas.
Mas analisemos o que está em causa. Aprofundando um pouco, o conteúdo dos filmes do famoso Rato são imorais e não se escandalizem, ou não o façam sem antes me ler o texto.
Os ratos são animais sem nobreza nenhuma, sujos e repelentes até, que transmitem doenças e que não gostamos nada de ver em nossas casas. Era por isso que antigamente toda a casa que se quisesse a salvo de tal companhia procurava ter um gato, seu inimigo figadal. Ora, o que acontece nos filmes onde entra o Rato Mickey? A verdade é que este, que por ser rato devia ser o mau da fita, leva sempre a melhor sobre o gato com quem trabalha. Nas aventuras que vivem em conjunto, o gato sai sempre vencido e humilhado pela astúcia do rato, que se fica a rir. Esta mensagem, a do mal que vence o bem e ainda é louvado e aplaudido, não pode deixar de penetrar nas mentes dos jovens espectadores, incapazes de avaliar a situação por si próprios e de se distanciarem da mais subtil das perversidades. Ainda assim, e dando o devido desconto, os filmes distraem e são inofensivos, comparados com os filmes actuais, sorvidos em doses assustadoras pelas crianças de agora.
Nestes, impera a violência, as figuras monstruosas, as histórias infernais e a música atordoante. E, para cúmulo, muitos dos filmes de animação actuais são pornográficos e vão amolecendo o critério das crianças, que passam a achar tudo “aquilo” natural.


Mais uma obra sobre a região do Vale Interior

Acaba de sair um livro precioso sobre grande parte do nosso melhor património, desde as Igrejas de Eiras de Sabaio e Valinhos, até ao convento de Santa Ana, entre muitos outros exemplos.
Trata-se de um estudo rigoroso, sem se tornar demasiado “pesado” ou académico, servido por excelentes textos e fotos, os primeiros da lavra do dr. Maciel Carvalho e as segundas a cargo de Ana de Vasconcelos, intitulado “ Vale Interior pedra a pedra”
A apresentação decorreu no Casa Municipal da Cultura, registando-se o assessor da Cultura da edilidade.

Monday, February 16, 2009

Jogos de azar

À sexta-feira feira vêem-se por todo o lado. Pessoas que se juntam à tardinha, e tiveram a semana toda, com o boletim do euromilhões na mão, as mesmas que de novo se juntarão, no último dia do prazo, para entregar a declaração do IRS. Que gente é esta, nós? A gente não sabe. Enquanto prolonga uma fila tristonha, vai pesando o dia de trabalho, as canseiras da semana e de toda uma vida suspensa na miragem do Jackpot que nunca calha à gente, que para todos os azares foi nascida, ou lá virá o dia, e se vier é justiça que se faz a uma vida tão malfadada. A fé no milagre, é desta que a gente acerta, é que a vai amparando, para não dizer resgatando, para quê ralar-se com a indiferença do sorteio face a estes anseios, que temos por justos e que aos números sorteados, e aos outros, parecerão futilidades, enfim, por que razão há-de a gente tentar perceber a gente mesma? Não nos calha.

Gosto de pensar que boa parte dos portugueses que se tornam euromilionários de um dia para o outro - o que nos acontecerá a todos no prazo de umas dez milhões de semanas, a continuar a este ritmo – se empanturram de excentricidades. O anúncio deu o mote, e bem, haja quem gaste dinheiro às pazadas, se é para continuar com a história do desgraçadinho (ai agora o que é que eu faço com tanto dinheiro, ainda mo roubam, vou continuar a comprar nas lojas dos chineses para não levantar ondas, e depois faço umas obras na casa de banho) não valeu de nada, mais valia continuar encostado à parede, com o boletim na mão, na fila do café. Ao menos nessa altura podia a malta sonhar com o euromilhões.

Eu cá, por essas e por outras, só jogo nos melões. Faço palpites, estudo-os e aposto. E a verdade é que frequentemente perco o dinheiro, porque é difícil acertar num bom melão. Jogar nos melões é mais adequado para quem não está preparado para ver a sua conta inchar subitamente como a de um oligarca russo nos anos noventa. Nenhum português está, tirando alguns que não se pode dizer. Apesar do nosso instinto e do nosso desembaraço, nunca saberemos ser oligarcas nem russos, só eles sabem como se faz. Nós desenrascamo-nos bem, mas precisamos de estar na miséria, ou, quando muito, assim-assim, para nos podermos queixar: “estou à rasca, pá”.

É bom que o país continue a apostar no euromilhões, desde que seja para acabar com tanto queixume. E os resultados estão à vista: nós somos os campeões do euro. Estamos sempre a limpar os prémios, entre tantos países concorrentes. Estou a falar do euromilhões, porque o futebol é outra fruta. A bola é redonda, o melão é que tem aquele formato da cara que fazemos quando descobrimos que o prémio saiu a outro marmelo qualquer, por acaso, ou talvez não, também português.

Devemos ser o povo mais sortudo com os indivíduos mais azarados da Europa. É ou não é de ficar com um grande melão? Calha-nos sempre, mas nunca à gente. Para o bem e para o mal, somos os derradeiros euromelões.

Saturday, February 7, 2009

A formiga e o lobo

(completa)

Uma formiga batedora andava a explorar o areal húmido que rodeava uma poça quase seca quando se deparou com um buraco. A forma perfeita da enorme cratera levou-a a pensar tratar-se uma pegada muito recente de um animal que por ali andasse. Subiu a uma erva para avaliar melhor e logo percebeu que tinha sido um lobo o responsável.
As formigas batedoras são escolhidas pela sua capacidade de raciocínio e curiosidade, e esta não era excepção. De imediato se lançou numa grande correria, tentando alcançar o lobo que, com toda a certeza, não andaria longe. Por sorte, avistou-o pouco depois junto a uns arbustos. Parecia estar muito concentrado, observando qualquer coisa a boa distância. Tal como suspeitara, tratava-se de um velho conhecido seu. Na verdade, conhecer outros animais - e assim aprender coisas novas, contactar com diferentes maneiras de pensar ou simplesmente conviver - era muito do agrado da formiga. O preço a pagar era ser olhada com certo desdém pelas suas irmãs. Mas esta formiga sabia bem que as tarefas extenuantes e monótonas que as outras tinham de fazer as deixavam incapazes de, ao menos, vislumbrar quanto perdem por nunca se desviarem do carreiro.
Entretanto, a formiga aproveitou a paragem do lobo para se aproximar. Começara já a chama-lo quando este partiu de cabeça baixa, num trote silencioso. A formiga bem correu, gritando «lobo, amigo!», mas as suas pequenas patas não lhe permitiriam alcançar um ouriço coxo, e a sua vozinha era quase tão fraca quanto o som de um pingo de chuva.
Não lhe restou se não subir arbusto acima para ver no que aquilo ia dar. Oh, que belo animal era o lobo! E que astuto e audaz! Primeiro aproximou-se silenciosamente da sua presa. Depois, possante, derrubou-a de um salto. Quase não precisou de correr.
A formiga deixou-se ficar numa folha, a observar. O lobo comeu tranquilamente, regressando depois pelo mesmo caminho. Quando já estava suficientemente perto, a formiga surpreendeu-o com este cumprimento:
- Olha quem é ele! Vê lá se soubeste trazer alguma coisa para os amigos…
- Não avisaste! – respondeu o lobo com um sorriso.
- Eu chamei-te, tu é que não ouviste. E eu que me contentava com uma lasquinha qualquer…
- Ah sim? – perguntou o lobo. – Não seja por isso! Tenho aqui uma entre os dentes. Tiras-ma e é toda tua. Só a aflição que me está a dar!
- Pois, isso é chato, é.
A formiga teve pena do lobo, um animal nobre e valente que se via agora atormentado por um pedacinho de carne do bicho que matara. Não deixou de se perguntar: «E se ele aproveita para me devorar também?» Mas logo concluiu: «Não o fará. Os corajosos não atacam os fracos dessa maneira. Só os cobardes o fazem». Sem saber muito bem o que fazer, e depois de um silêncio embaraçoso, acabou por lhe dizer:
- Eh, eh, o que tu queres sei eu!
- Oh, achas? Estás a brincar, não?
- Claro!
- Então vá – disse o lobo, abrindo a enorme boca junto à folha onde a formiga ainda estava.
Foi então a vez de a formiga mostrar a sua agilidade, saltando para a língua do lobo. Sentindo-a a fazer umas levíssimas cócegas, o lobo deu por si a pensar: «É tão franzina! Como pode ela achar que eu tiraria o mínimo proveito das suas poucas carnes? Uma sobremesa, talvez….»
Ainda um pouco perturbada com o que sugerira, a formiga avançava sobre aquela superfície movediça enquanto ia dizendo:
- Não, é que às vezes podias distrair-te… é só isso.

Esta resposta deixou o lobo pensativo por alguns instantes, mas logo se resolveu por incentivar a pequena batedora:
- É mesmo isso, aí.
A formiga estava a fazer o melhor que conseguia, tentando concentrar-se no trabalho e não nos seus receios. Procurava até que o lobo percebesse isso mesmo, e no entanto… não se coibia de segregar tanto ácido fórmico quanto conseguia. Afinal, sempre era bom que os animais grandes e poderosos, como os lobos, soubessem que aqueles que julgam fracos nem sempre se deixam engolir sem amargos de boca nem azias de estômago. Seria caso para pensar que era a honra das formigas que estava em causa, mas a verdade é que a formiga não se permitia perder muito tempo com tais conjecturas. E então respondeu-lhe:
- Pois é isto, amigo, mas é complicado. É preciso é calma.
- Sim.
- Desculpa lá estar a usar as pinças desta maneira, mas é só mais um bocadinho. Dói-te?
Toda esta azáfama parecia divertir o lobo, que pensava: «Está a fazer-se picante! Será que pensa que é isso que me impede?»
- E que doesse! O que arde cura, hihihi!
- …
- É ou não é?
- Olha, amigo, lá isso é verdade. Lá isso é verdade, é.
Como se de um gesto súbito e involuntário se tratasse, o ácido deixou de fluir. Cada vez mais divertido, o lobo ria com despudor. Quanto mais se tentava conter, mais sonoras eram as gargalhadas, colocando a formiga em sério risco de ser engolida inadvertidamente. Esta, desesperada por se livrar daquele perigo mortal, deixou de remexer com as pinças e imobilizou-se completamente. Depois, como se quisesse provar a si própria e ao lobo que não estava assustada, resolveu usar as patas para corresponder, com umas cócegas em plena língua, àquele riso tão desconcertante.
Fosse das cócegas ou fosse de adivinhar o desespero que as motivou, a verdade é que as gargalhadas do lobo passaram de incontidas a caso perdido e descontrolado. E em muito boa hora para a formiga, que assim se viu expelida com violência, entre risadas.
Enquanto um e outro se recompunham, dirige-se a formiga ao lobo nestes termos:
- Agora ia correndo mal, ou quê?
- …pois, nem por isso. Isto está tudo controlado!
- Ah, isso tem que ser. Vá lá, vá lá.
- E obrigado.
- Sempre saiu a carne?
- Olha, está aqui. Queres? Se queres vê lá!
- Não, vou andando.
- É?
- Vou. Xau.
- Então vá. Quando vieres para estes lados vê lá se dizes alguma coisa.
-Sempre.
-…
-...
- Olha, a sério, desculpa lá estar-me a rir e não sei quê, está bom?

Monday, February 2, 2009

Thursday, January 29, 2009

Chover no molhado




Chover no molhado é daquelas felizes expressões populares que nos ajudam a converter determinadas ideias numa imagem acessível a todos. Normalmente usamo-las em sentido figurado, para assinalar um acontecimento, uma característica, um comportamento, etc. no campo cartografado do proverbial.


Como é evidente, as situações em que se pode usar são as mais diversas, mas a frase veio-me à ideia a propósito de determinados gastos supéfluos de recursos, em especial os públicos. Por exemplo, a construção de todos aqueles espampanantes estádios de futebol para o Euro 2004, num país já tão futebolizado, que outra coisa foi senão chover no molhado? E quanto se gasta, na nossa televisão pública, com programas em tudo idênticos aos das privadas - como aquelas xaropadas, verdadeiras conversas da treta, a que temos o privilégio de poder assistir de manhã e à tarde?


Fazia falta, num país de magros recursos e grandes carências como o nosso, uma cultura de rigor e eficiência, e não o nosso (também proverbial) laxismo. Não é apenas a pertinência dos gastos que está em causa, é sobretudo a sua redundância. A primeira preocupa-me, a segunda enfurece-me. Nas ‘grandes’ e nas pequenas coisas.


Um caso paradigmático – e que me dá uma especial fúria – é o dos candeeiros de iluminação pública que, muitas vezes, alumiam as nossas ruas e estradas em pleno dia (o espécime que se pode ver acima foi fotografado por volta do meio-dia). Como podem eles ter a pretensão de iluminar no iluminado? Dir-se-ia que em Portugal levamos tão a sério a causa ambientalista que até já queremos encontrar energias alternativas à luz solar!


Desde miúda que esta anomalia me deixa perplexa (sim, isto acontece há muitos anos!), mas enquanto fui jovem e inocente pensei que, mais tarde ou mais cedo, seria corrigida. No entanto, é difícil conceber que na raiz do problema esteja uma deficiência técnica. É mais provável que se trate de uma questão cultural, para mal dos nossos pecados. É o nosso paralisante “não te apoquentes, que eu também não”.


Nestes últimos dias tenho-me deparado com esta situação com mais frequência do que o habitual. Posso dar testemunho de quilómetros (literalmente) de candeeiros a desperdiçar energia. Quem a paga? Quem responde pelos custos ambientais desta ineficiência energética?
Para cúmulo, ontem passei por um jardim cujo sistema de rega automático estava em pleno funcionamento durante uma copiosa chuvada. O jardim era privado, mas já vi cenas semelhantes em rotundas relvadas, por exemplo.


Como disse no início, normalmente usamos a expressão chover no molhado em sentido figurado, mas este (o da rega à chuva) é um caso em que o que queremos descrever corresponde ao significado literal da expressão. Interrogo-me se a realidade, por capricho extremo, não estará a conspirar para nos roubar as palavras – ou talvez procure fazer que tenham mais força ainda, mostrando-nos como a nossa inclinação para a displicência e para o despropósito pode ir tão longe quanto, em contrapartida, vai a nossa imaginação na produção de sapientes ditos e provérbios.

Sunday, January 25, 2009

História da Ladra Muda



Muitas memórias me ocorreram quando inesperadamente ouvi aquela cantiga que começa assim «Havia uma muda que era uma vez contra o casar. Porque era ladra e folgada, não queria dar-se por conta de coisa roubada, gostava mais de roubar.»
Já há largo tempo vinha pensando fazer registo da história da Ladra Muda, e o que ouvi serviu-me de sinal de que era chegado o momento. Da verdade que sei usarei boa medida, ajudada pela fraca imaginação, e, de ditos cantigas e contos que ficaram, as melhores voltas, e o brilho, que o povo à história deu.
Se era ladra é porque roubava, e se era muda, é porque não falava. Vivia entre salteadores, acompanhando-os nas suas patifarias, desfrutando de uma vida vadia e boémia. O seu atrevimento rivalizava com o dos mais afoitos, e a sua beleza não destoaria da das donzelas mais distintas.
As belas e distintas, sobretudo se são mudas, têm sempre muitas contas a prestar, e esta, que buscava a liberdade, resolveu ser ladra, para, enquanto não fosse presa, não ter de se explicar. Assim, vendo-se livre, pôs em cada gesto toda a eloquência que os seus lábios não podiam ter.
Não foram poucos os que tentaram ganhar os seus favores, mas, os que mais se empenhavam eram, quase sempre, os que menos colhiam. Entre esses contam-se muitos dos rapazes mais avisados, filhos das melhores famílias, e até homens casados, que se prendiam pelo feitiço daquela figura misteriosa e altiva, inebriados pela promessa de vertigem e perdição prenunciadas no seu olhar e avalizadas por seus lábios silenciosos. Então, deixavam tudo e juntavam-se ao bando de malfeitores, distinguindo-se nas façanhas criminais enquanto, em vão, suspiravam pelas amorosas. E outros tantos, patifes convictos, parceiros de aventuras da Muda, nela reconheciam a graça e a ternura que sempre lhes haviam sido negadas, mostrando-se dispostos ao arrependimento e, com ela, a experimentar o amor e o bem.
Não era apenas por causa da natureza desassossegada e folgazã da bandida que estas arremetidas saíam frustradas, há que notar a têmpera resistente de que era feita, insubmissa às ordens de qualquer malhador. O que não poucas vezes acontecia era serem alguns incautos assaltados por ela, distinguidos com alguns momentos de licença, dos quais saíam com mais sobressalto do que proveito. Outras vezes, quando algum lhe agradava mais e cerceava menos, recatava-se com ele por bom tempo, em exclusivos e arrebatados amores.
Todos estes sucessos, e muitos outros, passou a vivê-los apenas em pensamento, desconsolada, depois de certo dia casar com um velho matreiro e rico, que a levou à certa. Perdia-se em longas ruminações, deambulando por entre os criados de casa, já sem por eles ser percebida, mais muda do que nunca.
Não encontrava nenhum motivo de alegria na sua nova vida, e até os piores momentos que vivera lhe eram agora saudosos. Mas vinham-lhe à memória, sobretudo, os golpes bem sucedidos, as festas desenfreadas em que todo bando participava, quando até para músicos havia dinheiro. Mas também aquelas em que não havia mais do que vinho e as canções e danças que eles mesmos cantavam e dançavam, às vezes na companhia de trovadores e músicos de ocasião, que encontravam nas mais safadas tavernas.
Era esta, cada vez mais, a sua única companhia. Sucessivamente, trazia à memória o Poeta Incompleto, cujas quadras recordava em momentos escolhidos, o Coruja, um confrade de poucas falas mas muita finura, com quem se entendia muitas vezes sem palavra nem gesto algum, os Profetas, dois irmãos que chefiavam o bando desde sempre, e todos os que cabiam naquele tempo quase parado que era a sua vida.
Recusar-se a seu marido era seu único prazer, o velhaco merecia-o, deu-lhe como destino a prisão que era aquela casa, depois de, por meio de informadores, surpreender o bando, capturar e chantagear a Muda.
Perante a teimosia de sua noiva, já quase em desespero, ocorreu-lhe que se pela opressão não a conseguia vergar, talvez pudesse socorrer-se da folia, a inclinação boémia da caprichosa dama era conhecida, e a sua fortuna, nunca até então celebrada, cobri-la-ia de todas as festas necessárias. Na noite da primeira, perante os mais distintos convidados, logo se percebe marcada transformação, agitados, eram os olhos dela que o diziam. Quando, porém, depois de vazia a casa, lhe assoma onde dormia, é a impotência de sempre que o invade. Observa-a, atento, enquanto ela cerra os olhos, respira lenta. Já fechadas, as pernas mais estreita.
A um grito, acorrem ao interior da casas, em baixo, os guardas do jardim. Como se o esperasse, a Muda ergue-se, nua, salvo o punhal de que não precisa, ele apenas tropeça até às jóias, sobre o móvel, e fica-se, encolhido. Se ainda lhe estende em oferta, desesperado, os adornos esplendorosos, logo os aperta, vencido, enquanto pela última vez a contempla, soberba, levantando os braços e empunhando a única coisa que lhe leva, o vestido.
Uma simples fagulha, plantada e ventilada durante tão distendidos festejos, foi a causa do fogo que, uma vez liberto, nem todos os guardas juntos conseguiriam deter. Ao descer pela varanda, a Muda sente já o calor da liberdade percorrer-lhe o corpo, enquanto mãos confiantes a amparam. É o Coruja, que a puxa para o silêncio da noite.
Trilham caminhos poeirentos, sem descanso nem palavra, lado a lado. Mas já remotos, fugidos, amontes, muda ela e ele pouco dado a conversar, irrompem em ansiado diálogo. Descobre-se traição, gesticula-se morte, grita-se amor.
A um olhar, ambos se calam e esperam, suspensos, até que lábios ardentes se soltam, como peixes sôfregos sobre areia branca e fina.
Pelos lábios expiram, por eles morrem-lhes as falas. Por eles retomam, ávidos, novas línguas intemporais. São eles que dizem fraces, muito suaves, sussopram cabelos, delicosos. E refriam, comprazidos, o sangue fervelhente que os desperta.
E que os excita ainda mais.
Sábeos, cantam loirus seios.
Insuflados, rebentoam peitos mudos.
E, entre frisos prateados, eclodem-lhes frutos raros em salvas de túlipa preta.
Por lábios suspiraram, flamejando, cheios e desnudos.
Libertados, entreabertam, lambebendo , bencarnados, lábidos de poémia bruta.




(De outros sucessos da vida da Ladra Muda tentarei dar boa conta, oportunamente.)

Tuesday, January 20, 2009

Amazing grace - lanterna mágica

Aerosmith Steven Tyler Singing Amazing Grace




Soweto Gospel Choir - Amazing Grace (BEAUTIFUL VERSION)

Saturday, January 17, 2009

Antes da internet

A vida na terra começou muito antes da Internet ser inventada. Uma das coisas que faziam as criaturas que viveram no planeta durante esse estranho período era jogar à bola. Mas havia mais! E nós, que passamos a vida na Rede Mundial Alargada, não podemos deixar de sentir alguma admiração - e mesmo nostalgia – por ser possível, ao que se sabe, viver uma vida inteira sem certos sites, como os de chat, o hi5 e os blogs de gaja (aqueles cor-de-rosinha) - qualquer deles, estou certo, a invenção do século.
Os seres unicelulares não sei, sequer, se já se comiam uns aos outros ou se sobreviviam só graças à fotossíntese, por exemplo. Foram eles que deram início a este longo período pré-internet. Só depois deram sinais de que, afinal, a vida podia ser mais complexa. Começaram a cobiçar os outros, e esse foi o caminho que levou à gastronomia, ao amor e à guerra.
E ao futebol. Isto tudo para dizer que, há umas semanas, dois mil e nove anos depois de Cristo, comprei duas bolas numa loja de antiguidades que merece uma visita, uma voltinha de fim-de-semana em família, talvez, que se chama Sportzone. Uma a sério e outra de borracha, para dar toques dentro de casa.
A net é gira, mas há certos hábitos, como a fotossíntese e jogar à bola, que não se devem perder.

Wednesday, January 14, 2009

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais


«Novas relações

(…)
Para julgar – com clareza e senso seguro – as pessoas, é necessário vê-las, conhecê-las e observá-las no seu ambiente próprio, no seu meio habitual e íntimo. Quantas vezes – nas praias, no campo ou nas termas -, se representam comédias e farsas de sociedade, de distinção, de boas-maneiras, que apenas são atitudes estudadas, em nada correspondendo à realidade!
Será, pois, necessário – antes de entregarmos a nossa amizade a alguém – colher informações e saber de quem se trata. Uma pessoa verdadeiramente distinta e educada não estabelece relações de amizade, sem prévio estudo e conhecimento. Com estas precauções, poderão evitar-se situações críticas e embaraçosas.»


(Noiva, esposa e mãe, colecção Laura Santos)

Sunday, January 11, 2009

Thursday, January 8, 2009

São os horários!

Uma das discussões mais frequentes entre quem tem responsabilidades nas áreas da Cultura, ou entre quem simplesmente se interessa por estes assuntos, é a dos subsídios.
Em que medida devem - se é que devem – os dinheiros públicos pagar os custos das actividades culturais, e quais aquelas a que se deve dar prioridade, são duas das perguntas recorrentes.
Infelizmente, esta discussão não se tem alargado tanto quanto devia no que diz à área do audiovisual, e em especial à RTP. Não digo que não se fale nisso, mas fico com a sensação que nunca nada se aprofunda, que se vive numa indefinição permanente. Quais são as linhas orientadoras, quais os objectivos e os critérios, qual o grau e a natureza da dependência da estação pública face ao poder político são exemplos de questões que não vejo que estejam respondidas de maneira convincente, mas pode ser falha minha. Não é de nenhum unanimismo que se sente falta, mas sim de um consenso mínimo, ou pelo menos de uma discussão tão clara quanto possível sobre a missão da RTP, bem como sobre os ganhos e os custos das alternativas a essa missão e ao modelo que a sustenta.
Enquanto isso não acontece, resta-nos reclamar de algumas coisas e aplaudir outras. E, às vezes, reclamar e aplaudir, como acontece quando bons programas passam a muito más horas. Pego neste exemplo porque ultimamente me tenho arreliado muitas vezes por não estar na disposição de ficar acordado madrugada dentro para ver bons filmes e bons concertos ao fim-de-semana – como o programa ‘Palco’, que amanhã é transmitido à 1:13, ou os filmes, sempre dois seguidos, que ainda há pouco tempo eram transmitidos em horário de padeiro (lá está: parece que já não é assim) , para não falar em documentários e outros programas, mas até falo: hoje é transmitido um documentário sobre Fidel Castro, a começar às 23:26, para dar um exemplo que não é dos piores. E suspeito que a tal falta de definição do papel da estação, de que falava (que também só suspeito que exista), em especial em relação ao 2º canal, tem tudo a ver com estes estranhos horários.
Não me queixo da qualidade dos filmes e dos concertos – pelo contrário. Mas essa qualidade só me deixa mais frustrado, não só por deixar passar a oportunidade de deles usufruir como pelo desperdício de dinheiro do contribuinte que a sua transmissão implica. O que é bom paga-se caro, normalmente.

Saturday, January 3, 2009

Os meus botões


A crise
Muito tem dado que falar a recente crise financeira e económica. Nessas doutas discussões, que são bastas vezes um falatório cheio de floreados sem alicerce firme onde assente o entendimento do povo, tem-se esquecido outro género de crise: a crise de valores. Só quem não quer é que não vê a podridão espiritual que tomou conta das mentalidades, na nossa sociedade, e a falta de alguns esteios morais importantíssimos que a sustentavam. É aqui, neste ponto que tantos procuram ignorar, que está a razão principal da situação que vivemos.
O paganismo impera, apesar dos muitos avisos. Os jovens procuram dinheiro, não trabalho. O vício é louvado, a seriedade nem sabem o que é. Preocupam-se com a fama e não com o bom-nome. O que importa é a diversão e o prazer do corpo, não ter mente e corpo sãos e puros, e o pior é que somos nós, todos nós, que plantamos esses falsos valores no seu coração. A inclinação para o paganismo é muito antiga, e traz sempre maus resultados. Até os trajes com que aparece não são muito diferentes através dos tempos: adoração de falsos deuses, devassidão revestida de muitas formas, como música e danças intoxicantes, o endeusamento do vil metal, etc.
Precisamos de nos libertar desta escravidão que é a ganância. Já pusemos de parte muitas ideologias malignas e de raiz pagã e ateia, como o nazismo e o comunismo. Quando o homem deixar de ter a alma presa ao materialismo, que tem sido rei e senhor neste mundo e é outra forma de paganismo, e se elevar nos valores da compaixão, da solidariedade e da paz, não faltarão soluções para acabar com esta crise.


Concertinas das Carvalhas na Televisão

Decorreu no dia 14 de Dezembro um encontro de tocadores de concertina, que atraiu à pequena aldeia das Carvalhas, freguesia de Romaride, cerca de 50 tocadores, entre os quais se encontravam alguns vindos do estrangeiro. As actuações decorreram tanto no palco montado para o efeito como pelas ruas e recantos da povoação.
A festa decorreu com grande animação desde manhã até à noite, havendo oportunidade de conviver e saborear petiscos regionais, postos à disposição de todos pelos organizadores. O Grupo de Concertinas da Barrenta participou também num programa televisivo da manhã, em directo, na sexta-feira anterior, a convite do canal da TVI.
Estão de parabéns as Carvalhas e toda a região pela realização de mais um evento de grande importância e projecção para a nossa cultura.

(Publicado na edição de 19 de Dezembro de 2008 do Jornal do Vale Interior)

Monday, December 29, 2008

A formiga e o lobo



Uma formiga batedora andava a explorar o areal húmido que rodeava uma poça quase seca quando se deparou com um buraco. A forma perfeita da enorme cratera levou-a a pensar tratar-se uma pegada muito recente de um animal que por ali andasse. Subiu a uma erva para avaliar melhor e logo percebeu que tinha sido um lobo o responsável.
As formigas batedoras são escolhidas pela sua capacidade de raciocínio e curiosidade, e esta não era excepção. De imediato se lançou numa grande correria, tentando alcançar o lobo que, com toda a certeza, não andaria longe. Por sorte, avistou-o pouco depois junto a uns arbustos. Parecia estar muito concentrado, observando qualquer coisa a boa distância. Tal como suspeitara, tratava-se de um velho conhecido seu. Na verdade, conhecer outros animais - e assim aprender coisas novas, contactar com diferentes maneiras de pensar ou simplesmente conviver - era muito do agrado da formiga. O preço a pagar era ser olhada com certo desdém pelas suas irmãs. Mas esta formiga sabia bem que as tarefas extenuantes e monótonas que as outras tinham de fazer as deixavamm incapazes de, ao menos, vislumbrar quanto perdem por nunca se desviarem do carreiro.
Entretanto, a formiga aproveitou a paragem do lobo para se aproximar. Começara já a chama-lo quando este partiu de cabeça baixa, num trote silencioso. A formiga bem correu, gritando «lobo, amigo!», mas as suas pequenas patas não lhe permitiriam alcançar um ouriço coxo, e a sua vozinha era quase tão fraca quanto o som de um pingo de chuva.
Não lhe restou se não subir arbusto acima para ver no que aquilo ia dar. Oh, que belo animal era o lobo! E que astuto e audaz! Primeiro aproximou-se silenciosamente da sua presa. Depois, possante, derrubou-a de um salto. Quase não precisou de correr.
A formiga deixou-se ficar numa folha, a observar. O lobo comeu tranquilamente, regressando depois pelo mesmo caminho. Quando já estava suficientemente perto, a formiga surpreendeu-o com este cumprimento:
- Olha quem é ele! Vê lá se soubeste trazer alguma coisa para os amigos…
- Não avisaste! – respondeu o lobo com um sorriso.
- Eu chamei-te, tu é que não ouviste. E eu que me contentava com uma lasquinha qualquer…
- Ah sim? – perguntou o lobo. – Não seja por isso! Tenho aqui uma entre os dentes. Tiras-ma e é toda tua. Só a aflição que me está a dar!
- Pois, isso é chato, é.
A formiga teve pena do lobo, um animal nobre e valente que se via agora atormentado por um pedacinho de carne do bicho que matara. Não deixou de se perguntar: «E se ele aproveita para me devorar também?» Mas logo concluiu: «Não o fará. Os corajosos não atacam os fracos dessa maneira. Só os cobardes o fazem». Sem saber muito bem o que fazer, e depois de um solêncio embaraçoso, acabou por lhe dizer:
- Eh, eh, o que tu queres sei eu!
- Oh, achas? Estás a brincar, não?
- Claro!
- Então vá – disse o lobo, abrindo a enorme boca junto à folha onde a formiga ainda estava.
Foi então a vez de a formiga mostrar a sua agilidade, saltando para a língua do lobo. Sentindo-a a fazer umas levíssimas cócegas, o lobo deu por si a pensar: «É tão franzina! Como pode ela achar que eu tiraria o mínimo proveito das suas poucas carnes? Uma sobremesa, talvez…»
Ainda um pouco perturbada com o que sugerira, a formiga avançava sobre aquela superfície movediça enquanto ia dizendo:
- Não, é que às vezes podias distrair-te… é só isso.


(Continua.)

Tuesday, December 23, 2008

A minha política de pescas


Os que me conhecem sabem bem que sou um apaixonado pela pesca. Grande parte dos meus amigos é constituída por pescadores. Conheci pessoas nas mais variadas situações, mas as amizades que se ganham na pesca são diferentes. São o oposto do que normalmente encontro na política, infelizmente.
Sozinho ou acompanhado, são momentos únicos os que se passa envolvidos nesta arte, desde a preparação da roupa e do equipamento até à possível mas incerta comezaina. O maior deleite da pesca não está na captura mas, muitas vezes, em tudo o resto à volta. Nunca sinto que perco tempo enquanto pesco, apesar de passar grande parte do tempo sem fazer grande coisa. E quando se apanha alguma coisa que vale a pena mostrar, sinto alegria mas também alguma pena por aquele ser vivo sofrer com o destino que lhe estava marcado na ponta do anzol.
Às vezes reflicto sobre isto e quase peço aos peixes para não picarem. Eles são criaturas magníficas. Este é um dos fascínios da actividade. Ao que julgo saber, na pré-história os homens sentiam espanto e ao mesmo tempo remorsos por tirarem a vida aos animais. Talvez seja essa a origem dos actuais vegetarianos, pacifistas, anarquistas, ecologistas, etc. Aparentemente são coisas que não estão relacionadas, mas eu penso que muitas das coisas que eles defendem são questões de todos os tempos. Todos os homens sentiram já em algum momento alguma pena pelos animais, pelos maus tratos que infligimos à Natureza, ou por o mundo ser como é. Onde nós podemos fazer a diferença é, respeitando e compreendendo esses sentimentos, que também são nossos, não ficar amarrados a visões radicais e tentar compreender a natureza.
Parece que alguns querem decretar um mundo perfeito. Mas não adianta ignorar o sofrimento que existe neste mundo, porque a sua lei é universal. E temos que aprender a viver com essa lei, fazendo que os seus impactos sejam tão pequenos quanto possível. O homem é a medida de todas as coisas, como dizia Protágoras.
É neste tipo de coisas que vou pensando quando vou à pesca, às vezes sem perceber se espero que o peixe pique ou que não pique.

Sunday, December 21, 2008

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais

Resolvi escrever um ‘ouvindo conversas, …’ especial, por causa de uma conjugação de factores (ou de astros), que me começaram a provocar redemoinhos dentro da cabeça numa altura em que eu queria passear de pijama no quintal, apanhar e comer ou abençoar tangerinas e sol e atirar as cascas ao desvairado Fugas ou deixá-las no chão.
Quintal ou blog? E\ou.
Uma das vizinhas que assumiu o protagonismo do último ‘ouvindo….' adoeceu, espero que sem muita gravidade . É interessante como numa comunidade pequena este tipo de coisas é sempre notícia. Para o bem ou para o mal, há uma rede global (queiram ou não, todos os habitantes da aldeia são englobados) que impede que acontecimentos desta natureza sejam ignorados. Há sempre alguma partilha, parte dela, por ventura, inconveniente.

A srª. Irene Bisgata contava-me ontem coisas da sua juventude, vivida há perto de 70 anos, “andávamos sempre juntos, aquele rancho de gente, olha o Albino João era um! Era as Carriças! As Marcialas, os Queridos, os Sapateiros, o pai daquela (…). Íamos a todo o lado, trabalhar para uns, trabalhar para outros. Olha que íamos à Sé [na sede do concelho, a 25 km] aos [umas cerimónias religiosas cujo nome não fixei] a pé, e para cá de comboio! [Pergunto porque não iam de comboio também, não havia?] Havia, só que era mais engraçado ir a pé, divertíamo-nos muito, íamos sempre a cantar, depois para cá vínhamos da estação até aqui a pé [5 km] sempre a cantar ainda, vínhamos ali para cá do Paul e já nos ouviam cá ao fundo. Quando chegávamos à casa da [?] tínhamos que cantar outra vez porque ela não nos deixava de lá sair sem ouvir a gente. A Duarta tinha uma grande voz, nunca vi para fazer segundas vozes, assim, para baixo, A senhora um dia sozinha se achava, a Deus mil louvores em silêncio dava, a gente sempre com voz própria e ela na segunda voz, uma voz boa. Depois As preces de um anjo e ela, para baixo, As preces de um anjo diz (…) alguém, tu és lá do Céu, bendita ó Maria. Quando era altura da batata lá ia aquele rancho para a batata, quando era para a sacha era tudo assim! Íamos semear o milho para este, depois para aquele, apanhar o nosso, depois o daquele… Tínhamos aí o milho para descamisar, logo de madrugada chegava o Elias… ele gostava muito de agarrar assim duas telhas e falava para os outros. Punha-as assim [em tubo, junto à boca] e começava AAQUIII NAA EIIRAAA DAAS BISGAAAATAAS HÁ AQUIII MUUUIITO MIILHOOO PARAA DESCAAMIISAAAAR!!! Passada meia hora estava aí isso cheio de pessoal, telefonavam-se assim uns para os outros”.

É curioso que ela tenha dito que se telefonavam. Não se pense que na altura não havia telefones. O info-excluído@pessoa diz que conheceu alguém que, mais ou menos por esta altura, tinha telefone. E já tinha número atribuído: o 20! Há aqui um texto que, porque não, serve de contraponto a este no que respeita aos avanços da tecnologia. Um dos comentários é do info-excluído e fala desse telefone com número de dois dígitos, na era analógica.

Friday, December 19, 2008

Lanterna mágica


Meu Amor Abre a Janela - Maria João Quadros

Thursday, December 18, 2008

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais


Eu, para a vizinha Maria Nazaré:
- A sua gata entrou-me em casa. Não é uma que tem um guizo?
Ela:
- Entrou? Ah p. de m. É muito atrevida. Anda-lhe aí a conhecer as divisões da casa! Ahahah. Ela não faz mal, mas é muito lascarinha. Só o mais que pode fazer é ir ficar à sua cama! Uhhuhah!
Maria Lúcia, outra vizinha:
- Olhe que ainda vai ficar à sua cama, hoje!
Eu:
- Pois.


(Maria Nazaré - quase 70 anos; Maria Lúcia - mais de 50 anos; hoje, Eiras de Sabaio)

Monday, December 15, 2008

Hoje não vi nenhuma gaja boa


Ainda me lembro de pensar, isto antigamente, quando via uma rapariga muito bonita, meu Deus, esta é daquelas que se vêem - com duplo ‘e’ - uma vez de dez em dez anos. Pensava isto muitas vezes até. Era quase todos os dias, era.
E achava este assunto muito importante. Houve uma vez um amigo que me disse que gostaria de ter, dentro do armário ou assim, uma rapariga sempre pronta a cumprir uma função: dar as bochechas a apertar, com jeitinho, quando ele sentisse necessidade. Logo ao acordar, por exemplo, ia lá afagar-lhas e pronto, estava dado o primeiro passo para começar bem o dia. E eu disse logo que a ideia era boa. Éramos muito líricos.
Naturalmente tive bastantes oportunidades de confirmar que as coisas não funcionam bem assim. Mas também ainda não descobri ao certo como funcionam. Agora o que eu sempre soube fazer foi ver. Quando vemos, imaginamos. E eu imagino quase sempre que estou a um passo de experimentar as bochechas. Normalmente não consigo, mas vou vendo no que dá. E não incomoda.
Não é preciso perceber nada de gajas para ver. É uma coisa que se basta a si própria, que não requer explicação. Não requer, não tem e não quer. Escrevem-se livros e artigos em catadupa sobre a natureza supostamente misteriosa das mulheres, sem que nenhum deles acrescente mais nenhuma conclusão além da de sempre: as mulheres são misteriosas. Os olhos já tinham percebido isso e, sempre que podem, evitam escutar as dúvidas do cérebro. Eles foram feitos para ver.
Os ‘blogs de gaja’ proliferam, mas os blogs e sites com gajas proliferam mais ainda. E nós olhamos, como não? Mas não é a mesma coisa. As bochechas daquelas sabemos nós que nunca iremos apertar, e os olhos querem ver. Não basta olhar, há que ver e imaginar a possibilidade de um futuro aperto.
Nos sites de gajas (não me refiro aos escritos por elas, mas àqueles que tornam a escrita - e outros acessórios mas não todos mas eu não sei - dispensável), e nisso as feministas têm alguma razão, acabamos por ver muito pouco. Olhamos. É como se andássemos à procura das raparigas que, em diferentes momentos, surgiram como um clarão a nossos olhos, encandeando-os e prendendo-os com a pergunta “tás a ver bem?” e nós não sabíamos, porque nunca tínhamos visto. Elas é que nos fizeram ver e perceber.
E por isso olhamos com atenção, tentando identificar alguma das ‘tais’ e sonhar com ela outra vez. Nunca encontrei nenhuma, apesar dos esforços incansáveis de quem vai carregando mais e mais raparigas naqueles catálogos. Aliás, como cada homem deve ter tido umas boas dúzias de epifanias em forma de rapariga, e como há cada vez mais homens com acesso há Internet, tem mesmo que ser assim. Felizmente que há o cuidado de colocar moças não muito feias, de maneira a não tornar a procura muito penosa. E, à falta de ver, sempre se vai olhando. Não são as que marcaram os nossos sonhos mas são, muitas vezes, substitutas muito boas. E ainda bem, porque isto de procurar fantasmas é muito aliciante mas também cansa.
Ontem deu-se-me um clique na cabeça e emergiu a frase, uma espécie de constatação espantada: “hoje (ontem) não vi nenhuma gaja boa!”. O espanto não é tanto por não ter visto nada como por perceber que não é coisa de um dia só. Esta distracção da visão, que se esquece de ver o que poderia ser distracção e regalo para a vista, já dura há um período indefinido. Será sinal de alguma coisa? Cheguei a ralar-me a sério, adivinhando já um assustador processo de degradação, comparável à perda gradual e silenciosa de um sentido. Mas talvez seja apenas falta de apanhar uns raiozinhos de sol, uns lampejos que me alumiem o caminho e aqueçam o coração.

Sunday, December 14, 2008

O nosso Vale cantado pelo dr. Luciano Carlos de Abreu

Tive ocasião, há já certo tempo, de falar aqui da figura do dr. Luciano Carlos de Abreu. Esse texto está aqui. Mas continha um erro. Felizmente que o sr. José Passos Santos, grande estudioso e interessado na cultura da nossa região, e agora nosso leitor, para além de velho amigo, me alertou para o facto.
Eu tinha referido que a naturalidade do dr. Luciano era Valinho, mas não está, de facto, correcto. Ele viveu, na verdade, desde muito jovem entre o Valinho e Romaride, mas a sua naturalidade é esta última. Lamento o sucedido e, prontamente, procedi à correcção do erro.
Como forma de compensação, deixo agora mais alguma da sua belíssima arte poética, onde fala precisamente das suas raízes. Que pena que este autor não ser mais conhecido e divulgado, sobretudo entre a juventude de todo o Vale Interior.



Oh! Que lindas colinas
Tens tu, Romaride.
São como faces meninas,
Mais suaves que a neve.


Na primavera sorri
A flor do jardim.
Assim tu, Romaride,
Rosa linda donde eu vim.


Que arrabaldes bem postos
Tem Eiras de Sabaio.
Santa Marta em Agosto,
Santo Agostinho em Maio.


Altas serras abaixai.
Quero olhar o meu Vale.
Verei o sol, seu pai,
Pintar belezas sem rival.

Thursday, December 11, 2008

Lanterna mágica

Fáj a szivem, Aranyeső, Úgy szeretem a rányimat





Não me perguntem quem são nem de onde vêm. São cidadãos do Youtube, que é currículo bastante. O que conta é a intenção, herói ou vilão.
Em época de festas estes davam baile a muitos artistas da nossa praça, e eu gostaria tanto de os ter tido a abrilhantar a boda do meu casamento!
Por acaso gostava.

Tuesday, December 9, 2008

Uma rapariga


Uma rapariga (Tânia), para fugir do mundo triste em que vive, casa e faz um filho com o seu homem. O menino ilumina todo o horizonte de felicidade na sua cabeça. Porque assim o determina a natureza, as mães fazem dos filhos a variável controlável da sua vida, ainda que tal não passe de ilusão. As raparigas fragilizadas, como Tânia, são muitas vezes as que mais anseiam por um filho.

O filho de Tânia começa a falar com um ano de idade e diz mãe. Mas com o passar do tempo a alegria dos primeiros chamamentos vai como que diminuindo. A sorte da felicidade da mãe é um peso que ele não pode suportar, e, por isso, foge para outro país. É quase um homem, já pode trabalhar. Junta-se a um grupo no café, à noite, e vêem futebol.

Metade daqueles homens conhecia alguém que morreu de acidente, nas constantes viagens de ida e volta.

Passam-se décadas até que um descendente dos que nunca mais voltaram aprenda a tocar piano. Era só o que lhe faltava e, no entanto, não é especialmente feliz. Mas não se suicida, ou coisa parecida. Dorme mal às vezes, vá.

Relatos da vida de uma professora

Enquanto se espera que comece o segundo acto da peça ‘Avaliação de Professores’, proponho que desviemos a atenção do palco por uns instantes e que olhemos para o que uns miúdos traquinas vão fazendo lá em baixo, no fosso de orquestra. Sempre ajuda a passar o tempo e, talvez, a focar melhor aquilo que realmente é importante. Digamos que são algumas declarações (feitas a quente) e alguns comportamentos singulares que fui apanhando, ao longo dos sucessivos anos lectivos. Provavelmente todos os professores poderiam preencher um caderninho com episódios destes, se se dessem ao trabalho. Deixo apenas alguns exemplos:

•• Numa turma de 3º ano, a professora (eu) pede aos alunos que transmitam aos pais determinado recado. Uma das alunas é de origem chinesa e, apesar de falar português correctamente, apresenta algumas dificuldades ao nível da semântica, devido ao facto de não falar português em casa. Dizia eu que havia um recado para transmitir aos pais. Eis a sua resposta, aflita:“Aos pais?! Eu não tenho dois pais! Tenho só um pai! E uma mãe!”

•• Na primeira aula de uma turma de primeiro ano, o primeiro aluno a falar, depois de pôr o braço no ar, faz esta pergunta:
“Professora, o que é que é uma pergunta retórica?”
(Juro! Ele era muito curioso e deve ter ouvido aquilo algures.)

•• Um aluno de 1º ano, amoroso mas um pouco instável, entra na aula de rompante e em tronco nu. Trazia a mão na anca, um olhar de ‘quem não era nada com ele’ e a camisola, vermelha, ao ombro. E vinha muito atrasado. De imediato lhe ordenei, com firmeza, que saísse, vestisse a camisola, batesse à porta e entrasse. Depois de aquela criatura magricela sair só tivemos que esperar uns instantes até ouvir bater. Mandei entrar e, para gargalhada geral, vêmo-lo passar, triunfante, e dirigir-se ao seu lugar, com uma camisola azul vestida. Onde a foi buscar e o que fez à outra não faço ideia.

•• No corredor, duas miúdas do 1º ano, abraçadas e sorridentes, dirigem-se a mim nestes termos:
“Nós somos namoradas! Somos gays!”

A propósito da greve, deixem-me só dizer, fiz sim senhor. Mas tive muitas dúvidas. Este processo foi muito mal conduzido por todas as partes. Houve uma verdadeira dramatização de todo o caso (e vamos para o 2º acto). A ministra quis obter poder negocial conquistando a opinião pública. Eu em parte compreendo-a (e ouço muitas críticas por causa disso), atendendo à dificuldade em fazer mudanças profundas no sistema. É que eu ouço muitas bocas dizerem ‘sou a favor da avaliação, mas contra este modelo’, mas vejo alguns olhos, e oxalá eu me engane, dizendo o contrário. De qualquer modo, a ministra insistiu por demasiado tempo com o formato, que é de facto muito pesado. Mas eu defendo uma avaliação que distinga verdadeiramente o desempenho de cada um, e estou preparada para aceitar alguma carga adicional de trabalho que ela acarrete. Felizmente, bem o sei, estou longe de ser caso único.

Monday, December 8, 2008

De quanto vimos

A internet é um ser vivo, cheio de pensamentos, de sentimentos altos e baixos instintos. E cada um de nós, fazedores de sites e blogs, é uma célula. Somos células nervosas, andamos para aqui a comunicar com outras células, a enviar e receber alimento, a estabelecer ligações e a tentar roubar os nutrientes umas às outras. É assim mesmo, complexo, tanto competimos por comida como a partilhamos.
De tudo quanto tem chegado às células adiposas que se acomodam neste blog (que me desculpem as meninas), muita coisa saborosa poderia ser dada a provar. Mas há dois posts que destacamos, por razões diferentes mas que vêm a ser a mesma: têm a ver connosco. Logo nos primeiros posts deste blog tive ocasião de dizer que o que nos unia era sermos, de uma forma ou de outra, filhos do Vale Interior (e do próprio 'interior') e da info-exclusão.
As razões - que são só uma - são diferentes, e os textos também. O primeiro é ligeiro e engraçado, e se não tem, na mente da autora, directamente a ver com info-exclusão, para nós, assumidos info-excluídos (com melhoras), a relação é óbvia. Bem como a identificação com as situações descritas. O nosso conceito de info-exclusão é um bocado abrangente. Para terem uma ideia, eu julgo que a partir do momento em que os televisores começaram a ter um comando à distância, por exemplo, o mundo (exterior) nunca mais foi o mesmo. Não foi isso o início de nada, porque se trata de um processo, mas é um marco de uma tendência que se pode resumir nesta ideia: com um gasto mínimo de calorias podemos percorrer o mundo desde os desenhos animados americanos até à Rússia de Carlos Fino. Só que era preciso saber sintonizar a televisão, coisa simples até então. Assim, só no interior, onde não são pedidas tantas competências tecnológicas para usufruir da cidadania, nos sentimos menos excluídos. Mas não se pense que não reconhecemos a importância da internet, e todas essas coisas. Aliás, estamos a adorar a experiência de ter um blog. O problema, para além de um certo endeusamento parolo de todas estas alfaias, está no facto de as coisas não funcionarem da maneira que nós queremos. E isso irrita. E faz-nos andar sempre a correr atrás dos técnicos, técnicos esses, ou outros, que concebem as coisas prenhas de toda a espécie de complicações, para depois nos virem desenrrascar quando estamos aflitos, os porreiros. Bom.
Tive dúvidas quanto à colocação do link do segundo post. Devo admitir que, ao fazê-lo, tenho um pouco aquela sensação de estar a brincar com coisas sérias. É certo que nós vamos falando, à nossa maneira, de problemas como os que afectam o interior (ou essa era a ideia), entre outros, mas a tónica deste blog tem ficado a dever mais à análise de mesa de café e à galhofa do que à reflexão séria, atenta e oportuna, como a que está na base do texto de que falo. Seja como for, a preocupação genuína (e séria, também) quanto aos problemas nele tratados - que não têm só, nem sobretudo, a ver com o interior - são partihados por todos os que contribuem para este blog.
Cá vai:

Saturday, December 6, 2008

El chino torero




A cena tauromáquica alternativa está cada vez mais ao rubro. Encontrei este cartaz numa airosa, distinta e, de seu natural, mui serena localidade, algures na região do Vale Interior. Há um toureiro chinês e forcados anões!


Mas não sei se me deixo seduzir. Falta ali qualquer coisa mesmo 'fora'. Talvez um touro com duas cabeças (e um cavalo sem nenhuma), um cavaleiro transexual que cantasse e fizesse contorcionismo, uma pega pelo Grupo de Patinadoras no Gelo da Chamusca, mas com os respectivos patins, para dar uma hipótese ao touro. Se tivessem falado comigo poderiam ter feito qualquer coisa que valesse a pena, quase ao nível dos eventos TVI.

Wednesday, December 3, 2008

Lanterna mágica

The Mystery Of Bulgarian Voices & Music - Tragnala e malka Moma

Monday, December 1, 2008

Primeiras neves


Na salinha onde escrevo este texto faz um frio que não se pode. Estou na nossa Eiras de Sabaio, neste fim-de-semana pródigo: um dia de bónus e muita neve. Vim para aqui porque é o único local da casa onde tenho Internet instalada. Ainda estou a pensar se valerá ou não a pena procurar uma ficha tripla e mudar-me para a sala, onde há uma lareira, uma televisão e (apenas) uma tomada (a casa é muito antiga). Não teria Internet, mas gravava o texto no Word. Mesmo durante o dia, esta divisão é gélida, no Inverno. Já comprei um sistema wireless, mas não o sei instalar. Preciso de chamar cá um técnico.
Acontece que andei todo o dia com a expectativa de poder ‘postar’ qualquer coisa sobre o cenário belíssimo em que se transformou a nossa região, com a neve abundante que tem caído. Acertámos em cheio na data que escolhemos para visitar a terrinha. Está tudo branquinho, está. O Vale Interior, para desgosto da minha filha, acaba por ser a zona onde o nevão foi mais brando. Mas tirámos o dia de hoje para passear por esses cumes e encostas, ao som de uns vilancicos renascentistas que me emprestou o Camelo. Tudo, cada árvore, cada arbusto, casa ou lenha, está coberto de branco. As pessoas dizem que é pão, porque quando o gelo começar a derreter nenhuma água se perde; em vez disso, toda ela será absorvida pela terra, lentamente. Mas é uma pena que não se possam preservar alguns destes postais. Uma rocha que não perdesse aquela côdea de creme, como eu referi às tantas, por exemplo. A minha filha também se saiu com uma de um fontanário que parecia um bolo de noiva... Enfim, o espectáculo da neve encanta miúdos e graúdos, faz parte do nosso imaginário.
Tive vontade de tirar umas fotos, coisa que raramente me acontece, mas máquina não uso, e o telemóvel é o mais simples possível, como deve ser o de qualquer bom info-excluído. Daí, talvez, ter sentido necessidade de vir aqui escrever alguma coisa. Escrever que é magnífico quando o sol faz brilhar a neve, nós saímos do carro numa aldeia quase toda branca num momento assim, só as pessoas e o granito ainda à mostra nas paredes tinham outras cores. Não fizemos muito mais, mas respirámos profundamente um ar frio e bom, rimos às baforadas, catrapiscámos a luz e o branco e jogámos à apanhada e às bolas de neve, tudo misturado.
É-me grato mas difícil escrever isto, porque o frio que sinto agora, ao contrário do que senti durante o passeio, está a incomodar-me. E essa ideia, a de um frio que pode ser ora cruel ora revigorante e alegre, é um incómodo acrescido. Já fui buscar umas luvas, mas descobri uma coisa maldita: o rato do portátil, aquele rectângulo sensível ao toque dos dedos, não obedece ao tecido da luva. Nem se mexe. É uma frustração, tanto mais que não é possível tirar um dedo que seja da luva. E um dedo era só o que eu pedia. "Tudo ou nada", é o que as luvas dizem às minhas mãos, que vão fazendo turnos.
E é ainda mais frustrante do que isso, porque eu até tenho um rato 'dos outros', mas nunca o liguei, por preguiça e por info-exclusãosice. Entretanto (duas ou três linhas atrás, e numa altura em que já andava a experimentar usar a ponta do nariz - sabem lá o frio que faz aqui!) a minha mulher pediu-me para ir buscar lenha (para a fogueira, onde elas se aquecem), e acabei por molhar um pouco as luvas, ao atravessar um pátio. O que me levou à descoberta triunfal de que o rato se deixa manipular se as luvas estiverem ligeiramente húmidas. Se lhe faz mal à saúde ou não, não sei, mas agora quero é acabar o texto. Fico feliz, para além do mais, por me dar conta que não é impossível que um fortuito info-excluído que leia estas linhas possa, também, usufruir desta técnica revolucionária.
Por fim, com as mãos mais protegidas, ainda me dei ao luxo, depois de (supostamente) ter terminado este escrito, de navegar um pouco por outras páginas. Não resisti (e é por isso que não está a escrita feita ainda) a contar que, a páginas tantas, dei por mim, distraído, a humedecer a ponta do dedo (da luva) para poder usar o rato, tal como alguém que lê um livro faria para - lá está - mudar a página. Senti-me um pouco menos info-excluído e quase pronto para, a partir desta imagem tão simbólica e tão plena de significado, fazer outro texto, ainda mais repleto de reflexões mais profundas do que aquelas que aqui ficaram expressas.
Mesmo tendo em conta que bastaria dizer: que bonita é a neve.

Saturday, November 29, 2008

Encontrei isto

É uma história engraçada, quase teatro de comédia (tenho ideia que já ouvi algures algo parecido, mas posso estar enganado), que encontrei aqui.

(Aliás, quem a encontrou foi um comparsa, que gosta mais de ler e comentar os blogs dos outros do que escrever no seu, mas enfim.)

Friday, November 28, 2008

Entrevistas a pessoas da nossa terra



A srª. Maria dos Anjos Sobral vive no lugar dos Malheiros, mas é conhecida em quase toda a freguesia de Romaride. Em tempos foi das pessoas que mais protestaram contra o encerramento de uma instituição de apoio a crianças pobres de Romaride, porque os homens tinham emigrado e pouca gente sabia ler e escrever. Ela era, aliás, das poucas mulheres que não eram analfabetas. Soube criar os filhos e os netos, e ainda ajudou e participou, ao longo dos seus 82 anos, em várias associações e iniciativas, como o Rancho Folclórico de Romaride.

Filipa – A srª Mª dos Anjos como é que aprendeu a ler?
Srª Maria dos Anjos –
O meu pai era lavrador e teve seis filhos. Só os dois mais novos é que foram rapazes, as quatro primeiras tudo raparigas. Eu sou a terceira, a Custódia era a mais velha. E eu fui a única das minhas irmãs que aprendeu a ler. Isto porque a minha irmã Custódia foi servir para um padre que nessa altura veio para Romaride aos doze anos. E eu não podia ficar em casa sozinha, ia mais ela e por lá estava, quando assim calhava. E foi com a irmã do padre, que era mais velhota que ele (e ele também já não era novo), que eu fui começando a aprender.

Filipa – E foi fácil?
Srª Maria dos Anjos –
Ah, aprendi como os outros! Os que puderam, quem podia aprendia. Mas nunca fui muito rude, sempre gostei de aprender de tudo.

Filipa – E depois as outras raparigas iam ter consigo para lhes escrever as cartas aos namorados, não era? Não ficava atrapalhada por estar a escrever coisas de namorados?
Srª Maria dos Anjos –
Escrevia para raparigas e rapazes, escrevia para quem calhava. Mas elas eram mais velhas, já raparigas com ideias de casar. E outras casadas. Eu não pensava ainda em namorar, tão pouco. Sempre escrevi cartas, desde os meus doze ou treze anos.
Os homens, coitados, iam trabalhar para longe e depois falavam-se era por carta, com os familiares e com as namoradas – ou até outros assuntos. Mas era com respeito, [porque] tudo o que eu escrevia era na mesa da sala, elas ditavam e eu é que escrevia. Mas o meu pai e a minha mãe estavam sempre à disposição de entrar. E que não estivessem, para mim não fazia diferença. Naquela altura o namoro, propriamente, era diferente do de agora.

Filipa – O meu avô é que me disse que a srª sabia alguns segredos dos namorados, mas segredos sem maldade, e que por isso toda a gente a queria como amiga nas festas. Como é que eram essas festas? E o que acha das diversões dos jovens de agora?
Srª Maria dos Anjos –
Olha, vou-te dizer, tu que idade tens minha rosa?

Filipa – Dezasseis.
Srª Maria dos Anjos –
Andei contigo ao colo, já a minha neta mais nova andava na escola. Tu ainda não foste estudar para fora?

Filipa – Não.
Srª Maria dos Anjos –
Já sabes o que vais seguir?

Filipa – Não sei. Talvez jornalista.
Srª Maria dos Anjos –
Sim. Eu só comecei a ir a algumas festas, assim pelo dia, quando era da tua idade, mais ou menos. Àqueles bailes à noite, que às vezes havia aqui ou ali, nunca fui, nem em casada nem em solteira. Só o que é … eu era muito boa companheira, e sabia as canções, os versos, sabia aquilo tudo. Não era pelo dançar que eu lá ia. Sempre fui muito amiga de aprender. Dos meus irmãos todos, rapazes e raparigas, só eu é que sabia aquelas coisas dos antigos, dos nossos pais, nossos avós, e ainda sei a grande parte delas. E era por isso que toda a gente se queria dar comigo. Puxavam por mim, e eu cantava, não era pelo dançar ou isto ou aquilo que eu lá ia. Sempre gostei de cantar, e cantava, está claro, não cantava mal, pelo que diziam [risos]. Mas agora dizendo mesmo verdade das coisas como elas eram, nunca fui cá de agarramentos, isso assim não!

Filipa – Depois casou, o seu marido também foi emigrante e a srª é que ficou a tratar dos filhos. Eram tempos difíceis?
Srª Maria dos Anjos –
Criei os filhos e os netos, com a ajuda dos pais claro. Tudo aprendeu a ler e a escrever comigo! A fazer contas, muitas cantigas… sei lá! Agora alguns já estão formados, outros para lá caminham.
Mas trabalhava muito, pronto. Era uma vida… de trabalho, sempre toda a vida. Mais nada.

Filipa – E como é que foi naquela altura em que queriam encerrar a casa da criança?
Srª Maria dos Anjos –
Bom, isso era uma coisa que queriam fazer… era para passar para outro sítio, mais afastado daqui da região. Mas havia aqui muitas crianças pobres… em Romaride, em Eiras [de Sabaio], Valinhos, e outras. O povo opunha-se muito a isso. A casa já cá não está, pelo menos como ela era, mas enquanto cá esteve fez muita falta, e veio tudo dessa altura, da força e da luta do povo de Romaride. Disso nunca mais me esqueço.
Eu conhecia uma pessoa da direcção daquela obra, daquela assistência, em Coimbra, que era a irmã Adélia. Era uma pessoa dos conhecimentos do padre de Romaride. Ele, o padre, é que achou que era melhor ser eu a escrever para ela, também porque via que eu era das mais interessadas no caso, além de não haver muita gente a saber escrever, naquele tempo, os homens grande parte deles estava fora... E era para ela ver o que é que as pessoas da terra pensavam, os casos de miséria que por aí havia e isso tudo assim.
Escrevi muito, de negócios, terras, casamentos, ajudei muita gente, posso-o dizer, graças a Deus, mas esta carta foi a que mais gosto me deu escrever. Em nome das mães e das crianças mais desagasalhadas.

Filipa – Eu concordo com tudo. Mas falando de outras coisas, a srª teve um papel muito importante no nosso rancho. Quer falar disso?
Srª Maria dos Anjos –
Papel importante tem o teu avô [risos]. Andei nisso do rancho, mas só para ensinar as modas, não tinha tempo para andar a cantar. Nem a dançar [risos]. Isso é bom é para ti [risos]. Gostava de te ver lá, a dançar!

Tuesday, November 25, 2008

Litorânea




No último fim-de-semana fui passear ao litoral de Portugal. Há inúmeros lugares lindíssimos à espera de serem descobertos, uns mais remotos do que outros, e eu acho que a praia tem um encanto especial no Inverno. Com as novas acessibilidades, para mais, o Litoral já não está assim tão isolado do resto do país.
Comprei uma máquina nova recentemente, em breve tratarei de colocar aqui mais fotos, incluindo algumas do nosso Vale. Espero.

Thursday, November 20, 2008

É muita frescura

O percursso da nossa selecção, de há um tempo para cá, tem sido tenebroso. Temos perdido ou empatado demasiadas vezes com equipas de um nível claramente inferior ao nosso (tão inferior que nem me lembro bem quais foram: Albânia? Azerbeijão?).

Agora até já nos permitimos perder com o Brasil, um país mais conhecido pelos cantores, actores, publicitários e gestores de companhias aéras que, não poucas vezes, dão um bigode aos nossos. A nível mundial, destaca-se pela emergente pujança da sua economia, pela importância política que lhe vem sendo reconhecida e pela afirmação da sua cultura e da sua língua. Até entre nós se nota essa marca, bem visível em vocábulos como bicha, no campo dos costumes frescos, e acessar, no campo das novas tecnologias. Não é que não existissem esses costumes e essas tecnologias antes, mas as palavras novas ajudaram a descomplexá-los um pouco, a torná-los mais acessáveis, ao nível do discurso. Estas considerações podem parecer irrelevantes para o assunto que nos trouxe aqui, seja ele qual for, mas a verdade é que o vocabulário pode ajudar a revelar a verdadeira cultura um povo, a qual não é mais do que o resultado da combinação de gentes que semeiam determinada terra, condicionadas por um clima específico, num dado período de tempo. E é sob esta perspectiva que melhor se pode apreciar a exuberância e a riqueza daquele alfobre, que já foi nosso.

Seria exaustivo fazer qualquer espécie de lista com os principais frescos produzidos no Brasil, mas se atendermos só ao que se passou ontem, podemos analisar alguns dos que mais estiveram em jogo, a sua ressonância exótica, ainda que nem sempre bela, ao mesmo tempo que os comparamos com alguns dos nossos melhores tubérculos - vocábulos honestos mas mais secos, e já com barbas - evidenciando assim a frescura alegre de uns e o desconsolo da cara de bigode murcho de outros :

Dunga 6 - Queiroz 2
Escrete 6 - Equipa de todos nós 2
Anderson 6 - Quim 2
Confederação 6 - Federação 2
Canarinha 6 - Verde-rubra 2
Time 6 - Equipa 2
Goles 6 - Golos 2

Quem pensava que o Brasil se distinguía, sobretudo, por aquela maneira engraçada de falar, por ser um dos maires exportadores mundiais de produtos agrícolas e filmes sobre a realidade das favelas e prisões, ou por ter concebido um sistema que permite que uma quantidade assinalável de carros, e não de condutores, circulem impulsionados pelo álcool, enganou-se redondamente: eles, afinal, sabem jogar à bola.
Ainda assim, é caso para perguntar: era mesmo preciso tanta frescura (e um bigode assim tão grande)?