Saturday, February 7, 2009

A formiga e o lobo

(completa)

Uma formiga batedora andava a explorar o areal húmido que rodeava uma poça quase seca quando se deparou com um buraco. A forma perfeita da enorme cratera levou-a a pensar tratar-se uma pegada muito recente de um animal que por ali andasse. Subiu a uma erva para avaliar melhor e logo percebeu que tinha sido um lobo o responsável.
As formigas batedoras são escolhidas pela sua capacidade de raciocínio e curiosidade, e esta não era excepção. De imediato se lançou numa grande correria, tentando alcançar o lobo que, com toda a certeza, não andaria longe. Por sorte, avistou-o pouco depois junto a uns arbustos. Parecia estar muito concentrado, observando qualquer coisa a boa distância. Tal como suspeitara, tratava-se de um velho conhecido seu. Na verdade, conhecer outros animais - e assim aprender coisas novas, contactar com diferentes maneiras de pensar ou simplesmente conviver - era muito do agrado da formiga. O preço a pagar era ser olhada com certo desdém pelas suas irmãs. Mas esta formiga sabia bem que as tarefas extenuantes e monótonas que as outras tinham de fazer as deixavam incapazes de, ao menos, vislumbrar quanto perdem por nunca se desviarem do carreiro.
Entretanto, a formiga aproveitou a paragem do lobo para se aproximar. Começara já a chama-lo quando este partiu de cabeça baixa, num trote silencioso. A formiga bem correu, gritando «lobo, amigo!», mas as suas pequenas patas não lhe permitiriam alcançar um ouriço coxo, e a sua vozinha era quase tão fraca quanto o som de um pingo de chuva.
Não lhe restou se não subir arbusto acima para ver no que aquilo ia dar. Oh, que belo animal era o lobo! E que astuto e audaz! Primeiro aproximou-se silenciosamente da sua presa. Depois, possante, derrubou-a de um salto. Quase não precisou de correr.
A formiga deixou-se ficar numa folha, a observar. O lobo comeu tranquilamente, regressando depois pelo mesmo caminho. Quando já estava suficientemente perto, a formiga surpreendeu-o com este cumprimento:
- Olha quem é ele! Vê lá se soubeste trazer alguma coisa para os amigos…
- Não avisaste! – respondeu o lobo com um sorriso.
- Eu chamei-te, tu é que não ouviste. E eu que me contentava com uma lasquinha qualquer…
- Ah sim? – perguntou o lobo. – Não seja por isso! Tenho aqui uma entre os dentes. Tiras-ma e é toda tua. Só a aflição que me está a dar!
- Pois, isso é chato, é.
A formiga teve pena do lobo, um animal nobre e valente que se via agora atormentado por um pedacinho de carne do bicho que matara. Não deixou de se perguntar: «E se ele aproveita para me devorar também?» Mas logo concluiu: «Não o fará. Os corajosos não atacam os fracos dessa maneira. Só os cobardes o fazem». Sem saber muito bem o que fazer, e depois de um silêncio embaraçoso, acabou por lhe dizer:
- Eh, eh, o que tu queres sei eu!
- Oh, achas? Estás a brincar, não?
- Claro!
- Então vá – disse o lobo, abrindo a enorme boca junto à folha onde a formiga ainda estava.
Foi então a vez de a formiga mostrar a sua agilidade, saltando para a língua do lobo. Sentindo-a a fazer umas levíssimas cócegas, o lobo deu por si a pensar: «É tão franzina! Como pode ela achar que eu tiraria o mínimo proveito das suas poucas carnes? Uma sobremesa, talvez….»
Ainda um pouco perturbada com o que sugerira, a formiga avançava sobre aquela superfície movediça enquanto ia dizendo:
- Não, é que às vezes podias distrair-te… é só isso.

Esta resposta deixou o lobo pensativo por alguns instantes, mas logo se resolveu por incentivar a pequena batedora:
- É mesmo isso, aí.
A formiga estava a fazer o melhor que conseguia, tentando concentrar-se no trabalho e não nos seus receios. Procurava até que o lobo percebesse isso mesmo, e no entanto… não se coibia de segregar tanto ácido fórmico quanto conseguia. Afinal, sempre era bom que os animais grandes e poderosos, como os lobos, soubessem que aqueles que julgam fracos nem sempre se deixam engolir sem amargos de boca nem azias de estômago. Seria caso para pensar que era a honra das formigas que estava em causa, mas a verdade é que a formiga não se permitia perder muito tempo com tais conjecturas. E então respondeu-lhe:
- Pois é isto, amigo, mas é complicado. É preciso é calma.
- Sim.
- Desculpa lá estar a usar as pinças desta maneira, mas é só mais um bocadinho. Dói-te?
Toda esta azáfama parecia divertir o lobo, que pensava: «Está a fazer-se picante! Será que pensa que é isso que me impede?»
- E que doesse! O que arde cura, hihihi!
- …
- É ou não é?
- Olha, amigo, lá isso é verdade. Lá isso é verdade, é.
Como se de um gesto súbito e involuntário se tratasse, o ácido deixou de fluir. Cada vez mais divertido, o lobo ria com despudor. Quanto mais se tentava conter, mais sonoras eram as gargalhadas, colocando a formiga em sério risco de ser engolida inadvertidamente. Esta, desesperada por se livrar daquele perigo mortal, deixou de remexer com as pinças e imobilizou-se completamente. Depois, como se quisesse provar a si própria e ao lobo que não estava assustada, resolveu usar as patas para corresponder, com umas cócegas em plena língua, àquele riso tão desconcertante.
Fosse das cócegas ou fosse de adivinhar o desespero que as motivou, a verdade é que as gargalhadas do lobo passaram de incontidas a caso perdido e descontrolado. E em muito boa hora para a formiga, que assim se viu expelida com violência, entre risadas.
Enquanto um e outro se recompunham, dirige-se a formiga ao lobo nestes termos:
- Agora ia correndo mal, ou quê?
- …pois, nem por isso. Isto está tudo controlado!
- Ah, isso tem que ser. Vá lá, vá lá.
- E obrigado.
- Sempre saiu a carne?
- Olha, está aqui. Queres? Se queres vê lá!
- Não, vou andando.
- É?
- Vou. Xau.
- Então vá. Quando vieres para estes lados vê lá se dizes alguma coisa.
-Sempre.
-…
-...
- Olha, a sério, desculpa lá estar-me a rir e não sei quê, está bom?

5 comments:

Tari said...

Está engraçado.
Acho apenas que a frase final era escusada. Está meia sem jeito e abrasileirada mas se era essa a intenção está bom e é só a minha opinião ;)

Beijinhos e continuação de boas pequenas histórias**

Camelo said...

Sim, talvez esteja a mais a última frase (e outras, mais do que essa, até).
A ideia não era que ficasse abrasileirada mas 'atrapalhada', engasgada, qualquer coisa assim.
A intenção era realmente que todos os diálogos fossem meio sem jeito :)

Tari said...

Sim, isso eu percebi. E estão simples, meios sem jeito mas cómicos (resultam na sua maioria).
Só não me soa muito bem o "está bom?" no final mas posso estar a discriminar a frase sem motivos demais.

Continua a escrever que eu continuarei a ler ;)

Beijinhos**

Camelo said...

Agradeço os teus comentários e simpatia, e beijinhos antes que me esqueça, tu é que nunca te esqueces :)

Deu-me na cabeça escerver a parte narrativa mais ou menos como se fosse um conto infantil e os diálogos parecidos com certas conversas de circunstância um bocado estereotipadas e mais ou menos vazias desfazadas daquilo que se sente realmente, tentei imaginar o que podia ser o diálogo entre dois gajos da minha zona que se conhecessem não muito bem, e que se encontram quando um deles fura o pneu de um carro, ou assim, vê lá tu; uma situação em q haja quase uma obrigação de falar, sei lá ).
E isto precisamente porque pensei que assim realçava mais o que não era dito, a ambivalência de sentimentos, tretas assim.
Mas eu só cá vim ver a bola, como já disse, quando tento rematar já sei que o mais certo é a bola sair do estádio.

Sobre o 'está bom', na minha zona às vezes fala-se assim, especialmente quando a frase é interrogativa e se quer dar um tom mais 'sentido' - e quando as pessoas não têm ou não querem ter uma linguagem muito formal - o 'está bem' fica mais impessoal, ou parece-me a mim que é isso. E eu queria que o lobo acabasse por perder alguma da jactância e finalmente reconhecesse que dava algum valor àquela 'amizadezita com a formiguita', ou que não parecesse que não dava.

Eu gostava de escrever mais, (e gostava era de escrever bem), mas não tenho muito tempo.

Fica bem, está bom? :)

Tari said...

Obrigada pela maçada e preocupação em explicar tudo direitinho.

Está bom sim!!!

Fiquei completamente esclarecida.

Eu é que pelos vistos vim cá só ver a bola e ainda não estava familiarizada com este tipo de diálogos típicos.

Acho que as imagens mentais que fazes ao escrever já são elas um exercício e preocupação de quem tenta e quer escrever bem e, como já disse, na minha opinião saíste-te bem.

Beijinhos** (que não falham não)