Monday, December 1, 2008

Primeiras neves


Na salinha onde escrevo este texto faz um frio que não se pode. Estou na nossa Eiras de Sabaio, neste fim-de-semana pródigo: um dia de bónus e muita neve. Vim para aqui porque é o único local da casa onde tenho Internet instalada. Ainda estou a pensar se valerá ou não a pena procurar uma ficha tripla e mudar-me para a sala, onde há uma lareira, uma televisão e (apenas) uma tomada (a casa é muito antiga). Não teria Internet, mas gravava o texto no Word. Mesmo durante o dia, esta divisão é gélida, no Inverno. Já comprei um sistema wireless, mas não o sei instalar. Preciso de chamar cá um técnico.
Acontece que andei todo o dia com a expectativa de poder ‘postar’ qualquer coisa sobre o cenário belíssimo em que se transformou a nossa região, com a neve abundante que tem caído. Acertámos em cheio na data que escolhemos para visitar a terrinha. Está tudo branquinho, está. O Vale Interior, para desgosto da minha filha, acaba por ser a zona onde o nevão foi mais brando. Mas tirámos o dia de hoje para passear por esses cumes e encostas, ao som de uns vilancicos renascentistas que me emprestou o Camelo. Tudo, cada árvore, cada arbusto, casa ou lenha, está coberto de branco. As pessoas dizem que é pão, porque quando o gelo começar a derreter nenhuma água se perde; em vez disso, toda ela será absorvida pela terra, lentamente. Mas é uma pena que não se possam preservar alguns destes postais. Uma rocha que não perdesse aquela côdea de creme, como eu referi às tantas, por exemplo. A minha filha também se saiu com uma de um fontanário que parecia um bolo de noiva... Enfim, o espectáculo da neve encanta miúdos e graúdos, faz parte do nosso imaginário.
Tive vontade de tirar umas fotos, coisa que raramente me acontece, mas máquina não uso, e o telemóvel é o mais simples possível, como deve ser o de qualquer bom info-excluído. Daí, talvez, ter sentido necessidade de vir aqui escrever alguma coisa. Escrever que é magnífico quando o sol faz brilhar a neve, nós saímos do carro numa aldeia quase toda branca num momento assim, só as pessoas e o granito ainda à mostra nas paredes tinham outras cores. Não fizemos muito mais, mas respirámos profundamente um ar frio e bom, rimos às baforadas, catrapiscámos a luz e o branco e jogámos à apanhada e às bolas de neve, tudo misturado.
É-me grato mas difícil escrever isto, porque o frio que sinto agora, ao contrário do que senti durante o passeio, está a incomodar-me. E essa ideia, a de um frio que pode ser ora cruel ora revigorante e alegre, é um incómodo acrescido. Já fui buscar umas luvas, mas descobri uma coisa maldita: o rato do portátil, aquele rectângulo sensível ao toque dos dedos, não obedece ao tecido da luva. Nem se mexe. É uma frustração, tanto mais que não é possível tirar um dedo que seja da luva. E um dedo era só o que eu pedia. "Tudo ou nada", é o que as luvas dizem às minhas mãos, que vão fazendo turnos.
E é ainda mais frustrante do que isso, porque eu até tenho um rato 'dos outros', mas nunca o liguei, por preguiça e por info-exclusãosice. Entretanto (duas ou três linhas atrás, e numa altura em que já andava a experimentar usar a ponta do nariz - sabem lá o frio que faz aqui!) a minha mulher pediu-me para ir buscar lenha (para a fogueira, onde elas se aquecem), e acabei por molhar um pouco as luvas, ao atravessar um pátio. O que me levou à descoberta triunfal de que o rato se deixa manipular se as luvas estiverem ligeiramente húmidas. Se lhe faz mal à saúde ou não, não sei, mas agora quero é acabar o texto. Fico feliz, para além do mais, por me dar conta que não é impossível que um fortuito info-excluído que leia estas linhas possa, também, usufruir desta técnica revolucionária.
Por fim, com as mãos mais protegidas, ainda me dei ao luxo, depois de (supostamente) ter terminado este escrito, de navegar um pouco por outras páginas. Não resisti (e é por isso que não está a escrita feita ainda) a contar que, a páginas tantas, dei por mim, distraído, a humedecer a ponta do dedo (da luva) para poder usar o rato, tal como alguém que lê um livro faria para - lá está - mudar a página. Senti-me um pouco menos info-excluído e quase pronto para, a partir desta imagem tão simbólica e tão plena de significado, fazer outro texto, ainda mais repleto de reflexões mais profundas do que aquelas que aqui ficaram expressas.
Mesmo tendo em conta que bastaria dizer: que bonita é a neve.

7 comments:

Lucinda said...

De facto é bonita a neve, mas tabém é frrria. Bom mesmo é acordar numa dessas aldeias isoladas, vir à janela e ver a neve a cobrir tudo. É de cortar a respiração. A beleza e o silêncio invadem tudo. Até parece que a natureza manda calar fez chhhhhh... e todos admiram o espectáculo.

serrão said...

Viva.
A beleza e o silêncio, é isso. Devia ter usado a palavra 'silêncio', porque ele se 'ouve' mais, com a neve.
A neve muda a terra, talvez não mude o mundo, mas faz o tempo andar mais devagar, e ao som do silêncio.
Meu Deus, nunca pensei pôr-me com tantos lirismos por causa da neve, mas fiquei fascinado.
(tanto que, depois do pessoal se deitar, trouxe para aqui o aquecedor e vim procurar uns videos sobre o assunto. Talvez ponha algum amanhã, se tiver tempo antes de abalar para a grande metrópole).
Obrigado pelo comentário

teresa said...

Depois de ter lido este bonito pedaço de prosa, dei comigo a pensar que, ao reclamarmos do tempo, ficamos cegos para todos estes recantos de silenciosa beleza.
Regressando agora à realidade, ainda acredito que, mais a Sul, possamos ser contemplados, um dia destes, com alguns farrapitos brancos:)

Serrão said...

O tempo, para o bem e para o mal, é um companheiro especial. Tem emoções.
Com todas estas situações climatéricas estranhas - extremas, até - que temos presenciado, qualquer dia Lisboa (não sei se a Teresa aí vive, mas o exemplo serve para outros locais) acorda mais branca do que já é.

Tari said...

Gostei especialmente da comparação da neve com pão (e sua credível explicação) e da luva molhada que faz mover o rato.

Gosto também da distanciação da visualização da imagem com outros momentos menos sérios que fazem o texto saber melhor.

Beijinhos**

Majo said...

Lindo texto. E muito bem (d)escrito. Quase se sentiu o frio puro da neve.

Aqui na minha terra não neva, com raríssimas excepções. Eu gosto de ver neve, em especial nas montanhas. Aí sim podemos "ouvir" o silêncio e sentir a pureza do branco.

Parabéns pelo blog. Gostei e vou voltar.

Bjinho gelado

P.S.: Excelente dica, a do rato... experimentei e dá certo! lol :D

serrão said...

Obrigado pelas palavras simpáticas, Majo.
Ainda bem que a dica deu resultado.
Neste blog talvez nem tudo seja o que parece '(exteriormente', digamos), à 1ª vista.
Mas 'interiormente' bate quase tudo certo.
E isso é que conta, digo eu.
Por isso... volte sempre!