Sunday, December 21, 2008

Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais

Resolvi escrever um ‘ouvindo conversas, …’ especial, por causa de uma conjugação de factores (ou de astros), que me começaram a provocar redemoinhos dentro da cabeça numa altura em que eu queria passear de pijama no quintal, apanhar e comer ou abençoar tangerinas e sol e atirar as cascas ao desvairado Fugas ou deixá-las no chão.
Quintal ou blog? E\ou.
Uma das vizinhas que assumiu o protagonismo do último ‘ouvindo….' adoeceu, espero que sem muita gravidade . É interessante como numa comunidade pequena este tipo de coisas é sempre notícia. Para o bem ou para o mal, há uma rede global (queiram ou não, todos os habitantes da aldeia são englobados) que impede que acontecimentos desta natureza sejam ignorados. Há sempre alguma partilha, parte dela, por ventura, inconveniente.

A srª. Irene Bisgata contava-me ontem coisas da sua juventude, vivida há perto de 70 anos, “andávamos sempre juntos, aquele rancho de gente, olha o Albino João era um! Era as Carriças! As Marcialas, os Queridos, os Sapateiros, o pai daquela (…). Íamos a todo o lado, trabalhar para uns, trabalhar para outros. Olha que íamos à Sé [na sede do concelho, a 25 km] aos [umas cerimónias religiosas cujo nome não fixei] a pé, e para cá de comboio! [Pergunto porque não iam de comboio também, não havia?] Havia, só que era mais engraçado ir a pé, divertíamo-nos muito, íamos sempre a cantar, depois para cá vínhamos da estação até aqui a pé [5 km] sempre a cantar ainda, vínhamos ali para cá do Paul e já nos ouviam cá ao fundo. Quando chegávamos à casa da [?] tínhamos que cantar outra vez porque ela não nos deixava de lá sair sem ouvir a gente. A Duarta tinha uma grande voz, nunca vi para fazer segundas vozes, assim, para baixo, A senhora um dia sozinha se achava, a Deus mil louvores em silêncio dava, a gente sempre com voz própria e ela na segunda voz, uma voz boa. Depois As preces de um anjo e ela, para baixo, As preces de um anjo diz (…) alguém, tu és lá do Céu, bendita ó Maria. Quando era altura da batata lá ia aquele rancho para a batata, quando era para a sacha era tudo assim! Íamos semear o milho para este, depois para aquele, apanhar o nosso, depois o daquele… Tínhamos aí o milho para descamisar, logo de madrugada chegava o Elias… ele gostava muito de agarrar assim duas telhas e falava para os outros. Punha-as assim [em tubo, junto à boca] e começava AAQUIII NAA EIIRAAA DAAS BISGAAAATAAS HÁ AQUIII MUUUIITO MIILHOOO PARAA DESCAAMIISAAAAR!!! Passada meia hora estava aí isso cheio de pessoal, telefonavam-se assim uns para os outros”.

É curioso que ela tenha dito que se telefonavam. Não se pense que na altura não havia telefones. O info-excluído@pessoa diz que conheceu alguém que, mais ou menos por esta altura, tinha telefone. E já tinha número atribuído: o 20! Há aqui um texto que, porque não, serve de contraponto a este no que respeita aos avanços da tecnologia. Um dos comentários é do info-excluído e fala desse telefone com número de dois dígitos, na era analógica.

No comments: