Sunday, May 31, 2009
Monday, May 25, 2009
Bem fixo
Em muitas escolas públicas portuguesas, no entanto, por cima do quadro negro, ainda se pode ver o crucifixo. Há tempos houve falatório nos media a este respeito, mas eu pensei que se tratasse de casos mais ou menos isolados, em vias de normalização (sim, ora!). Acontece que, neste ano lectivo, tenho tido oportunidade de visitar muitas escolas do meu agrupamento e tenho verificado que não é assim. Vários colegas, aliás, têm-me confirmado isso mesmo.
Bem sei que este não é o problema mais grave que o mundo tem pela frente, que no domínio da educação nacional há assuntos mais preocupantes (“que mal é que isso tem?”, é o que me dizem alguns), mas é precisamente esse tipo de mentalidade que tem permitido que as coisas se arrastem.
Imagino que grande parte dos colegas que trabalham nestas salas, sob a vigilância do crucificado, não se sinta propriamente confortável com a situação, mas algumas dúvidas quanto à responsabilidade pela tomada de medidas e o receio de eventuais reacções negativas (uma complacência lusitana típica) vão-se sobrepondo ao bom senso. E à lei.
Dizer que a religião e educação não são incompatíveis, ou que a religiosidade é um aspecto essencial do ser humano, etc. e tal, soa muito bem e é muito bonito, mas dar a entender que esses princípios genéricos têm alguma coisa a ver com o patrocínio, por parte do estado, de um símbolo religioso (e de uma religião em particular) é inaceitável. Idem aspas para a perspectiva contrária, se quisermos ir por aí: a religião (a católica, neste caso) no papel de ‘patrocinadora’da escola pública. Presentemente talvez se trate de um ‘ligação involuntária’, um legado do passado, mas que se pode falar numa ligação imprópria entre duas partes (caso se considere exagerado falar em ‘patrocínio’), pode.
Dizer que se trata de uma ‘questão cultural’ é igualmente incompreensível. Li algures uma opinião de um bispo que ia nesse sentido. Mas cultural como? Da mesma maneira que o Domingo se institucionalizou como dia de descanso independentemente do seu significado religioso? Mas como se pode dizer que o crucifixo, ou a cruz, o mais importante símbolo do cristianismo, não tem sobretudo um significado religioso? Se numa escola pública houver uma alusão a um motivo religioso num painel, numa pintura, num azulejo, por exemplo, ou mesmo numa história ou canção, aí sim, admite-se que se possa tratar de uma ‘questão cultural’. E convém ter isso presente antes de corrermos a queimar os textos e a partir os santinhos à martelada. Já o tradicional crucifixo, estrategicamente colocado num poiso altaneiro da sala de aula, dificilmente se pode deixar de ver sobretudo como um símbolo religioso, mesmo que seja também outras coisas.
Há casos e casos, mas se se transformasse uma escola actual numa ‘escola museu’ ela podia ser assim: o edifício é uma construção do Estado Novo - apenas está mais degradado- mas as mentalidades de quem neles trabalha mudaram (e no entanto…); as ardósias foram substituídas por ‘Magalhães’ (ainda que o computador da sala não funcione); as réguas, pequenas e de plástico, agora estão na mão dos alunos; as carteiras podem apresentar diversas disposições: em grupos de quatro, em sofisticada forma de ‘U’, etc.; o território que se pode ver representado no mapa de Portugal encolheu muito; o crucifixo continua bem fixo.
Friday, May 1, 2009
Tuesday, April 28, 2009
Batida beirã
Concentrados os caçadores, começa a algazarra. Há umas instruções, há o sorteio das portas, mas ninguém se concentra verdadeiramente em nada senão em conversa, entremeada com pão e malgas de vinho para quem quer. Só às dez e meia vamos para as portas.
O Princês acha que a nossa porta não é das melhores, mas só mo disse a mim, pelo caminho. Não quis estar a queixar-se durante o sorteio, como alguns, que culparam logo o azar por, na volta, poderem vir de mãos a abanar. Com uma porta enguiçada vive a gente bem! Quem conhece o Toino Princês sabe que é quase impossível ouvi-lo resmungar seja pelo que for, para mais em dia de caça. Se alguma coisa estava menos a seu jeito era não poder ficar a tratar do almoço, ainda se os javalis viessem ao encontro dos tachos, com a espingarda numa mão e a colher de pau na outra, era homem!
Bom. Ou isso ou já não é pouca a sorte se algum animal lhe vier desafiar a pontaria no sossego do posto de caça. Nem precisa de se apressar, que o lugar convida e estamos já postos em sossego também, assentando o que resta das ideias que fomos chamando à conversa no caminho para cá. Devo ser mais dado à morte da bezerra do que à de javalis, porque não me fixei verdadeiramente em nada da paisagem que nos envolvia senão quando a bicharada resolveu acrescentar-lhe o devido som de fundo, anunciando desta maneira que nos perdera o respeito e seguiria com a sua vida. E eu recostei-me como deve ser numa árvore e olhei.
Tanto que passado algum tempo deixei de esperar por qulaquer outra notícia. Só os cães, que já batiam os vales, conseguiam por vezes fazer-se ouvir acima da cegarrega geral instalada. Se não surgisse javardo até ao soar da corneta acabaria por amaldiçoar a hora em que metera pés ao caminho, tão aborrecidos podem ser os arbustos e o pouco mais que havia, depois de devidamente apreciados os cheiros, ervas e flores.
O Princês fazia-me gestos, apontava para ali e para acolá, como se me perguntasse “viste?” ou “ouviste?”, e eu acenava “aaah! sim, sim!” sem perceber se ele se referia a algum som, vislumbre ou cheiro de porco ou se me estava a tentar mostrar outra coisa. Por exemplo, algum dos pássaros de que me falara durante a tirada, como o melro, de que diz apanhar quantos quer. Até me ensinou meia dúzias de técnicas.
Mas a verdade é que eu não distingo o melro da cotovia. O que distinguia, entre os gestos apurados do velho Toino Princês, eram dois olhos em silencioso deslumbramento, como de quem não sabe muito bem se realmente pode estar ali, a viver o momento, e vai sorrindo com malícia e vergonha. Os mesmos que desde há mais de cinquenta anos estas terras vêem chegar-se à culatra, um aberto e outro fechado, alinhando a outra ponta com quase tudo o que nelas corra ou voe. “Cada vez gosto mais!”, diz-me. Nem a porta azarada consegue beliscar-lhe o gosto.
Com o passar das horas fomos ouvindo alguns disparos dispersos, mas a arma do Princês nunca foi chamada a prestar contas. A meio da tarde a caçada estava terminada e nós regressámos à base, onde nos concentrámos em novo e mais nutrido convívio com os demais. Desta parte da festa já eu sabia que tudo quanto viesse era ganho.
Wednesday, April 15, 2009
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
« Duma vez fui ao mato mais a comadre Marciala com uma podoa muito boa que o meu pai que Deus tem trouxe do Brasil, igual a uma que trouxe para ela também - duas valentes podoas! - e nisto ópois esqueceu-me a podoa no pinhal!
Tinha muita estimação nas podoas...
Lembrou-me o responso!
Rezei, rezei, rezei o responso! Ópois havia aqui um caminho, este não havia ainda nada, tinha ali uns alhos à beira do caminho. Uma ocasião vou a passar, lá estava a podoa!
A pessoa que acha ou rouba, bem a gente rezando o responso, já não tem parança! Lá se lembrou que havia de vir aqui regar os alhos e que eu a via, deixou-a e abalou.
Fui dizer à comadre Marciala e ela até dava beijos à podoa!
Eu, foi como Deus que me tivesse aparecido!»
(Irene Bisgata, 87 anos; hoje, Eiras de Sabaio)
Tuesday, March 24, 2009
Basso profondo (lanterna mágica, especial 'Fosso de orquestra')
Confesso que tenho este estranho hábito de associar pessoas a instrumentos musicais (neste caso à voz de 'basso profondo'). Pensei, assim, singelamente, em catalogar algumas figuras conhecidas - em especial as da política - de acordo com o instrumento que cada uma invoca na minha imaginação. Pode ser uma espécie de uma caricatura sonora, que, tal como acontece como as pictóricas, realça algumas características da personagem, ainda que de forma distorcida.
As audições têm decorrido diariamente, e sabemos que as qualidades musicais dos executantes nem sempre são as melhores. Ouvimos muitas vezes as suas desafinações e estridências. Por vezes uma ou outra doce melodia, em contraponto com as tiradas mais dissonantes. É música e também é ruído. Mas a excelência musical não é requisito importante neste Fosso de Orquestra. Eis o primeiro elemento:
Basso profondo - Manuel Alegre
Friday, March 13, 2009
A crise na Islândia
Em 2001 a palavra crise era pouco mais do que um eco longínquo na minha memória, Portugal ia de vento em popa e isso era para sempre. Mas a partir desse ano tivemos que voltar a pô-la ao uso, e agora a crise está nas bocas do mundo. Não é no futebol, mas em todas as coisas, que se verifica serem as verdades de ontem as mentiras de amanhã. Talvez não seja assim mas ao contrário.
Na minha cronologia da crise há um antes e um depois de 2001. Não sei explicar causas nem consequências, nem relacionar acontecimentos de forma coerente, mas lembro-me de pressentir que qualquer coisa estava a ficar fora de controlo quando se começou a falar do «problema do deficit» daquela maneira. Depois veio a crise política, governos a entrar e a sair sem mais nem menos, o Santana, coitado, chegou a ir para lá, a Justiça abanava por todos os lados, desvarios de todos os géneros, atrasos, desordens e desmandos, um belo cenário para as doses corridas de escândalos e casos que vinham com cada telejornal. Muitos dos problemas económicos que agora afligem o mundo têm origem, ou foram agravados, diz-se, por certas práticas que remontam a 2001, mais coisa menos coisa. A economia da Argentina colapsou, aprendi que um país podia «falir». No dia 11 de Setembro, atentados terroristas nas cidades americanas de Nova Iorque e Washington afectaram de forma profunda todo o panorama geopolítico. O mundo não acabou em 2000 mais do que em outros anos, mas parecia estar a ficar louco.
E no entanto sinto que muito do que está em causa é a percepção das coisas, a ideia de crise, e não tanto a realidade objectiva, nem as eventuais ligações, complexas, e eu não percebo nada disso, entre fenómenos isolados. Destes, alguns são mais alhos, outros bugalhos, mas para muita gente que alimentava ilusões é a alhada geral.
Depois disto, mais cínicos, mais sábios até, podemos encarar de outra maneira a inquietante situação da Islândia. Aquela gente, tenho visto reportagens, está a passar um mau bocado. O país faliu. Tem havido alguma instabilidade política também. A boa notícia é que a mudança é a coisa mais constante que há, como vimos. Porque hão-de os islandeses estar condenados ao fracasso? Como povo não são menos capazes do que os outros, e nem sequer se podem queixar da falta de quadros qualificados. Há todas as razões para acreditar que a classe política, mais tarde ou mais cedo, acabará por colocar os recursos da nação ao serviço do povo, na senda do desenvolvimento. Há ainda muito trabalho a fazer, mas é enorme o potencial daquele que é um dos mais desconhecidos mas também um dos mais belos recantos do continente europeu. Trata-se de uma terra mágica, abençoada pela natureza. Tem uma identidade própria que, diz quem já experimentou, marca para sempre as pessoas. São as cores, as diferentes cambiantes de branco, é o cheiro forte e inconfundível daquela terra, a enxofre. E é sobretudo o sorriso doce daquelas crianças, a alegria e a vontade de viver que transparece nos seus pequenos rostos enquanto, curiosas, fitam as câmaras que logo à noite as apresentarão nos telejornais dos quatro cantos do mundo (os irlandeses, da Irlanda, também estão à rasca, mas têm um jeito para a música, amigo! E as danças? É já mesmo deles, aquilo).
Saturday, February 28, 2009
Sunday, February 22, 2009
O Rato Mickey
O Rato Mickey
Tive ocasião de ler num jornal regional um interessantíssimo texto sobre a mais célebre criação de Walt Disney, que fez 90 anos em Novembro último. Chamou-me a atenção a reflexão sobre a mensagem que personagens de animação aparentemente tão inofensivos podem passar aos mais novos, e não só, que o pequeno roedor de luvas brancas e calções vermelhos encontra muitos admiradores entre gente graúda também. E isto apesar de se encontrarem, no rico alfobre da nossa cultura e tradições, incontáveis exemplos de distracções muito mais saudáveis e educativas.
Mas analisemos o que está em causa. Aprofundando um pouco, o conteúdo dos filmes do famoso Rato são imorais e não se escandalizem, ou não o façam sem antes me ler o texto.
Os ratos são animais sem nobreza nenhuma, sujos e repelentes até, que transmitem doenças e que não gostamos nada de ver em nossas casas. Era por isso que antigamente toda a casa que se quisesse a salvo de tal companhia procurava ter um gato, seu inimigo figadal. Ora, o que acontece nos filmes onde entra o Rato Mickey? A verdade é que este, que por ser rato devia ser o mau da fita, leva sempre a melhor sobre o gato com quem trabalha. Nas aventuras que vivem em conjunto, o gato sai sempre vencido e humilhado pela astúcia do rato, que se fica a rir. Esta mensagem, a do mal que vence o bem e ainda é louvado e aplaudido, não pode deixar de penetrar nas mentes dos jovens espectadores, incapazes de avaliar a situação por si próprios e de se distanciarem da mais subtil das perversidades. Ainda assim, e dando o devido desconto, os filmes distraem e são inofensivos, comparados com os filmes actuais, sorvidos em doses assustadoras pelas crianças de agora.
Nestes, impera a violência, as figuras monstruosas, as histórias infernais e a música atordoante. E, para cúmulo, muitos dos filmes de animação actuais são pornográficos e vão amolecendo o critério das crianças, que passam a achar tudo “aquilo” natural.
Mais uma obra sobre a região do Vale Interior
Acaba de sair um livro precioso sobre grande parte do nosso melhor património, desde as Igrejas de Eiras de Sabaio e Valinhos, até ao convento de Santa Ana, entre muitos outros exemplos.
Trata-se de um estudo rigoroso, sem se tornar demasiado “pesado” ou académico, servido por excelentes textos e fotos, os primeiros da lavra do dr. Maciel Carvalho e as segundas a cargo de Ana de Vasconcelos, intitulado “ Vale Interior pedra a pedra”
A apresentação decorreu no Casa Municipal da Cultura, registando-se o assessor da Cultura da edilidade.
Monday, February 16, 2009
Jogos de azar
Gosto de pensar que boa parte dos portugueses que se tornam euromilionários de um dia para o outro - o que nos acontecerá a todos no prazo de umas dez milhões de semanas, a continuar a este ritmo – se empanturram de excentricidades. O anúncio deu o mote, e bem, haja quem gaste dinheiro às pazadas, se é para continuar com a história do desgraçadinho (ai agora o que é que eu faço com tanto dinheiro, ainda mo roubam, vou continuar a comprar nas lojas dos chineses para não levantar ondas, e depois faço umas obras na casa de banho) não valeu de nada, mais valia continuar encostado à parede, com o boletim na mão, na fila do café. Ao menos nessa altura podia a malta sonhar com o euromilhões.
Eu cá, por essas e por outras, só jogo nos melões. Faço palpites, estudo-os e aposto. E a verdade é que frequentemente perco o dinheiro, porque é difícil acertar num bom melão. Jogar nos melões é mais adequado para quem não está preparado para ver a sua conta inchar subitamente como a de um oligarca russo nos anos noventa. Nenhum português está, tirando alguns que não se pode dizer. Apesar do nosso instinto e do nosso desembaraço, nunca saberemos ser oligarcas nem russos, só eles sabem como se faz. Nós desenrascamo-nos bem, mas precisamos de estar na miséria, ou, quando muito, assim-assim, para nos podermos queixar: “estou à rasca, pá”.
É bom que o país continue a apostar no euromilhões, desde que seja para acabar com tanto queixume. E os resultados estão à vista: nós somos os campeões do euro. Estamos sempre a limpar os prémios, entre tantos países concorrentes. Estou a falar do euromilhões, porque o futebol é outra fruta. A bola é redonda, o melão é que tem aquele formato da cara que fazemos quando descobrimos que o prémio saiu a outro marmelo qualquer, por acaso, ou talvez não, também português.
Devemos ser o povo mais sortudo com os indivíduos mais azarados da Europa. É ou não é de ficar com um grande melão? Calha-nos sempre, mas nunca à gente. Para o bem e para o mal, somos os derradeiros euromelões.
Saturday, February 7, 2009
A formiga e o lobo
Uma formiga batedora andava a explorar o areal húmido que rodeava uma poça quase seca quando se deparou com um buraco. A forma perfeita da enorme cratera levou-a a pensar tratar-se uma pegada muito recente de um animal que por ali andasse. Subiu a uma erva para avaliar melhor e logo percebeu que tinha sido um lobo o responsável.
As formigas batedoras são escolhidas pela sua capacidade de raciocínio e curiosidade, e esta não era excepção. De imediato se lançou numa grande correria, tentando alcançar o lobo que, com toda a certeza, não andaria longe. Por sorte, avistou-o pouco depois junto a uns arbustos. Parecia estar muito concentrado, observando qualquer coisa a boa distância. Tal como suspeitara, tratava-se de um velho conhecido seu. Na verdade, conhecer outros animais - e assim aprender coisas novas, contactar com diferentes maneiras de pensar ou simplesmente conviver - era muito do agrado da formiga. O preço a pagar era ser olhada com certo desdém pelas suas irmãs. Mas esta formiga sabia bem que as tarefas extenuantes e monótonas que as outras tinham de fazer as deixavam incapazes de, ao menos, vislumbrar quanto perdem por nunca se desviarem do carreiro.
Entretanto, a formiga aproveitou a paragem do lobo para se aproximar. Começara já a chama-lo quando este partiu de cabeça baixa, num trote silencioso. A formiga bem correu, gritando «lobo, amigo!», mas as suas pequenas patas não lhe permitiriam alcançar um ouriço coxo, e a sua vozinha era quase tão fraca quanto o som de um pingo de chuva.
Não lhe restou se não subir arbusto acima para ver no que aquilo ia dar. Oh, que belo animal era o lobo! E que astuto e audaz! Primeiro aproximou-se silenciosamente da sua presa. Depois, possante, derrubou-a de um salto. Quase não precisou de correr.
A formiga deixou-se ficar numa folha, a observar. O lobo comeu tranquilamente, regressando depois pelo mesmo caminho. Quando já estava suficientemente perto, a formiga surpreendeu-o com este cumprimento:
- Olha quem é ele! Vê lá se soubeste trazer alguma coisa para os amigos…
- Não avisaste! – respondeu o lobo com um sorriso.
- Eu chamei-te, tu é que não ouviste. E eu que me contentava com uma lasquinha qualquer…
- Ah sim? – perguntou o lobo. – Não seja por isso! Tenho aqui uma entre os dentes. Tiras-ma e é toda tua. Só a aflição que me está a dar!
- Pois, isso é chato, é.
A formiga teve pena do lobo, um animal nobre e valente que se via agora atormentado por um pedacinho de carne do bicho que matara. Não deixou de se perguntar: «E se ele aproveita para me devorar também?» Mas logo concluiu: «Não o fará. Os corajosos não atacam os fracos dessa maneira. Só os cobardes o fazem». Sem saber muito bem o que fazer, e depois de um silêncio embaraçoso, acabou por lhe dizer:
- Eh, eh, o que tu queres sei eu!
- Oh, achas? Estás a brincar, não?
- Claro!
- Então vá – disse o lobo, abrindo a enorme boca junto à folha onde a formiga ainda estava.
Foi então a vez de a formiga mostrar a sua agilidade, saltando para a língua do lobo. Sentindo-a a fazer umas levíssimas cócegas, o lobo deu por si a pensar: «É tão franzina! Como pode ela achar que eu tiraria o mínimo proveito das suas poucas carnes? Uma sobremesa, talvez….»
Ainda um pouco perturbada com o que sugerira, a formiga avançava sobre aquela superfície movediça enquanto ia dizendo:
- Não, é que às vezes podias distrair-te… é só isso.
Esta resposta deixou o lobo pensativo por alguns instantes, mas logo se resolveu por incentivar a pequena batedora:
- É mesmo isso, aí.
A formiga estava a fazer o melhor que conseguia, tentando concentrar-se no trabalho e não nos seus receios. Procurava até que o lobo percebesse isso mesmo, e no entanto… não se coibia de segregar tanto ácido fórmico quanto conseguia. Afinal, sempre era bom que os animais grandes e poderosos, como os lobos, soubessem que aqueles que julgam fracos nem sempre se deixam engolir sem amargos de boca nem azias de estômago. Seria caso para pensar que era a honra das formigas que estava em causa, mas a verdade é que a formiga não se permitia perder muito tempo com tais conjecturas. E então respondeu-lhe:
- Pois é isto, amigo, mas é complicado. É preciso é calma.
- Sim.
- Desculpa lá estar a usar as pinças desta maneira, mas é só mais um bocadinho. Dói-te?
Toda esta azáfama parecia divertir o lobo, que pensava: «Está a fazer-se picante! Será que pensa que é isso que me impede?»
- E que doesse! O que arde cura, hihihi!
- …
- É ou não é?
- Olha, amigo, lá isso é verdade. Lá isso é verdade, é.
Como se de um gesto súbito e involuntário se tratasse, o ácido deixou de fluir. Cada vez mais divertido, o lobo ria com despudor. Quanto mais se tentava conter, mais sonoras eram as gargalhadas, colocando a formiga em sério risco de ser engolida inadvertidamente. Esta, desesperada por se livrar daquele perigo mortal, deixou de remexer com as pinças e imobilizou-se completamente. Depois, como se quisesse provar a si própria e ao lobo que não estava assustada, resolveu usar as patas para corresponder, com umas cócegas em plena língua, àquele riso tão desconcertante.
Fosse das cócegas ou fosse de adivinhar o desespero que as motivou, a verdade é que as gargalhadas do lobo passaram de incontidas a caso perdido e descontrolado. E em muito boa hora para a formiga, que assim se viu expelida com violência, entre risadas.
Enquanto um e outro se recompunham, dirige-se a formiga ao lobo nestes termos:
- Agora ia correndo mal, ou quê?
- …pois, nem por isso. Isto está tudo controlado!
- Ah, isso tem que ser. Vá lá, vá lá.
- E obrigado.
- Sempre saiu a carne?
- Olha, está aqui. Queres? Se queres vê lá!
- Não, vou andando.
- É?
- Vou. Xau.
- Então vá. Quando vieres para estes lados vê lá se dizes alguma coisa.
-Sempre.
-…
- Olha, a sério, desculpa lá estar-me a rir e não sei quê, está bom?
Monday, February 2, 2009
Thursday, January 29, 2009
Chover no molhado
Como é evidente, as situações em que se pode usar são as mais diversas, mas a frase veio-me à ideia a propósito de determinados gastos supéfluos de recursos, em especial os públicos. Por exemplo, a construção de todos aqueles espampanantes estádios de futebol para o Euro 2004, num país já tão futebolizado, que outra coisa foi senão chover no molhado? E quanto se gasta, na nossa televisão pública, com programas em tudo idênticos aos das privadas - como aquelas xaropadas, verdadeiras conversas da treta, a que temos o privilégio de poder assistir de manhã e à tarde?
Fazia falta, num país de magros recursos e grandes carências como o nosso, uma cultura de rigor e eficiência, e não o nosso (também proverbial) laxismo. Não é apenas a pertinência dos gastos que está em causa, é sobretudo a sua redundância. A primeira preocupa-me, a segunda enfurece-me. Nas ‘grandes’ e nas pequenas coisas.
Um caso paradigmático – e que me dá uma especial fúria – é o dos candeeiros de iluminação pública que, muitas vezes, alumiam as nossas ruas e estradas em pleno dia (o espécime que se pode ver acima foi fotografado por volta do meio-dia). Como podem eles ter a pretensão de iluminar no iluminado? Dir-se-ia que em Portugal levamos tão a sério a causa ambientalista que até já queremos encontrar energias alternativas à luz solar!
Desde miúda que esta anomalia me deixa perplexa (sim, isto acontece há muitos anos!), mas enquanto fui jovem e inocente pensei que, mais tarde ou mais cedo, seria corrigida. No entanto, é difícil conceber que na raiz do problema esteja uma deficiência técnica. É mais provável que se trate de uma questão cultural, para mal dos nossos pecados. É o nosso paralisante “não te apoquentes, que eu também não”.
Nestes últimos dias tenho-me deparado com esta situação com mais frequência do que o habitual. Posso dar testemunho de quilómetros (literalmente) de candeeiros a desperdiçar energia. Quem a paga? Quem responde pelos custos ambientais desta ineficiência energética?
Para cúmulo, ontem passei por um jardim cujo sistema de rega automático estava em pleno funcionamento durante uma copiosa chuvada. O jardim era privado, mas já vi cenas semelhantes em rotundas relvadas, por exemplo.
Como disse no início, normalmente usamos a expressão chover no molhado em sentido figurado, mas este (o da rega à chuva) é um caso em que o que queremos descrever corresponde ao significado literal da expressão. Interrogo-me se a realidade, por capricho extremo, não estará a conspirar para nos roubar as palavras – ou talvez procure fazer que tenham mais força ainda, mostrando-nos como a nossa inclinação para a displicência e para o despropósito pode ir tão longe quanto, em contrapartida, vai a nossa imaginação na produção de sapientes ditos e provérbios.
Sunday, January 25, 2009
História da Ladra Muda
Já há largo tempo vinha pensando fazer registo da história da Ladra Muda, e o que ouvi serviu-me de sinal de que era chegado o momento. Da verdade que sei usarei boa medida, ajudada pela fraca imaginação, e, de ditos cantigas e contos que ficaram, as melhores voltas, e o brilho, que o povo à história deu.
Se era ladra é porque roubava, e se era muda, é porque não falava. Vivia entre salteadores, acompanhando-os nas suas patifarias, desfrutando de uma vida vadia e boémia. O seu atrevimento rivalizava com o dos mais afoitos, e a sua beleza não destoaria da das donzelas mais distintas.
As belas e distintas, sobretudo se são mudas, têm sempre muitas contas a prestar, e esta, que buscava a liberdade, resolveu ser ladra, para, enquanto não fosse presa, não ter de se explicar. Assim, vendo-se livre, pôs em cada gesto toda a eloquência que os seus lábios não podiam ter.
Não foram poucos os que tentaram ganhar os seus favores, mas, os que mais se empenhavam eram, quase sempre, os que menos colhiam. Entre esses contam-se muitos dos rapazes mais avisados, filhos das melhores famílias, e até homens casados, que se prendiam pelo feitiço daquela figura misteriosa e altiva, inebriados pela promessa de vertigem e perdição prenunciadas no seu olhar e avalizadas por seus lábios silenciosos. Então, deixavam tudo e juntavam-se ao bando de malfeitores, distinguindo-se nas façanhas criminais enquanto, em vão, suspiravam pelas amorosas. E outros tantos, patifes convictos, parceiros de aventuras da Muda, nela reconheciam a graça e a ternura que sempre lhes haviam sido negadas, mostrando-se dispostos ao arrependimento e, com ela, a experimentar o amor e o bem.
Não era apenas por causa da natureza desassossegada e folgazã da bandida que estas arremetidas saíam frustradas, há que notar a têmpera resistente de que era feita, insubmissa às ordens de qualquer malhador. O que não poucas vezes acontecia era serem alguns incautos assaltados por ela, distinguidos com alguns momentos de licença, dos quais saíam com mais sobressalto do que proveito. Outras vezes, quando algum lhe agradava mais e cerceava menos, recatava-se com ele por bom tempo, em exclusivos e arrebatados amores.
Todos estes sucessos, e muitos outros, passou a vivê-los apenas em pensamento, desconsolada, depois de certo dia casar com um velho matreiro e rico, que a levou à certa. Perdia-se em longas ruminações, deambulando por entre os criados de casa, já sem por eles ser percebida, mais muda do que nunca.
Não encontrava nenhum motivo de alegria na sua nova vida, e até os piores momentos que vivera lhe eram agora saudosos. Mas vinham-lhe à memória, sobretudo, os golpes bem sucedidos, as festas desenfreadas em que todo bando participava, quando até para músicos havia dinheiro. Mas também aquelas em que não havia mais do que vinho e as canções e danças que eles mesmos cantavam e dançavam, às vezes na companhia de trovadores e músicos de ocasião, que encontravam nas mais safadas tavernas.
Era esta, cada vez mais, a sua única companhia. Sucessivamente, trazia à memória o Poeta Incompleto, cujas quadras recordava em momentos escolhidos, o Coruja, um confrade de poucas falas mas muita finura, com quem se entendia muitas vezes sem palavra nem gesto algum, os Profetas, dois irmãos que chefiavam o bando desde sempre, e todos os que cabiam naquele tempo quase parado que era a sua vida.
Recusar-se a seu marido era seu único prazer, o velhaco merecia-o, deu-lhe como destino a prisão que era aquela casa, depois de, por meio de informadores, surpreender o bando, capturar e chantagear a Muda.
Perante a teimosia de sua noiva, já quase em desespero, ocorreu-lhe que se pela opressão não a conseguia vergar, talvez pudesse socorrer-se da folia, a inclinação boémia da caprichosa dama era conhecida, e a sua fortuna, nunca até então celebrada, cobri-la-ia de todas as festas necessárias. Na noite da primeira, perante os mais distintos convidados, logo se percebe marcada transformação, agitados, eram os olhos dela que o diziam. Quando, porém, depois de vazia a casa, lhe assoma onde dormia, é a impotência de sempre que o invade. Observa-a, atento, enquanto ela cerra os olhos, respira lenta. Já fechadas, as pernas mais estreita.
A um grito, acorrem ao interior da casas, em baixo, os guardas do jardim. Como se o esperasse, a Muda ergue-se, nua, salvo o punhal de que não precisa, ele apenas tropeça até às jóias, sobre o móvel, e fica-se, encolhido. Se ainda lhe estende em oferta, desesperado, os adornos esplendorosos, logo os aperta, vencido, enquanto pela última vez a contempla, soberba, levantando os braços e empunhando a única coisa que lhe leva, o vestido.
Uma simples fagulha, plantada e ventilada durante tão distendidos festejos, foi a causa do fogo que, uma vez liberto, nem todos os guardas juntos conseguiriam deter. Ao descer pela varanda, a Muda sente já o calor da liberdade percorrer-lhe o corpo, enquanto mãos confiantes a amparam. É o Coruja, que a puxa para o silêncio da noite.
Trilham caminhos poeirentos, sem descanso nem palavra, lado a lado. Mas já remotos, fugidos, amontes, muda ela e ele pouco dado a conversar, irrompem em ansiado diálogo. Descobre-se traição, gesticula-se morte, grita-se amor.
A um olhar, ambos se calam e esperam, suspensos, até que lábios ardentes se soltam, como peixes sôfregos sobre areia branca e fina.
Pelos lábios expiram, por eles morrem-lhes as falas. Por eles retomam, ávidos, novas línguas intemporais. São eles que dizem fraces, muito suaves, sussopram cabelos, delicosos. E refriam, comprazidos, o sangue fervelhente que os desperta.
E que os excita ainda mais.
Sábeos, cantam loirus seios.
Insuflados, rebentoam peitos mudos.
E, entre frisos prateados, eclodem-lhes frutos raros em salvas de túlipa preta.
Por lábios suspiraram, flamejando, cheios e desnudos.
Libertados, entreabertam, lambebendo , bencarnados, lábidos de poémia bruta.
(De outros sucessos da vida da Ladra Muda tentarei dar boa conta, oportunamente.)
Tuesday, January 20, 2009
Amazing grace - lanterna mágica
Soweto Gospel Choir - Amazing Grace (BEAUTIFUL VERSION)
Saturday, January 17, 2009
Antes da internet
Os seres unicelulares não sei, sequer, se já se comiam uns aos outros ou se sobreviviam só graças à fotossíntese, por exemplo. Foram eles que deram início a este longo período pré-internet. Só depois deram sinais de que, afinal, a vida podia ser mais complexa. Começaram a cobiçar os outros, e esse foi o caminho que levou à gastronomia, ao amor e à guerra.
E ao futebol. Isto tudo para dizer que, há umas semanas, dois mil e nove anos depois de Cristo, comprei duas bolas numa loja de antiguidades que merece uma visita, uma voltinha de fim-de-semana em família, talvez, que se chama Sportzone. Uma a sério e outra de borracha, para dar toques dentro de casa.
A net é gira, mas há certos hábitos, como a fotossíntese e jogar à bola, que não se devem perder.
Wednesday, January 14, 2009
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
«Novas relações
(…)
Para julgar – com clareza e senso seguro – as pessoas, é necessário vê-las, conhecê-las e observá-las no seu ambiente próprio, no seu meio habitual e íntimo. Quantas vezes – nas praias, no campo ou nas termas -, se representam comédias e farsas de sociedade, de distinção, de boas-maneiras, que apenas são atitudes estudadas, em nada correspondendo à realidade!
Será, pois, necessário – antes de entregarmos a nossa amizade a alguém – colher informações e saber de quem se trata. Uma pessoa verdadeiramente distinta e educada não estabelece relações de amizade, sem prévio estudo e conhecimento. Com estas precauções, poderão evitar-se situações críticas e embaraçosas.»
(Noiva, esposa e mãe, colecção Laura Santos)
Sunday, January 11, 2009
Thursday, January 8, 2009
São os horários!
Em que medida devem - se é que devem – os dinheiros públicos pagar os custos das actividades culturais, e quais aquelas a que se deve dar prioridade, são duas das perguntas recorrentes.
Infelizmente, esta discussão não se tem alargado tanto quanto devia no que diz à área do audiovisual, e em especial à RTP. Não digo que não se fale nisso, mas fico com a sensação que nunca nada se aprofunda, que se vive numa indefinição permanente. Quais são as linhas orientadoras, quais os objectivos e os critérios, qual o grau e a natureza da dependência da estação pública face ao poder político são exemplos de questões que não vejo que estejam respondidas de maneira convincente, mas pode ser falha minha. Não é de nenhum unanimismo que se sente falta, mas sim de um consenso mínimo, ou pelo menos de uma discussão tão clara quanto possível sobre a missão da RTP, bem como sobre os ganhos e os custos das alternativas a essa missão e ao modelo que a sustenta.
Enquanto isso não acontece, resta-nos reclamar de algumas coisas e aplaudir outras. E, às vezes, reclamar e aplaudir, como acontece quando bons programas passam a muito más horas. Pego neste exemplo porque ultimamente me tenho arreliado muitas vezes por não estar na disposição de ficar acordado madrugada dentro para ver bons filmes e bons concertos ao fim-de-semana – como o programa ‘Palco’, que amanhã é transmitido à 1:13, ou os filmes, sempre dois seguidos, que ainda há pouco tempo eram transmitidos em horário de padeiro (lá está: parece que já não é assim) , para não falar em documentários e outros programas, mas até falo: hoje é transmitido um documentário sobre Fidel Castro, a começar às 23:26, para dar um exemplo que não é dos piores. E suspeito que a tal falta de definição do papel da estação, de que falava (que também só suspeito que exista), em especial em relação ao 2º canal, tem tudo a ver com estes estranhos horários.
Não me queixo da qualidade dos filmes e dos concertos – pelo contrário. Mas essa qualidade só me deixa mais frustrado, não só por deixar passar a oportunidade de deles usufruir como pelo desperdício de dinheiro do contribuinte que a sua transmissão implica. O que é bom paga-se caro, normalmente.
Saturday, January 3, 2009
Os meus botões
Muito tem dado que falar a recente crise financeira e económica. Nessas doutas discussões, que são bastas vezes um falatório cheio de floreados sem alicerce firme onde assente o entendimento do povo, tem-se esquecido outro género de crise: a crise de valores. Só quem não quer é que não vê a podridão espiritual que tomou conta das mentalidades, na nossa sociedade, e a falta de alguns esteios morais importantíssimos que a sustentavam. É aqui, neste ponto que tantos procuram ignorar, que está a razão principal da situação que vivemos.
O paganismo impera, apesar dos muitos avisos. Os jovens procuram dinheiro, não trabalho. O vício é louvado, a seriedade nem sabem o que é. Preocupam-se com a fama e não com o bom-nome. O que importa é a diversão e o prazer do corpo, não ter mente e corpo sãos e puros, e o pior é que somos nós, todos nós, que plantamos esses falsos valores no seu coração. A inclinação para o paganismo é muito antiga, e traz sempre maus resultados. Até os trajes com que aparece não são muito diferentes através dos tempos: adoração de falsos deuses, devassidão revestida de muitas formas, como música e danças intoxicantes, o endeusamento do vil metal, etc.
Precisamos de nos libertar desta escravidão que é a ganância. Já pusemos de parte muitas ideologias malignas e de raiz pagã e ateia, como o nazismo e o comunismo. Quando o homem deixar de ter a alma presa ao materialismo, que tem sido rei e senhor neste mundo e é outra forma de paganismo, e se elevar nos valores da compaixão, da solidariedade e da paz, não faltarão soluções para acabar com esta crise.
Concertinas das Carvalhas na Televisão
Decorreu no dia 14 de Dezembro um encontro de tocadores de concertina, que atraiu à pequena aldeia das Carvalhas, freguesia de Romaride, cerca de 50 tocadores, entre os quais se encontravam alguns vindos do estrangeiro. As actuações decorreram tanto no palco montado para o efeito como pelas ruas e recantos da povoação.
A festa decorreu com grande animação desde manhã até à noite, havendo oportunidade de conviver e saborear petiscos regionais, postos à disposição de todos pelos organizadores. O Grupo de Concertinas da Barrenta participou também num programa televisivo da manhã, em directo, na sexta-feira anterior, a convite do canal da TVI.
Estão de parabéns as Carvalhas e toda a região pela realização de mais um evento de grande importância e projecção para a nossa cultura.
(Publicado na edição de 19 de Dezembro de 2008 do Jornal do Vale Interior)
Monday, December 29, 2008
A formiga e o lobo
Uma formiga batedora andava a explorar o areal húmido que rodeava uma poça quase seca quando se deparou com um buraco. A forma perfeita da enorme cratera levou-a a pensar tratar-se uma pegada muito recente de um animal que por ali andasse. Subiu a uma erva para avaliar melhor e logo percebeu que tinha sido um lobo o responsável.
As formigas batedoras são escolhidas pela sua capacidade de raciocínio e curiosidade, e esta não era excepção. De imediato se lançou numa grande correria, tentando alcançar o lobo que, com toda a certeza, não andaria longe. Por sorte, avistou-o pouco depois junto a uns arbustos. Parecia estar muito concentrado, observando qualquer coisa a boa distância. Tal como suspeitara, tratava-se de um velho conhecido seu. Na verdade, conhecer outros animais - e assim aprender coisas novas, contactar com diferentes maneiras de pensar ou simplesmente conviver - era muito do agrado da formiga. O preço a pagar era ser olhada com certo desdém pelas suas irmãs. Mas esta formiga sabia bem que as tarefas extenuantes e monótonas que as outras tinham de fazer as deixavamm incapazes de, ao menos, vislumbrar quanto perdem por nunca se desviarem do carreiro.
Entretanto, a formiga aproveitou a paragem do lobo para se aproximar. Começara já a chama-lo quando este partiu de cabeça baixa, num trote silencioso. A formiga bem correu, gritando «lobo, amigo!», mas as suas pequenas patas não lhe permitiriam alcançar um ouriço coxo, e a sua vozinha era quase tão fraca quanto o som de um pingo de chuva.
Não lhe restou se não subir arbusto acima para ver no que aquilo ia dar. Oh, que belo animal era o lobo! E que astuto e audaz! Primeiro aproximou-se silenciosamente da sua presa. Depois, possante, derrubou-a de um salto. Quase não precisou de correr.
A formiga deixou-se ficar numa folha, a observar. O lobo comeu tranquilamente, regressando depois pelo mesmo caminho. Quando já estava suficientemente perto, a formiga surpreendeu-o com este cumprimento:
- Olha quem é ele! Vê lá se soubeste trazer alguma coisa para os amigos…
- Não avisaste! – respondeu o lobo com um sorriso.
- Eu chamei-te, tu é que não ouviste. E eu que me contentava com uma lasquinha qualquer…
- Ah sim? – perguntou o lobo. – Não seja por isso! Tenho aqui uma entre os dentes. Tiras-ma e é toda tua. Só a aflição que me está a dar!
- Pois, isso é chato, é.
A formiga teve pena do lobo, um animal nobre e valente que se via agora atormentado por um pedacinho de carne do bicho que matara. Não deixou de se perguntar: «E se ele aproveita para me devorar também?» Mas logo concluiu: «Não o fará. Os corajosos não atacam os fracos dessa maneira. Só os cobardes o fazem». Sem saber muito bem o que fazer, e depois de um solêncio embaraçoso, acabou por lhe dizer:
- Eh, eh, o que tu queres sei eu!
- Oh, achas? Estás a brincar, não?
- Claro!
- Então vá – disse o lobo, abrindo a enorme boca junto à folha onde a formiga ainda estava.
Foi então a vez de a formiga mostrar a sua agilidade, saltando para a língua do lobo. Sentindo-a a fazer umas levíssimas cócegas, o lobo deu por si a pensar: «É tão franzina! Como pode ela achar que eu tiraria o mínimo proveito das suas poucas carnes? Uma sobremesa, talvez…»
Ainda um pouco perturbada com o que sugerira, a formiga avançava sobre aquela superfície movediça enquanto ia dizendo:
- Não, é que às vezes podias distrair-te… é só isso.
(Continua.)
Thursday, December 25, 2008
Tuesday, December 23, 2008
A minha política de pescas
Os que me conhecem sabem bem que sou um apaixonado pela pesca. Grande parte dos meus amigos é constituída por pescadores. Conheci pessoas nas mais variadas situações, mas as amizades que se ganham na pesca são diferentes. São o oposto do que normalmente encontro na política, infelizmente.
Sozinho ou acompanhado, são momentos únicos os que se passa envolvidos nesta arte, desde a preparação da roupa e do equipamento até à possível mas incerta comezaina. O maior deleite da pesca não está na captura mas, muitas vezes, em tudo o resto à volta. Nunca sinto que perco tempo enquanto pesco, apesar de passar grande parte do tempo sem fazer grande coisa. E quando se apanha alguma coisa que vale a pena mostrar, sinto alegria mas também alguma pena por aquele ser vivo sofrer com o destino que lhe estava marcado na ponta do anzol.
Às vezes reflicto sobre isto e quase peço aos peixes para não picarem. Eles são criaturas magníficas. Este é um dos fascínios da actividade. Ao que julgo saber, na pré-história os homens sentiam espanto e ao mesmo tempo remorsos por tirarem a vida aos animais. Talvez seja essa a origem dos actuais vegetarianos, pacifistas, anarquistas, ecologistas, etc. Aparentemente são coisas que não estão relacionadas, mas eu penso que muitas das coisas que eles defendem são questões de todos os tempos. Todos os homens sentiram já em algum momento alguma pena pelos animais, pelos maus tratos que infligimos à Natureza, ou por o mundo ser como é. Onde nós podemos fazer a diferença é, respeitando e compreendendo esses sentimentos, que também são nossos, não ficar amarrados a visões radicais e tentar compreender a natureza.
Parece que alguns querem decretar um mundo perfeito. Mas não adianta ignorar o sofrimento que existe neste mundo, porque a sua lei é universal. E temos que aprender a viver com essa lei, fazendo que os seus impactos sejam tão pequenos quanto possível. O homem é a medida de todas as coisas, como dizia Protágoras.
É neste tipo de coisas que vou pensando quando vou à pesca, às vezes sem perceber se espero que o peixe pique ou que não pique.
Sunday, December 21, 2008
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
Quintal ou blog? E\ou.
Uma das vizinhas que assumiu o protagonismo do último ‘ouvindo….' adoeceu, espero que sem muita gravidade . É interessante como numa comunidade pequena este tipo de coisas é sempre notícia. Para o bem ou para o mal, há uma rede global (queiram ou não, todos os habitantes da aldeia são englobados) que impede que acontecimentos desta natureza sejam ignorados. Há sempre alguma partilha, parte dela, por ventura, inconveniente.
A srª. Irene Bisgata contava-me ontem coisas da sua juventude, vivida há perto de 70 anos, “andávamos sempre juntos, aquele rancho de gente, olha o Albino João era um! Era as Carriças! As Marcialas, os Queridos, os Sapateiros, o pai daquela (…). Íamos a todo o lado, trabalhar para uns, trabalhar para outros. Olha que íamos à Sé [na sede do concelho, a 25 km] aos [umas cerimónias religiosas cujo nome não fixei] a pé, e para cá de comboio! [Pergunto porque não iam de comboio também, não havia?] Havia, só que era mais engraçado ir a pé, divertíamo-nos muito, íamos sempre a cantar, depois para cá vínhamos da estação até aqui a pé [5 km] sempre a cantar ainda, vínhamos ali para cá do Paul e já nos ouviam cá ao fundo. Quando chegávamos à casa da [?] tínhamos que cantar outra vez porque ela não nos deixava de lá sair sem ouvir a gente. A Duarta tinha uma grande voz, nunca vi para fazer segundas vozes, assim, para baixo, A senhora um dia sozinha se achava, a Deus mil louvores em silêncio dava, a gente sempre com voz própria e ela na segunda voz, uma voz boa. Depois As preces de um anjo e ela, para baixo, As preces de um anjo diz (…) alguém, tu és lá do Céu, bendita ó Maria. Quando era altura da batata lá ia aquele rancho para a batata, quando era para a sacha era tudo assim! Íamos semear o milho para este, depois para aquele, apanhar o nosso, depois o daquele… Tínhamos aí o milho para descamisar, logo de madrugada chegava o Elias… ele gostava muito de agarrar assim duas telhas e falava para os outros. Punha-as assim [em tubo, junto à boca] e começava AAQUIII NAA EIIRAAA DAAS BISGAAAATAAS HÁ AQUIII MUUUIITO MIILHOOO PARAA DESCAAMIISAAAAR!!! Passada meia hora estava aí isso cheio de pessoal, telefonavam-se assim uns para os outros”.
É curioso que ela tenha dito que se telefonavam. Não se pense que na altura não havia telefones. O info-excluído@pessoa diz que conheceu alguém que, mais ou menos por esta altura, tinha telefone. E já tinha número atribuído: o 20! Há aqui um texto que, porque não, serve de contraponto a este no que respeita aos avanços da tecnologia. Um dos comentários é do info-excluído e fala desse telefone com número de dois dígitos, na era analógica.
Friday, December 19, 2008
Thursday, December 18, 2008
Ouvindo conversas, lendo fragmentos, observando sinais
Eu, para a vizinha Maria Nazaré:
- A sua gata entrou-me em casa. Não é uma que tem um guizo?
Ela:
- Entrou? Ah p. de m. É muito atrevida. Anda-lhe aí a conhecer as divisões da casa! Ahahah. Ela não faz mal, mas é muito lascarinha. Só o mais que pode fazer é ir ficar à sua cama! Uhhuhah!
Maria Lúcia, outra vizinha:
- Olhe que ainda vai ficar à sua cama, hoje!
Eu:
- Pois.
(Maria Nazaré - quase 70 anos; Maria Lúcia - mais de 50 anos; hoje, Eiras de Sabaio)
Monday, December 15, 2008
Hoje não vi nenhuma gaja boa
E achava este assunto muito importante. Houve uma vez um amigo que me disse que gostaria de ter, dentro do armário ou assim, uma rapariga sempre pronta a cumprir uma função: dar as bochechas a apertar, com jeitinho, quando ele sentisse necessidade. Logo ao acordar, por exemplo, ia lá afagar-lhas e pronto, estava dado o primeiro passo para começar bem o dia. E eu disse logo que a ideia era boa. Éramos muito líricos.
Naturalmente tive bastantes oportunidades de confirmar que as coisas não funcionam bem assim. Mas também ainda não descobri ao certo como funcionam. Agora o que eu sempre soube fazer foi ver. Quando vemos, imaginamos. E eu imagino quase sempre que estou a um passo de experimentar as bochechas. Normalmente não consigo, mas vou vendo no que dá. E não incomoda.
Não é preciso perceber nada de gajas para ver. É uma coisa que se basta a si própria, que não requer explicação. Não requer, não tem e não quer. Escrevem-se livros e artigos em catadupa sobre a natureza supostamente misteriosa das mulheres, sem que nenhum deles acrescente mais nenhuma conclusão além da de sempre: as mulheres são misteriosas. Os olhos já tinham percebido isso e, sempre que podem, evitam escutar as dúvidas do cérebro. Eles foram feitos para ver.
Os ‘blogs de gaja’ proliferam, mas os blogs e sites com gajas proliferam mais ainda. E nós olhamos, como não? Mas não é a mesma coisa. As bochechas daquelas sabemos nós que nunca iremos apertar, e os olhos querem ver. Não basta olhar, há que ver e imaginar a possibilidade de um futuro aperto.
Nos sites de gajas (não me refiro aos escritos por elas, mas àqueles que tornam a escrita - e outros acessórios mas não todos mas eu não sei - dispensável), e nisso as feministas têm alguma razão, acabamos por ver muito pouco. Olhamos. É como se andássemos à procura das raparigas que, em diferentes momentos, surgiram como um clarão a nossos olhos, encandeando-os e prendendo-os com a pergunta “tás a ver bem?” e nós não sabíamos, porque nunca tínhamos visto. Elas é que nos fizeram ver e perceber.
E por isso olhamos com atenção, tentando identificar alguma das ‘tais’ e sonhar com ela outra vez. Nunca encontrei nenhuma, apesar dos esforços incansáveis de quem vai carregando mais e mais raparigas naqueles catálogos. Aliás, como cada homem deve ter tido umas boas dúzias de epifanias em forma de rapariga, e como há cada vez mais homens com acesso há Internet, tem mesmo que ser assim. Felizmente que há o cuidado de colocar moças não muito feias, de maneira a não tornar a procura muito penosa. E, à falta de ver, sempre se vai olhando. Não são as que marcaram os nossos sonhos mas são, muitas vezes, substitutas muito boas. E ainda bem, porque isto de procurar fantasmas é muito aliciante mas também cansa.
Ontem deu-se-me um clique na cabeça e emergiu a frase, uma espécie de constatação espantada: “hoje (ontem) não vi nenhuma gaja boa!”. O espanto não é tanto por não ter visto nada como por perceber que não é coisa de um dia só. Esta distracção da visão, que se esquece de ver o que poderia ser distracção e regalo para a vista, já dura há um período indefinido. Será sinal de alguma coisa? Cheguei a ralar-me a sério, adivinhando já um assustador processo de degradação, comparável à perda gradual e silenciosa de um sentido. Mas talvez seja apenas falta de apanhar uns raiozinhos de sol, uns lampejos que me alumiem o caminho e aqueçam o coração.
Sunday, December 14, 2008
O nosso Vale cantado pelo dr. Luciano Carlos de Abreu
Eu tinha referido que a naturalidade do dr. Luciano era Valinho, mas não está, de facto, correcto. Ele viveu, na verdade, desde muito jovem entre o Valinho e Romaride, mas a sua naturalidade é esta última. Lamento o sucedido e, prontamente, procedi à correcção do erro.
Como forma de compensação, deixo agora mais alguma da sua belíssima arte poética, onde fala precisamente das suas raízes. Que pena que este autor não ser mais conhecido e divulgado, sobretudo entre a juventude de todo o Vale Interior.
Oh! Que lindas colinas
Tens tu, Romaride.
São como faces meninas,
Mais suaves que a neve.
Na primavera sorri
A flor do jardim.
Assim tu, Romaride,
Rosa linda donde eu vim.
Que arrabaldes bem postos
Tem Eiras de Sabaio.
Santa Marta em Agosto,
Santo Agostinho em Maio.
Altas serras abaixai.
Quero olhar o meu Vale.
Verei o sol, seu pai,
Pintar belezas sem rival.
Thursday, December 11, 2008
Lanterna mágica
Não me perguntem quem são nem de onde vêm. São cidadãos do Youtube, que é currículo bastante. O que conta é a intenção, herói ou vilão.
Em época de festas estes davam baile a muitos artistas da nossa praça, e eu gostaria tanto de os ter tido a abrilhantar a boda do meu casamento!
Por acaso gostava.
Tuesday, December 9, 2008
Uma rapariga
O filho de Tânia começa a falar com um ano de idade e diz mãe. Mas com o passar do tempo a alegria dos primeiros chamamentos vai como que diminuindo. A sorte da felicidade da mãe é um peso que ele não pode suportar, e, por isso, foge para outro país. É quase um homem, já pode trabalhar. Junta-se a um grupo no café, à noite, e vêem futebol.
Metade daqueles homens conhecia alguém que morreu de acidente, nas constantes viagens de ida e volta.
Passam-se décadas até que um descendente dos que nunca mais voltaram aprenda a tocar piano. Era só o que lhe faltava e, no entanto, não é especialmente feliz. Mas não se suicida, ou coisa parecida. Dorme mal às vezes, vá.
Relatos da vida de uma professora
•• Numa turma de 3º ano, a professora (eu) pede aos alunos que transmitam aos pais determinado recado. Uma das alunas é de origem chinesa e, apesar de falar português correctamente, apresenta algumas dificuldades ao nível da semântica, devido ao facto de não falar português em casa. Dizia eu que havia um recado para transmitir aos pais. Eis a sua resposta, aflita:“Aos pais?! Eu não tenho dois pais! Tenho só um pai! E uma mãe!”
•• Na primeira aula de uma turma de primeiro ano, o primeiro aluno a falar, depois de pôr o braço no ar, faz esta pergunta:
“Professora, o que é que é uma pergunta retórica?”
(Juro! Ele era muito curioso e deve ter ouvido aquilo algures.)
•• Um aluno de 1º ano, amoroso mas um pouco instável, entra na aula de rompante e em tronco nu. Trazia a mão na anca, um olhar de ‘quem não era nada com ele’ e a camisola, vermelha, ao ombro. E vinha muito atrasado. De imediato lhe ordenei, com firmeza, que saísse, vestisse a camisola, batesse à porta e entrasse. Depois de aquela criatura magricela sair só tivemos que esperar uns instantes até ouvir bater. Mandei entrar e, para gargalhada geral, vêmo-lo passar, triunfante, e dirigir-se ao seu lugar, com uma camisola azul vestida. Onde a foi buscar e o que fez à outra não faço ideia.
•• No corredor, duas miúdas do 1º ano, abraçadas e sorridentes, dirigem-se a mim nestes termos:
“Nós somos namoradas! Somos gays!”
A propósito da greve, deixem-me só dizer, fiz sim senhor. Mas tive muitas dúvidas. Este processo foi muito mal conduzido por todas as partes. Houve uma verdadeira dramatização de todo o caso (e vamos para o 2º acto). A ministra quis obter poder negocial conquistando a opinião pública. Eu em parte compreendo-a (e ouço muitas críticas por causa disso), atendendo à dificuldade em fazer mudanças profundas no sistema. É que eu ouço muitas bocas dizerem ‘sou a favor da avaliação, mas contra este modelo’, mas vejo alguns olhos, e oxalá eu me engane, dizendo o contrário. De qualquer modo, a ministra insistiu por demasiado tempo com o formato, que é de facto muito pesado. Mas eu defendo uma avaliação que distinga verdadeiramente o desempenho de cada um, e estou preparada para aceitar alguma carga adicional de trabalho que ela acarrete. Felizmente, bem o sei, estou longe de ser caso único.
Monday, December 8, 2008
De quanto vimos
Saturday, December 6, 2008
El chino torero

A cena tauromáquica alternativa está cada vez mais ao rubro. Encontrei este cartaz numa airosa, distinta e, de seu natural, mui serena localidade, algures na região do Vale Interior. Há um toureiro chinês e forcados anões!

